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16 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


 
Tarô e Psicologia
 
Tarô e sincronicidade:
reflexões à luz da nova ciência
Lívia Krassuski
Mestranda em Artes Visuais
 
Trabalho de mestrado em Artes Visuais, disciplina Imagem e Novos Meios, sob direção do Prof. Dr. Milton Terumitsu Sogabe, no Instituto de Artes da UNESP, campus S. Paulo.
A Autora agradece a Profa. Dra. Claudete Ribeiro, sua orientadora,
a Matina Firmo Moreira e a Rodrigo Egon Chust, pelo apoio recebido.
 
    
    O presente trabalho é uma reflexão acerca dos fenômenos que concernem à adivinhação e à sincronicidade à luz dos conceitos de C. G. Jung sobre arquétipos e inconsciente coletivo. Trata da interação entre as cadeias de causalidade nos eventos físicos e psíquicos e uma possível ligação com fenômenos descritos pela atual física quântica.
    
Introdução
    Apesar do apreço de que desfruta junto ao grande público, é surpreendente a pequena atenção dedicada ao tarô pelos pesquisadores acadêmicos em todo mundo, já que se trata de um riquíssimo material simbólico de inegável valor cultural. Por meio desta contribuição, procuro redimi-lo deste preconceito.
    O tarô pode ser abordado segundo duas óticas distintas: a tarologia e a taromancia. A primeira, de caráter racional, e a segunda, de cunho intuitivo, complementam-se mutuamente, convergindo para o auto-conhecimento e orientação pessoal.
    A tarologia estuda o tarô em sua história, sua estética, os símbolos e atributos de cada arcano, suas manifestações e possíveis significados. Sob esse prisma o tarô pode ser compreendido como um jogo, sob o aspecto da História da Cultura; como obra de arte, sendo produto estético de um determinado contexto sócio-cultural e como um texto em forma de símbolo, cujo conteúdo iconográfico revela-se um sistema de leitura visual de poderoso apelo imagético.
    Já a taromancia trata do uso oracular do tarô. O tarô não se trata, afirmam os tarólogos, de um oráculo de previsão do futuro, mas de um instrumento de reflexão que se utiliza de técnicas específicas de interpretação baseadas na intuição. É crescente o interesse deste jogo por pesquisadores sérios, particularmente psicoterapeutas, que consideram essas cartas como o receptáculo de um complexo sistema de auto-conhecimento.
    Essa noção tornou-se mais clara após os trabalhos do neurologista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), que lançou as bases da psicologia analítica. Através de seu trabalho, Jung demonstrou que a maior parte das formas de insanidade e desorientação mental era causada por um estreitamento da consciência, e que quanto mais estreita e racionalmente focalizada fosse a consciência de um indivíduo, maior seria o risco de ser “esmagada” pelas forças universais do que conceituou como inconsciente coletivo. Daí a importância de ampliar e fortalecer a consciência através de todas as formas não-racionais de percepção e conhecimento que, por meio de um mecanismo que denominou sincronicidade, são os liames para o significado ainda não compreendido do inconsciente coletivo. Por isso interessou-se por simbologias como a astrologia e o tarô, dentre outras.
    Atualmente fala-se até em processos quânticos envolvendo essa chamada sincronicidade, que vem a ser um dos temas em foco neste trabalho.
    Justificativa
    Este estudo tem por objetivo contribuir para minha dissertação de mestrado, cujo tema central são os símbolos, abordados fundamentalmente segundo a perspectiva de C. G. Jung.
    
