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20 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Cristianismo, breve história espiritual e política
Rui Sá Silva Barros
 
Uma religião sempre começa com uma iniciativa do mundo espiritual, seu fundador é um enviado. Seu início é o mais alto possível depois do que o movimento está à mercê da história humana com todos os conflitos imagináveis.
O cristianismo tem uma história singular, pois devido ao estado espiritual reinante no Império Romano há em seu nascimento um caráter de urgência e emergência ausente em outras religiões:
1. Jesus pregou por apenas três anos e foi condenado e morto por conflitos políticos, caso único.
2. A religião foi pregada em aramaico, escrita em grego e difundida em latim; sendo que estas línguas não tinham equivalentes para o conceito de pecado, para dar ideia da dificuldade.
3. Em todas as religiões multinacionais há expressas prescrições sobre a ordem social, podemos varrer o Novo Testamento, será em vão. Tudo teve que ser criado e improvisado no debate com o estoicismo, filosofia dominante na época. A cosmologia foi calcada no judaísmo e Agostinho legou uma antropologia bastante pessimista.
4. O cristianismo dos três primeiros séculos foi uma coleção desnorteante e heterogênea de movimentos, doutrinas e organizações. Restam ainda algumas evidências: as igrejas cristãs do Egito, Etiópia, Armênia, Síria e Líbano mantém suas próprias liturgias até hoje.  Grupos ebionitas, nestorianos e monofisistas ainda estão atuantes.
5. O cristianismo se propagou inicialmente nas cidades, entre artesãos e escravos, isto levou a uma ênfase na doutrina básica em detrimento do desenvolvimento espiritual pleno. Mas em “São Paulo” podemos ver claramente a distinção de níveis (leite para as crianças, carne para os adultos). A nova religião sobreviveu graças à disposição ao martírio e à rede de solidariedade, fenômeno novo à época. [1]
Constantino, Imperador Romano
Efígie bizantina do imperador Constantino
 
Atualmente muitos consideram que o triunfo cristão provocou a perda de tradições preciosas, mas isto é uma ilusão! Basta recapitularmos brevemente a história da religião romana: tinha raízes nas tradições indo-europeias (os mitologemas de fundação), mas era basicamente uma religião cívica com ênfase nos cultos (públicos e privados) e nos augúrios, com parca bagagem doutrinal.[2] Até mesmo a hierarquia de seu panteão os romanos tomaram emprestado aos gregos. Em momentos de crise importaram muitos cultos orientais (Cibele, no século III, e Baco no século II AC). Durante a guerra civil que precedeu Otávio Augusto, o problema do Destino e da Fortuna atormentou os romanos e atraiu adivinhos para as praças públicas. Durante o Império ocorreram a divinização dos césares e mais importação de cultos orientais: Ísis, Mitra, Sol Invictus etc. No século II a manutenção do Império já requeria grandes esforços nas fronteiras, a literatura declina bruscamente e a filosofia estoica já não produz nenhuma grande obra. Em Alexandria começam  recolher  a  herança na coleção dos
papiros herméticos e no desenvolvimento do neoplatonismo. É preciso ainda lembrar que a feitiçaria corria solta, a arte do envenenamento progrediu, bem como o ceticismo (Lucrécio) e os cultos orientais eram celebrados como exotismos estimulantes contra o tédio. O Satyricom de Petrônio e as Metamorfoses, de Apuleio oferecem um bom panorama.[3]
Quem estivesse em Roma não apostaria nem um centavo no triunfo da nova religião, oriunda dos judeus (um povo estranho e insubmisso na visão das autoridades romanas, ver Tácito, por exemplo), pregada por um homem supliciado na cruz (máxima humilhação) e propagando a igualdade (máxima heresia para os romanos). E no entanto triunfou, o que é uma evidência de ação espiritual, mas a que preço! O cristianismo foi chamado para brecar a dissolução do Império, virou uma religião de Estado no começo astronômico da era de Peixes. Seu primeiro concílio (Nicéia) foi convocado e dirigido por Constantino, e a Igreja modelou-se a partir do Estado: suas dioceses adaptavam-se às divisões administrativas do Império e a Igreja romana constitui-se (caso único) como Estado, com seu monarca, senado e burocracia.
Quinhentos anos depois da queda de Roma, a Igreja ainda sonhava com a restauração no Sacro império germano-romano (coleção de centenas de marcas, ducados, principados e cidades livres), o que resultou numa confusão permanente entre os poderes temporais e espirituais, que estudamos na escola como a querela das investiduras (quem investe quem e quem arrecada o quê). A desorganização na Europa prosseguiu até o século X com os ataques e correrias promovidas pelos mulçumanos, eslavos, magiares e vikings. Durante este tempo os mosteiros foram verdadeiros refúgios de civilização com suas bibliotecas, sua autonomia econômica, além de usinas espirituais e o grande trabalho missionário no norte.
 
