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17 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


O Tarô e algumas questões semânticas
Cid Marcus
 
Professor de Mitologia e Astrólogo
A Semântica é um ramo da Lingüística que se ocupa do significado das palavras. Faz parte da Semântica a Etimologia, que estuda as origens das palavras. Semântica vem do grego, sema, sinal distintivo, marca. Já Etimologia, do grego também, vem de "etymos", verdade, e "logos", palavra.
A Etimologia nos revela que as palavras têm uma história. Desde que criadas passam elas de geração em geração, por séculos e séculos, milênios muitas vezes, carregando experiências, sentidos que se perdem, que se alteram. Como nós, as palavras nascem, vivem, envelhecem e morrem...
Algumas breves incursões etimológicas, acredito, nos ajudarão a alargar um pouco mais o campo semântico de algumas das palavras colocadas em questão no estudo do Tarô.
A palavra Arcano
Primeiro, a palavra arcano. Ela é usada normalmente pelos tarólogos com o sentido de mistério, "arcanum", em latim. No jargão tarológico, arcano e lâmina costumam aparecer como equivalentes. Lâmina, isto é, carta de baralho, é graficamente uma folha ou chapa na qual se encontram pintados ou gravados um retrato, uma figura, imagens.
Em latim, "lamina" é qualquer folha ou pedaço de metal, ou de outra matéria dura, delgada e chata, destinada a usos diversos. Já baralho será o conjunto de cartas ou lâminas usadas para se jogar.
A palavra arcano só se fixa nas línguas latinas por volta do século 15. Para entender melhor o sentido de uma palavra, a recomendação dos mestres é a de que devemos alcançar sempre as suas raízes mais profundas. No caso, ir ao grego, ou melhor, à filosofia grega.
     Arq, arché
Em grego, "arché" quer dizer tanto começo, ponto de partida, princípio, como suprema substância subjacente ou princípio supremo indemonstrável.
Um dos grandes temas da filosofia pré-socrática, presente também no Hermetismo e na Alquimia posteriores, é o da busca de uma substância a partir da qual todas as coisas teriam sido feitas. Era dessa substância que tudo decorria.
A partir desta raiz temos o antepositivo "arqu", em português, com o sentido de "aquilo que está na frente, o que está no começo, na origem, ponto de partida de um entroncamento", traduzindo ainda idéias de poder, autoridade, império, superioridade. Daí, palavras como arcanjo (chefe dos anjos), arquiteto (chefe dos construtores), hierarquia (poder sagrado), anarquia (falta ou ausência de poder), arcaico (obsoleto, primitivo, velho), arquétipo (forjado há muito tempo, padrão, modelo exemplar). Na formação das línguas européias encontramos a raiz "ark", com a indicação de conter, limitar, afastar, exercer, coagir. Exemplos desta raiz estão em muitas palavras do grego, do latim, do francês, do alemão, do castelhano e do português.
     Arca
Enriqueceremos o sentido da palavra arcano se nos detivermos um pouco no simbolismo da palavra arca, derivada do referido radical. De um modo geral, o simbolismo da arca é o mesmo em todas as culturas e tradições. Os hebreus, por exemplo, tinham a Arca da Aliança e a colocavam sempre no lugar mais recôndito do Tabernáculo (santuário portátil). A Arca continha a essência da tradição judaica, desenvolvida na forma das tábuas da lei. A Arca da Aliança tinha as mesmas proporções da Arca de Noé, só que em escala reduzida. A Arca é para o patriarca Noé, para a sua família e para muitos animais a embarcação salvadora. E a partir dessa imagem que se elabora a chamada disciplina arcana, um saber secreto escondido nas pranchas de madeira (lâminas) da Arca. A viagem na Arca daria acesso a esse saber, livrando o viajante do dilúvio, isto é, de se afogar no oceano das paixões.