A concepção junguiana de inconsciente
    Inicio esta exposição com alguns conceitos fundamentais da teoria junguiana, a fim de fornecer ao leitor uma base para a posterior compreensão da discussão proposta por esta monografia.
    Apesar de outros teóricos já terem esboçado a idéia de inconsciente desde a Antigüidade, é atribuído a Sigmund Freud, médico neurologista que viveu em Viena e Londres entre 1856 e 1939, a estruturação de seu conceito, bem como a aceitação deste pelo meio acadêmico.
    A dificuldade em conceituar o inconsciente deriva da impossibilidade de abordá-lo diretamente. Os estudiosos do assunto tinham de lidar com um fenômeno que não existia de modo concreto e portanto não era comprovável cientificamente, podendo apenas ser deduzido de forma indireta, por meio dos sintomas, sonhos e expressões simbólicas.
    A partir de 1890, Freud define o inconsciente como uma unidade mental de funcionamento autônomo em relação à consciência. Nesta época, procurava explicação para os lapsos de consciência, como os atos falhos e o esquecimento. Deve-se à sua teoria psicanalítica a compreensão dos mecanismos psicológicos envolvidos nessas situações. Juntamente com o desenvolvimento da teoria da interpretação dos sonhos, conseguiu, perante ao meio científico, relativa aceitação da existência da instância psíquica do inconsciente.
    Jung foi além deste conceito, afirmando que o inconsciente é sempre regido pelas mesmas normas, tanto em indivíduos normais quanto os que apresentam distúrbios mentais.
    Em seus atendimentos clínicos, Jung percebeu que pacientes esquizofrênicos freqüentemente apresentavam formas primitivas de pensamento, muito próximas ao universo mítico e onírico dos povos primitivos. Constatou que estes conteúdos psicológicos delirantes possuíam uma estrutura semelhante, mesmo ocorrendo em períodos históricos e civilizações distintas. Por sua aproximação com comportamentos primitivos, denominou estas estruturas de arquétipos.
    O aprofundamento de suas pesquisas e o aprimoramento do método de interpretação de sonhos e dos processos de simbolização possibilitou-lhe consolidar um dos conceitos basilares da psicologia analítica, o de inconsciente coletivo, ao notificar a ocorrência dessas formas de pensamento arcaicas também em pacientes normais, especialmente em momentos de crise e de grandes mudanças de vida, quando se observa intensa transformação psicológica, como na adolescência, durante a gestação ou após um incidente traumático. Concluiu que se tratam de conteúdos que habitam o inconsciente de maneira universal, que formam uma camada mais profunda, de natureza coletiva, ao contrário do que chamou de inconsciente pessoal, constituído pelas vivências pessoais do indivíduo.
    Em suma, arquétipo pode ser definido como uma estrutura conceitual e abstrata que somente pode ser avaliada por sua representação; de modo complementar, surge a noção de símbolo, a representação em uma imagem do conteúdo de um arquétipo expresso pelo inconsciente. Ou seja, sempre que um arquétipo assume forma, ele se caracteriza como um símbolo.
    
Pensamento causal e pensamento sincronístico
    Nos primórdios da humanidade, todas as civilizações primitivas lançavam mão de técnicas de adivinhação com o intuito de comunicarem-se com a divindade. Com o passar do tempo, este hábito tornou-se uma prática secreta, mágica e desprezada pelos homens de ciências.
    Para Jung, a adivinhação apóia-se sobre o conceito de sincronicidade. Segundo citação de FRANZ (1997, pág. 7), no prefácio da edição inglesa da tradução de Richard Wilhelm do livro I Ching, O livro das mutações, Jung define a diferença entre pensamento causal e pensamento sincronístico. O primeiro pode ser chamado de linear: observa, em uma seqüência de eventos, cada fato como conseqüência de uma causa, que é conseqüência de outra causa, encadeando-as linearmente no tempo, de forma retrospectiva.
    As pesquisas em física realizadas no séc. XX apontaram que esse princípio, no nível microfísico, já não é totalmente válido; a causalidade deixou de ser uma lei absoluta para ser considerada apenas uma tendência ou probabilidade dominante. Há casos em que parece que o efeito deu-se antes da causa. Ou seja, a causalidade pode satisfazer nosso pensamento ocidental, lógico, cartesiano, contudo não explica completamente as leis naturais, limitando-se a esboçar tendências ou possibilidades de certo evento vir a ocorrer.
    Já o pensamento sincronístico pode ser chamado de pensamento de campo, cujo centro é o tempo. Nele, a questão não se fixa em saber qual fato gerou tal efeito, mas o que é provável de ocorrer conjuntamente, num dado instante, de modo significativo. A civilização chinesa desenvolveu esse pensamento muito mais do que qualquer outra; para os chineses, o centro do conceito de campo seria um instante de tempo radial que aglomera um conjunto de eventos.
    Nosso pensamento ocidental, dito linear, também tende a segregar os eventos psíquicos dos eventos físicos. Porém, as ligações entre essas duas cadeias de causalidade podem ser provadas. Um fato físico pode levar a um fato psíquico, e a interação causal entre essas duas linhas (física, externa, e psíquica, interna) começa a ser investigada agora em nossa cultura. Já no modo sincronístico de pensar, essa distinção jamais foi feita. Nesta concepção da realidade, é totalmente relevante e significativo associar que em dado momento em que tivemos tais sonhos ou tais pensamentos (eventos psíquicos, internos) ocorreram também certos eventos exteriores.
    Jung, em seu ensaio Sincronicidade: um princípio de conexões acausais, destaca que os chineses não fizeram do I Ching apenas um sistema oracular, como na maioria das antigas civilizações, mas tornaram-no uma completa concepção filosófica de mundo.
    Até o final do séc. XIX, a concepção chinesa do mundo era baseada em que tudo era energia em fluxo. Hoje, no ocidente, tendemos a pensar o mesmo, mas chegamos a essa conclusão bem mais tardiamente, com base em métodos científicos. O pressuposto primordial chinês sempre foi, desde a Antigüidade, de que exterior e interiormente, tudo é um fluxo de energia regido por determinados ritmos numéricos básicos e periódicos, uma espécie de matriz do cosmo. Esta idéia está presente em toda a aplicação cultural e científica da matemática na China. Analogamente, existe hoje, na física moderna, quem procure por um “ritmo básico do universo”, que explicaria a integração entre os mais diversos fenômenos.
    
Irracionalidade e parapsicologia
    Recuperando um pouco de nossa história da ciência, é sabido que até os anos 30 do século passado, a maioria dos matemáticos estava preocupada em definir fundamentos. Em 1926, David Hilbert construiu alguns axiomas que, ele acreditou, deveriam constituir os alicerces de todo conhecimento matemático sem contradições internas. Em 1931, porém, Kurt Goedel encontrou uma série de contradições nesses axiomas; demonstrou ser possível, a partir deles, provar alguma coisa e também o seu oposto, mostrando que esses axiomas básicos contêm um fator irracional impossível de ser eliminado.
    A partir desse momento, a ciência passou a admitir a existência desse componente irracional em qualquer fenômeno, notadamente na física. Qualquer fragmento da existência fenomenal, como, por exemplo, uma simples caneta, contém algo de irracional que é impossível de ser esgotado na análise física. Não é possível explicar, por exemplo, porque as partículas atômicas que constituem uma caneta estão ali agrupadas, naquele lugar, e não em outro. Ou seja, qualquer segmento da natureza possui um fator irracional básico inexplicável, que é passível apenas de ser descrito, como na física, situado em um background do possível.
    Hermann Weyl, famoso matemático autor de Philosophy of Mathematics and Natural Science, ao admitir este fato, espanta-se, porém, que a série de números inteiros naturais, que teriam sido, em sua concepção, criados pela mente humana, “também contenha um aspecto de algo abissal, insondável, que não podemos apreender.” (WEYL, apud FRANZ, 1997, pág. 19). Mas é justamente por este fato que os fundamentos da matemática não são sólidos, pois toda a matemática baseia-se na admissibilidade dos números inteiros naturais.
    Segundo a psicóloga junguiana Marie-Louise von FRANZ (opus cit., pág. 21), se nos servirmos dos números para apreender o irracional, estaremos usando meios irracionais para captar algo irracional, e esta seria a base da adivinhação. Na ciência moderna, físicos e psicólogos debruçam-se sobre pesquisas que tentam descobrir a ligação da física com a psicologia na área dos fenômenos parapsicológicos. Para Jung, a adivinhação está relacionada com a sincronicidade, e ele denominou os fenômenos sincronísticos de parapsicológicos.
    