Noutra direção, arca, analogicamente, era um dos nomes que se dava ao vaso alquímico, princípio maternal, ao qual podemos associar também temas astrológicos (o signo de Virgem) e mitos medievais (o Graal), todos lembrando lugares onde se operam transformações do humano em espiritual, receptáculos onde se encerram possibilidades de renascimento sob uma outra forma mais evoluída.
     Segredo
No latim, "arcanus" toma inclusive o sentido de "em segredo, em particular", funcionando como advérbio. Já o substantivo "arca" é cofre, armário, prisão, cela, de onde sai o adjetivo arcano (arcanus) com o sentido de discreto, seguro, indubitável, infalível, como na expressão de Ovídio, "arcana nox" (noite discreta, infalível).
Arcano será ainda aquilo que se guarda numa arca, num cofre, por ser misterioso, secreto, valioso.
     Enigma
Outra aproximação que podemos fazer é entre arcano e enigma. Comumente, enigma é algo que por suas qualidades ou particularidades é difícil de entender. Os oráculos, na Antiguidade, manifestavam-se por enigmas.
Ora, o Tarô funciona como um oráculo, palavra que na antiguidade indicava tanto um local, o santuário onde se realiza uma consulta à divindade, como a própria resposta que ela dava enigmaticamente através de um médium, uma pitonisa, uma sibila. No lugar de palavras, temos, no Tarô, então, figuras.
Enigma tanto em grego como em latim é algo obscuro, misterioso, que pede a interpretação de um enigmista. Enigmista, no caso, é quem decifra enigmas, função sacerdotal. As atribuições de criar, propor e decifrar enigmas são, como sabemos, do deus Hermes, que tanto fecha como abre o sentido das mensagens, sendo, por isso, ao mesmo tempo, o patrono do Hermetismo e da Hermenêutica. Várias ilações poderiam ser tiradas destas aproximações e relações. Uma delas, muito frutífera quanto às suas possibilidades significativas, seria, por exemplo, a de relacionar o Tarô com o Hermetismo greco-alexandrino e com Hermes Trimegisto.
Significados de "arcano"
    Dessas sumárias incursões etimológicas, entendo que à palavra arcano poderão ser associadas algumas possibilidades significativas como:
1. o profundamente enigmático, misterioso, secreto;
2.  
o que é incompreensível, que não pode ser desvendado, a não ser com o auxílio de um hermeneuta, de um enigmista;
3.  
segredos sobre os mistérios de uma religião, como no Cristianismo primitivo, especialmente quanto à eucaristia (transubstanciação);
4.  
na Alquimia, um dos grandes segredos da natureza que os adeptos procuravam desvendar através da prática da Grande Obra;
5.  
remédio maravilhoso, panacéia universal, elixir, que tudo cura, transforma, regenera.
Partindo das possibilidades significativas que acabamos de alinhar, podemos lembrar, por exemplo, que a palavra arcano tanto nos remete a conceitos de enigma como nos aponta para idéias de cura, de remédio, elixir (símbolo de um estado de consciência transformada) ou, de uma panacéia (nome de uma filha do deus Asclépio, nome que significa "a que cura todas as doenças"). Presente em ambas as colocações está subentendida a presença dessa divindade grega, Asclépio, o deus "toupeira", filho de Apolo, grande deus médico da cidade santuário de Epidauro. Seus sacerdotes decifravam enigmas, os sonhos dos que se internavam no santuário em busca da cura. Esta cura era obtida a partir da "nooterapia", método terapêutico essencialmente espiritual que levava o doente a uma regeneração física, emocional e psíquica, a uma "metanoia", fazendo com ele acordasse para a sua real identidade.
     Mistério
Mais ainda: podemos ir ao grego e levantar o que na Grécia antiga era entendido por mistério, palavra que aparece muito no Tarô). "Mysterion" era uma cerimônia religiosa secreta, nome aplicável principalmente aos chamados Mistérios de Elêusis, que falam de experiências de morte simbólica e renascimento. A palavra "mystes" designava o iniciado nesses mistérios.