Mente racional e o aspecto dinâmico do inconsciente
    Jung chamou o número de a expressão mais primitiva do espírito, e espírito, em sua concepção, é o aspecto dinâmico do inconsciente. Segundo ele, em suma, o espírito ou dinamismo do inconsciente possui três aspectos: contém um princípio psíquico espontâneo de movimento e atividade; possui a capacidade de criar livremente imagens para além de nossa percepção sensorial e manipula de forma autônoma e soberana essas imagens.  (FRANZ, op. cit., págs. 22-23).
    Quanto maior e mais desenvolvida torna-se nossa consciência, mais nos apossamos de certos aspectos do espírito do inconsciente, trazendo-os para nossa subjetividade; porém, grande parte do fenômeno original preserva sua autonomia, sendo, portanto, ainda experimentada como fenômeno parapsicológico. Ou seja, não devemos supor, no atual estágio de consciência de nossa civilização, que obtivemos o completo domínio do conteúdo do espírito inconsciente só porque o ego se apropriou de parte dele e consegue manipulá-lo. Existe uma imensa área do espírito que ainda se manifesta hoje como o fazia originalmente, de forma totalmente autônoma, ou seja, como fenômeno parapsicológico, como ocorre entre os povos primitivos.
    Na Antigüidade, os pitagóricos consideravam os números naturais como princípios divinos cósmicos que formavam a base do universo, ou seja, uma invenção da divindade.
    Atualmente, numa época em que impera o racionalismo na ciência, grandes esforços foram feitos na matemática formalística para definir o número excluindo todos os elementos irracionais, definindo-os como uma série de sinais (1, 2, 3, 4...) e sendo produto criado pela mente humana. Na acepção junguiana, porém, os números não são uma criação da mente racional humana, mas sim entidades concebidas pelo espírito criativo do inconsciente, ainda que a mente humana seja capaz de postulá-las e manipulá-las.
    Franz conclui que o desenvolvimento global da matemática deu-se assim: “de deuses que eram, os números foram dessagrados e convertidos em algo que é arbitrariamente postulado pelo ego de um matemático”. (op. cit., pág. 27). Assinala, também, que um desenvolvimento paralelo ocorreu na física, onde atualmente utiliza-se cada vez mais do conceito de probabilidade e se procura ignorar ao máximo o caso único. Chega-se, então, à seguinte situação: toda a matemática e seu uso na física moderna amparam-se no princípio da admissão de serem incapazes de fazer predições singulares de eventos únicos; no entanto, almeja-se conseguir fazê-lo quando se trata de bilhões de eventos, quando as predições adquirem uma grande dose de exatidão. O inimigo é, por assim dizer, o acaso; ele é que tem de ser eliminado pelo maior número possível de repetições.
    Porém, é necessário que não percamos de vista que o cálculo de probabilidade e os métodos estatísticos em que se baseiam a ciência moderna não passam de abstrações que se fundamentam na idéia da série infinita dos números inteiros naturais, e que só adquirem precisão ao pressupor-se um número infinito de eventos ou exemplos. Segundo FRANZ (1997, pág. 33):
  O Dr. Jung sempre exemplificou isso dizendo que, se tivermos uma pilha de pedras, poderemos dizer com absoluta exatidão estatística que o tamanho médio delas é, digamos, três centímetros cúbicos; mas se quisermos apanhar uma pedra exatamente desse tamanho, estaremos em apuros para consegui-lo; talvez encontremos uma – ou talvez nenhuma. Em outras palavras, embora seja verdadeira a afirmação de que o tamanho médio das pedras da pilha é de três centímetros cúbicos, trata-se de uma abstração em nossas mentes. Formulamos essa abstração em nossas mentes, ela é acurada na medida em que é verdadeira, mas a realidade da pilha de pedras, onde cada pedra é diferente, não é essa.     
    Ou seja, posso afirmar conclusivamente que, através da estatística e do cálculo de probabilidades, é possível apenas reconstruir um modelo abstrato da natureza em nossa mente, modelo este que não abrange a realidade toda. Mesmo que seja uma informação útil, é um conhecimento parcial que exclui uma infinidade de segredos, bem como infinitos outros caminhos possíveis de se explorar a realidade.
    
Experimento científico e oráculo de adivinhação
    Se ainda hoje o homem acredita que pode dominar uma série infinita de números naturais, isso constitui-se numa prova de arrogância e um auto-engano, pois uma verdade estatística não é a verdade, na medida em que provém de um conceito abstrato e não da própria realidade.
    FRANZ afirma que “esse desmembramento entre manipular o infinito possível, como se fosse uma unidade, em contraste com o inteiro natural individual, representa uma cisão no pensamento matemático moderno, e a mesma divisão existe entre o experimento científico e o oráculo de adivinhação.” (op. cit., pág. 41).
    Desta forma, a diferença entre um experimento científico e um oráculo adivinhatório é que, no primeiro caso, o acaso é um fator de perturbação que se procura eliminar; já no oráculo, o acaso constitui-se na fonte de informação. A ciência procura eliminar o acaso, o oráculo toma-o como o centro; o experimento baseia-se na repetição, no cálculo de probabilidades, o oráculo no ato único, singular. São, pois, fenômenos mutuamente complementares.
    Apesar de o cálculo de probabilidades ser apenas uma abstração que não fornece dados definitivos, nosso tradicional método de pesquisa positivista sustenta que é possível, por este meio, explorar a realidade física do universo. Entretanto, existem na atualidade físicos de orientação mais filosófica que perceberam que a visão de mundo fornecida mediante o cálculo de probabilidades é um mero artifício mental. Na concepção de Bohr e de Heisenberg da física quântica, o acaso deve ser um fator objetivo na natureza, com o qual o cientista tem de se defrontar.
    O evento único, que nunca se ajusta ao resultado esperado para um experimento físico, hoje em dia é chamado de condição limítrofe, ou os resultados únicos são denominados condições limítrofes. Na física há todo um conjunto de fatos a que se dá o nome de condições limítrofes, eventos aleatórios para os quais ainda não se tem formulada uma lei. Segundo Eddington, em The Philosophy of Physical Science, sempre existiram condições limítrofes, e nelas ele incluiu um campo que denomina atos volitivos do homem. Este cientista considera que a volição provém de um pequena mácula no cérebro, que vem a ser um grande mistério que o físico não consegue resolver e, portanto, descarta-o de sua pesquisa. Mas nisto reside nosso ponto de interesse, porque na concepção junguiana realmente existem volições tanto nas instâncias consciente quanto inconsciente da psique.
    
Arquétipo: fator de probabilidade psicológica
    Jung afirmava que esses atos de volição provêm de energia disponível. Portanto, as antigas técnica oraculares, como o I Ching, constituíam-se em tentativas de descobrir as probabilidades ou as relativas regularidades da situação psicológica humana.
    As grandes tensões internas surgem quando se configura uma constelação arquetípica, em que os arquétipos funcionam como núcleos de energia dinâmica da psique. Numa situação tensa, é altamente provável que um arquétipo esteja constelado no inconsciente. Este é o momento indicado para se consultar um oráculo, quando há condições de se obter uma resposta que faça sentido. Pode-se afirmar, de certo modo, que o arquétipo é um fator de probabilidade psicológica. É por esse motivo que um psicólogo consegue vislumbrar, até certo ponto, a dimensão do problema consciente do paciente, antes mesmo de lhe ser revelado, a partir da constelação inconsciente (por exemplo, a partir de um sonho arquetípico).
    O arquétipo, desta forma, pode ser definido como uma estrutura que condiciona certas probabilidades psicológicas, e os oráculos expressam tentativas de se alcançar essas estruturas. Jung, em seu ensaio sobre sincronicidade, afirma que todos os eventos sincronísticos, nos quais incluem-se todas as técnicas divinatórias, são atos de criação e, assim sendo, únicos.
    Um evento sincronístico é sempre um ato criativo no tempo e, portanto, uma história singular e imprevisível. Assim como um físico não pode predizer um evento único de maneira totalmente acurada, um oráculo não pode, analogamente, predizer um acontecimento preciso. Mas pode ser útil ao fornecer uma “lista de expectativas” dentro de um certo campo qualitativo de eventos, e predizer algo que possivelmente possa ocorrer dentro dessa área. Existe certa probabilidade psicológica, devido ao que Jung definiu como inconsciente coletivo. Isto quer dizer que existe a propensão de todos nós reagirmos de uma certa maneira, em dada situação, porque nossa estrutura psicológica mais básica é formada por padrões coletivos de comportamento – os arquétipos, como bem ilustra NICHOLS (1997, pág. 26):
  Tais arquétipos funcionam na psique de maneira muito parecida com a que os instintos funcionam no corpo. Exatamente como um recém-nascido chega com uma tendência inerente para mamar ou para assustar-se com um barulho forte, assim a sua psique mostra tendências hereditárias cujos efeitos podem ser observados de maneira semelhante. Está claro que não podemos ver essas forças arquetípicas, como, de fato, não podemos ver os instintos; mas experimentamo-las em nossos sonhos, visões e pensamentos de vigília onde aparecem como imagens.  
    É devido a tudo isso que, quando a divindade (isto é, o arquétipo do Si-mesmo, o espírito do inconsciente) joga, ela cria o destino, porque sua criação é um fenômeno sincronístico.
    