Por trás dessas palavras estava o verbo grego "myo", fechar-se, manter a boca ou os olhos fechados, permanecer silencioso.
Lembrar que "mychos", do mesmo campo semântico, é a parte mais baixa ou mais profunda de alguma coisa; a parte mais interiorizada de uma casa, de uma gruta, com relação à sua entrada; o interior de uma cidade, de um país; o fundo mar, da terra, de uma montanha; o interior da inteligência, da alma. O caráter esotérico (eso, dentro, o mais íntimo; ensino ministrado a círculos restritos e fechados) estava sempre presente nas chamadas religiões de mistério na Antigüidade (cultos de Isis, Cibele, Mitra, Zaratustra, Orfeu, Pitágoras etc.), todos exigindo iniciação, catecumenato (processo de aprendizado pelo qual as instruções são recebidas de viva voz), sob orientação de um mistagogo, de um mestre iniciador, um "professor de mistérios". Evidentemente, se pensarmos em tudo isso não há como não deixar de ver o Tarô como um ensinamento esotérico, com todas as conseqüências que dessa constatação possamos tirar...
Tarô, um jogo
Outra questão relacionada ao Tarô, que me parece não suficientemente trabalhada pela maioria dos tarólogos, é a de que ele é um jogo, jogo de cartas que se corporifica num baralho. Esta última palavra tem, ao que parece, origem provençal. A Provença constitui o sul da França. Antiga província, a região, desde o séc. VII aC, era visitada pelos gregos, que a colonizaram, fundando no litoral Massalia, futura Marselha. A língua da região era (é) o provençal, também chamado de dialeto occitano.
Quanto a jogo, a palavra é colocada normalmente dentro de um campo semântico muito restrito, sendo vista como designativa de uma atividade sem finalidade útil, ou quando muito, por psicólogos ou pedagogos, como uma possibilidade de análise superficial do caráter do que a ele se entrega.
No mais, o jogo é via de regra considerado como uma atividade gratuita, não de todo inútil, que pode funcionar como relaxante, redutor de tensões etc. Ora, a palavra jogo aparece aqui como um sema que se abre para propostas que vão muito além de tudo isto. Perdem-se, se ficamos presos à visão restritiva da palavra, aberturas muito ricas que ela poderá nos dar.
     O jogo e a luta do herói
O jogo, quando o consideramos por esta perspectiva mais ampla, em que a colocavam os povos da Antigüidade, é atividade fundamentalmente agônica (agon, luta) trazendo imagens de luta, combate, acaso, simulacro, determinismo, covardia, heroísmo... Como para o herói grego, sempre uma personalidade agônica, angustiada, a luta aparece aqui como meio de captação de poderes, para que, empenhado no combate, vitorioso, seja a ele possível tanto o aumento da sua capacidade vital como redimensionada a sua personalidade. O jogo vai além de uma atividade específica ao pôr em ação uma totalidade de figuras, de símbolos, implicando, ao mesmo, noções de totalidade, de regras e de liberdade.
     Jogos sagrados
    O Tarô faz parte, dentro das doutrinas esotéricas, do mundo dos jogos sagrados (o aprendizado do herói na Grécia mítica era feito através dos jogos), que pode abrir aos que a eles se entregam várias possibilidades de transcendência.     
Todavia, qualquer que seja a avaliação que possamos fazer do Tarô como sagrado, para mim parece claro é que ele escapa a qualquer tentativa de sistematização, pois parece haver nele, sempre, algo impossível de alcançar. No mais, e acima de tudo, é preciso lembrar sempre também que temos de entrar nele, diante de seu aspecto divinatório, com uma proposta de imaginação educada e com uma grande cautela de julgamento, qualidades que só podem ser obtidas através de uma longa prática (o Tempo, queiramos ou não, nas doutrinas esotéricas, é o Grande Mestre) e com o imprescindível concurso da mente usada diacrônica e sincronicamente, como na Mitologia.