A ideologia chinesa e o aspecto qualitativo do número
    Em chinês antigo, “calcular” e “adivinhar” são termos tão próximos que não se pode saber precisamente a qual termo se está referindo. Na época, um matemático era um astrônomo e um astrólogo, porque todo conhecimento matemático era voltado para a adivinhação, eis porque a expressão Suan-chu se empregava para definir tanto “adivinho” quanto “matemático”.
    Obviamente, o número indica uma quantidade, mas em seus primórdios também indicava qualidade ou o padrão de uma estrutura, caráter que se perdeu no ocidente ao longo do desenvolvimento da teoria do número. Para os chineses, os números descrevem relações regulares entre os eventos e diversas coisas, mas diferentemente de nós, que os consideramos no aspecto quantitativo, os chineses qualificam a ordenação concreta das coisas mediante o caráter qualitativo dos números. Para esta civilização oriental, o aspecto quantitativo destes é trivial, menor. O que realmente lhes interessa é que o número pode refletir a qualidade de uma situação. Por exemplo: se alguma coisa é um, então relaciona-se com o todo, o Tao, o universo em sua integridade; já o três expressa unanimidade, e assim por diante.
    Como afirmei no início deste estudo, em sua perspectiva sincronística, os chineses não perguntam, como nós ocidentais fazemos, o que foi que fez alguma coisa acontecer, mas o que é provável que aconteça em conjunto. Daí exploram esses conjuntos de eventos internos e externos. Este é, por exemplo, o modo como os chineses narravam sua História, descrevendo fatos aparentemente desconexos, aos nossos olhos ocidentais, que teriam ocorrido, por exemplo, no ano da serpente. Mas para o povo chinês, tudo aquilo fazia muito sentido, graças à noção intuitiva que tinham de como o tempo fora constelado em determinado momento e de que todos aqueles eventos tinham de ocorrer conjuntamente.
    Paulatinamente, os ocidentais estão sendo obrigados a reconhecer que existe, de  fato, uma tendência para as coisas acontecerem juntas, uma real propensão dos eventos para se aglomerarem num mesmo instante. Tem-se notícia de numerosas coincidências na arte e na ciência, uma curiosa tendência para que vários pesquisadores tenham, num mesmo momento, uma mesma idéia, de modo totalmente independente. Rupert Sheldrake atribuiu este fato ao que conceituou como “campos mórficos”, campos invisíveis construídos por nossas mentes que seriam responsáveis por manterem diversas pessoas conectadas com acesso ao mesmo acervo de informações. À luz da teoria de Jung, esta é apenas uma outra maneira de dizer que certos eventos tendem a ocorrer juntos porque há um arquétipo constelado no inconsciente coletivo.
    Os chineses já tinham uma percepção intuitiva acerca disso desde longa data, por isso achavam que a melhor maneira de escrever a História seria reunindo um complexo de fatos coincidentes que, em conjunto, consolidam um quadro legível da situação arquetípica que havia naquele momento histórico. Eis a forma como os chineses usam o número: o número informa sobre um conjunto de eventos ligados pelo tempo; a cada momento corresponde um número que fornece dados sobre a estrutura qualitativa de cada conjunto.
    Ou seja, sob a perspectiva da psicologia junguiana, podemos afirmar que o número consiste numa idéia arquetípica que apresenta um caráter quantitativo e outro qualitativo.
    
A idéia arquetípica de campo e a mecânica quântica
    O I Ching, segundo Richard Wilhelm, pode ser comparado a uma enorme rede elétrica que abrange todas as possibilidades. Formular uma pergunta seria como acionar um interruptor, acendendo uma parte da rede. Isto, evidentemente, relaciona-se à visão de mundo chinesa, que desde suas origens, até o final do séc. XIX, já se estruturava sobre o que chamamos na matemática ocidental de matriz numérica. Todos os aspectos da vida, desde a agricultura, a arquitetura, a música até normas de comportamento social,  eram definidos por esse padrão numérico, porque pensava-se ser ele o ritmo básico do universo.
    O uso de matrizes numéricas tem sido cada vez mais recorrente na matemática moderna, com ampla aplicabilidade na informática. Os chineses, apesar de nunca as terem desenvolvido a esse ponto, desde os primórdios de sua cultura lançaram mão desses campos numéricos em sua forma básica, tanto para calcular como para adivinhar, conforme expus anteriormente. Isso corresponde à idéia arquetípica de campo, e o conceito de campo, atualmente, está presente em todos os ramos da ciência.
    Lancelot L. Whyte, no âmbito das ciências naturais, conceitua campo como uma rede de relações existente em toda e qualquer situação. Para este cientista, campo, no nível das partículas elementares, traduz-se na tendência à ordenação, tanto em suas posições quanto à sua movimentação de forma não-aleatória. Não se trata apenas de um conceito teórico, mas de um fator ativo, pois um campo eletrodinâmico define ativamente uma ordem segundo a qual as partículas são arranjadas.
    Marie-Louise von Franz introduz um interessantíssimo paralelo entre a ciência e a psicologia: propõe a hipótese de que o inconsciente coletivo comporta-se como um campo de energia psíquica, cujos pontos ativados são os arquétipos, nos quais é possível, de modo análogo ao campo físico, definir relações de vizinhança de modo significativo.
    Exemplifica citando o fato de que é possível, na mitologia, formar uma teia totalmente coerente de todos os grandes arquétipos, pois há sempre uma lenda que liga dois ou mais arquétipos encadeando uma nova história. Ou seja, um arquétipo “puxa” outro, atestando que em um campo, em toda e qualquer situação, há uma rede atuante de relações.
    Segundo Jung, uma história arquetípica, como uma lenda ou sonho, é um fluxo de eventos, uma seqüência de imagens que representam um certo fluxo de energia psíquica. Tendo sido um homem muito culto, que estudou inúmeras culturas, seus mitos e lendas, Jung concluiu que não existem apenas temas típicos nas histórias arquetípicas, mas também seqüências típicas de eventos arquetípicos, que ocorrem num determinado ritmo ordenado. O físico Wolfgang Pauli imaginou que esta constatação poderia explicar o fenômeno da precognição: nossa psique inconsciente, sabendo qual arquétipo está agora constelado, seria capaz de prever o que viria a seguir.
    