     Baralho
Baralho, "baralha" em provençal, é o nome dado a um conjunto de cartas de jogar, de número variável, conforme o jogo. A palavra teria vindo de "varalia", esta por sua vez oriunda de "vara", isto é, de uma braçada de varas ou de vimes, a indicar entrelaçamento, urdidura. No castelhano, baralho pode ser "baraja". A palavra, desde que fixada no provençal, toma o sentido de confusão, conflito, disputa, de algo sem organização, desarrumado. Os baralhos, como se sabe, têm origem oriental, derivando todos diretamente das lâminas de cartomancia já conhecidas dos antigos egípcios, chineses, indianos e árabes.
     Mancia
    O Tarô, num certo sentido, faz parte também daquilo que os antigos gregos chamavam de mancia (manteia, em grego), adivinhação por meio de algo designado pela palavra que a precede. Cartomancia será, pois, a adivinhação pelas cartas. Uma arte divinatória. Adivinhar é descobrir o que está oculto, seja por meios sobrenaturais, supranormais ou por engenhosos artifícios, algo que geralmente não se pode conhecer ou que não é naturalmente cognoscível. Lembremos que adivinhar vem do verbo latino "divinare", predizer o futuro, pressagiar. A palavra "divinus" em latim quer dizer "dos deuses", adivinho seria aquele a quem os deuses deram o dom de adivinhar. É aquele, no caso do Tarô, que dá um sentido ao jogo, à confusão, às cartas lançadas, por delegação divina, "adivinhando" (função oracular). Esta mesma noção, lembremos, aparece no Hermetismo, na Cabala, na Alquimia, ou seja, a de se passar da indeterminação, da confusão (a alma submetida às paixões) à determinação. Ou, alquimicamente, ir do inferior ao superior, do chumbo ao ouro.
O Tarô, nessa perspectiva, é um jogo e todo jogo é basicamente um símbolo de luta (agon), como dissemos, seja contra o mundo, contra as forças elementares, hostis, contra a própria pessoa que o joga, contra as suas próprias tendências regressivas. Jogando-o, procura-se encontrar através dele um lugar no mundo. O jogo constitui por si mesmo um complexo de relações, de dados e de possibilidades combinatórias através das quais se aprendem tanto noções de totalidade como de regras e de liberdade.
     O sentido do jogo com o Tarô
    Dar-se a um jogo, ao Tarô, no caso, significa, em última instância, investir nele a própria força vital para que seja encontrada a sua melhor adaptação ao mundo real. Por isso, o Tarô é tanto rito de entrada como rito de saída. O Tarô não opera diretamente com a noção de adversário. Ele nos põe antes em contacto com a própria organização do cosmos que passamos de certo modo a imitar quando "jogamos", um percurso individual de iniciação pelo qual se vai de uma etapa a outra num processo de autoconhecimento. Lembremos que para os antigos gregos o processo de individuação e as cosmogonias eram equivalentes. Sob este ponto de vista, é possível encarar o Tarô como uma expressão semelhante àquela que se tem no jogo de relações que encontramos na cruz cardinal da Astrologia, a partir do Ascendente.
 
Notas do organizador
(1) Este texto, de autoria do Prof. Cid Marcus Vasques, consiste na exposição de encerramento da Jornada com os Arcanos Maiores, promovida pelo Clube do Tarô, no correr de 2005-2006. Na mesma oportunidade o Prof. Cid Marcus abordou o Arcano 0 ou 22, que também compõe o acervo deste site.
(2) A designação "arcano", para as cartas do Tarô, ocorre a partir da segunda metade do século XIX, por influência de Jean-Baptiste Pitois (1811-1877), pseudônimo de Paul Christian, com a publicação de sua obra "L’homme rouge des Tuileries", em 1865.
 
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