Tarô: um imenso dicionário simbólico
    Medimos nossa vida em tempo gasto e espaço percorrido. Cientificamente, sabe-se que o tempo é uma condição psicológica, derivado de nossa percepção do espaço percorrido. Não obstante, passamos a vida preocupados com o tempo, apegados às noções (ilusórias) de presente, passado e futuro, com uma ansiedade particular em relação ao futuro. Daí defrontamo-nos com o seguinte paradoxo da futurologia: se o futuro está pronto e acabado em alguma dimensão misteriosa, podendo ser previsto, de que vale conhecê-lo antecipadamente, se não pode ser modificado? Ou, se o futuro só fica pronto quando acontece, como é possível conhecer algo que se modifica sem cessar?
    Eis porque o tarô, como qualquer outro oráculo, não pode ser um instrumento de previsão do futuro; ele só pode referir-se ao tempo presente, aos fatos que circundam o consulente no momento atual da consulta. “Adivinhação” não é nada além do que intuição utilizada de forma consciente, no momento em que um evento psíquico (revelar certos arquétipos, isto é, tirar determinadas cartas) coincide com o evento físico (a situação de vida que o consulente atravessa), por sincronicidade, conforme exposto previamente.
    É certo que o tarô consiste num sistema, uma chave de acesso aos mundos interiores, na forma de um jogo; um caminho para o inconsciente construído por símbolos culturalmente determinados, porém de conteúdo e aplicação universal, que são os arquétipos.
    Cada um dos 78 arcanos é uma imagem simbólica que expressa o conteúdo de um arquétipo. Por exemplo, o arcano III, A Imperatriz, simboliza o poder matriarcal, que gera, nutre e protege; o arcano IX, O Eremita, representa o ancião sábio e conselheiro, e assim por diante.
    Da combinação das cartas cria-se um texto pictórico que contém todas as possibilidades arquetípicas da existência e evolução humanas em suas mais diversas expressões, como um imenso “dicionário simbólico”.
    Dentro de qualquer escola, religião ou tradição, os símbolos podem ser manipulados e adquirir significado muito variável. Apesar de o sistema sofrer modificações ao longo do tempo, ao ser revisado por diferentes indivíduos, o mesmo não se altera radicalmente; e é a concordância ao longo do tempo quanto ao significado de um conjunto de símbolos que transforma um sistema numa tradição.
    É importante, entretanto, ressaltar que o fundamental na carta é o elemento simbólico por ela representado, que remete sempre ao mesmo conteúdo arquetípico, independentemente do estilo em que está retratada a figura. Não obstante, as variações no desenho de diferentes baralhos conferem sutis alterações de conteúdo.
    
Considerações finais
    Todos os aspectos aqui discutidos convergem para a conclusão de que no inconsciente não existe uma seqüência linear de acontecimentos. Esse modo linear é como funciona nossa mente consciente, organizada segundo as condições de tempo e espaço; não obstante, de alguma maneira tempo e espaço tornam-se relativos na instância inconsciente, o que permite explicar a adivinhação por meio do conceito de sincronicidade.
    A discussão acerca da idéia de campo remete-me, ainda, ao papel que desempenhamos de co-criadores do universo que nos circunda, segundo a mecânica quântica. De acordo com essa teoria, tudo o que existe o é enquanto potencialidade até que seja determinado por um ato de observação. Na condição de observadores conscientes, definimos uma das múltiplas possibilidades de configuração da realidade. Apesar de esta teoria ter sido rechaçada por parte da comunidade científica para explicar fenômenos paranormais, como a precognição, esta visão sem dúvida atribui uma responsabilidade muito maior a cada indivíduo ao interagir com o mundo que o cerca.
    Finalmente, acredito que este estudo tenha contribuído para demonstrar a validade das consultas oraculares, dentre as quais destaco o tarô, no percurso de auto-conhecimento do ser humano.
    
Referências bibliográficas
FRANZ, Marie-Louise von – Adivinhação e Sincronicidade: a Psicologia da Probabilidade Significativa. São Paulo, Cultrix, 1997.
NICHOLS, Sallie – Jung e o Tarô – Uma Jornada Arquetípica. São Paulo, Cultrix, 1997. 
    
Bibliografia complementar
CIRLOT, Juan-Eduardo – Dicionário de Símbolos. São Paulo, Moraes, 1984.
CECCON, Cláudia Maria Haase – A Dialética dos Símbolos: O Caminho das Imagens na Perspectiva de Carl Gustav Jung. Dissertação de Mestrado. São Paulo, IA - Unesp, 1998.
FOGLIANO, Fernando e SOGABE, Milton – O Observador na Ciência e na Arte. (texto fornecido em aula)
GLEICK, James – Caos: a Criação de uma Nova Ciência. Rio de Janeiro, Elsevier/Campus, 1989.
JUNG, Carl Gustav – O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977.
JUNG, Carl Gustav – Sincronicidade: um Princípio de Conexões Acausais. Petrópolis, Vozes, 14a. Edição.
NAIFF, Nei – Tarô, Ocultismo & Modernidade – Estudos Completos do Tarô, volume I. São Paulo, Elevação, 2002.
WANG, Robert – O Tarô Cabalístico – Um Manual de Filosofia Mística. São Paulo, Pensamento, 1998.
Contato com a autora:
Lívia Krassuski
- liviakrassuski@gmail.com
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