Brasão do Sacro Império
Brasão do Sacro Império
O cristianismo oriental (língua grega) teve outro destino, esteve diretamente atrelado à sorte do Império Bizantino, propagou-se pelos Balcãs em direção à Rússia, produziu teólogos notáveis (os Gregórios), uma espiritualidade profunda e ao menos um místico notável: o pseudo-Dionísio, um monge sírio que escreveu tratados sobre os mundos celestiais, com forte impacto na Europa. Em 1054, Roma e Constantinopla desentenderam-se sobre um credo teológico e questões de jurisdição, depois, no século XIII, por ocasião da quarta cruzada, os barões europeus saquearam a cidade, selando a ruptura entre as duas correntes cristãs.
O auge da Cristandade
No século XI o cristianismo estava suficientemente forte para absorver influências de outras culturas: a iniciação da cavalaria germânica, a cultura céltica no ciclo do Graal, o esoterismo islâmico nas cortes de Amor provençais. As catedrais românicas e góticas testemunham as glórias do esoterismo maçom nas suas plantas, vitrais e esculturas. Com o estímulo das Universidades apareceram intelectuais do nível de Alberto Magno, Roger Bacon, Tomás de Aquino, Lúlio; e místicos do porte de São Francisco e Eckhart, além de uma coleção incrível de místicas como Hildegard, Brígida, Juliana e Catarina de Siena. Esta exuberância foi empanada pela forma desastrada na organização das Cruzadas, no modo de combate às heresias (Inquisição e reabilitação da tortura), nos debates sobre as riquezas da Igreja (franciscanos e movimentos populares) e na leniência em relação ao antissemitismo.
Cavaleiro Templário
Cavaleiro templário em juramento
 
No início do século XIV ocorreu uma transformação radical: a velha pendência entre os poderes foi resolvida, o temporal triunfou. Felipe, o Belo, não apenas destruiu a Ordem dos Templários como interveio diretamente na organização da Igreja e na mudança de sua sede. A partir de então a religião tornou-se uma doutrina justificadora das nascentes monarquias nacionais, perdeu sua independência e capacidade de arbitrar conflitos, a ideia de Cristandade definhou. Este século foi particularmente trágico com secas e muitas mortes por inanição e pela peste Negra, além do início da guerra dos Cem anos. As monarquias ibéricas arrancaram uma bula do Vaticano regularizando a escravidão de africanos e montaram suas próprias inquisições para liquidar  seus  adversários,  apesar de todas
as reclamações dos papas quanto aos procedimentos. A burocracia das igrejas nacionais ficou cada vez mais sujeita aos reis. O Renascimento foi, na essência, um movimento de secularização e anticristão, e a Reforma só acelerou o processo com o estímulo ao individualismo e ao livre exame.
As igrejas reformadas foram estatizadas e as guerras religiosas mataram milhões de pessoas (1550-1650), além de atiçarem os processos contra a feitiçaria.[4] Então o processo de secularização deu um passo adiante: o núncio papal foi despachado das conversações de paz que se seguiram à Guerra dos Trinta Anos. No século XVIII, monarcas católicos expulsaram a Ordem dos Jesuítas e obtiveram do Papa sua extinção, além de fecharem mosteiros por serem dispendiosos e inúteis. A passividade do Vaticano diante deste processo foi trágica, pois quando o Iluminismo ascendeu nenhuma mediação era mais possível: a Igreja ‘infame’ defendeu o Antigo Regime até o final.
Enquanto isto o cristianismo oriental sofreria novo baque com a conquista turcomana de Constantinopla e o posterior assédio na Europa do leste. E, no entanto, sobreviveu; o sistema descentralizado de patriarcados mostrou-se muito útil diante desta adversidade e grupos cristãos puderam continuar sua marcha no Oriente Médio dominado por uma potência mulçumana. Estão lá até hoje e conservam suas liturgias. Neste tempo os cristãos europeus iriam iniciar sua expansão ultramarina do que resultaria um catolicismo sincrético na América Latina e uma verdadeira proliferação de igrejas reformadas nos EUA. A descoberta do Novo Mundo trouxe a primeira fenda na visão baseada na Bíblia: os ameríndios, de onde vieram, de que filho de Noé eles descendiam, tinham notícias do Dilúvio? As tentativas de evangelização no mundo islâmico e na Ásia apresentaram poucos resultados e provocaram profundos ressentimentos.[5]
A Igreja e as práticas esotéricas
O cristianismo teve que suportar outra singularidade, desta vez anômala. Conforme explicado acima, todas as religiões têm organizações para quem quer se aprofundar na espiritualidade, sem que isto encerre conflito agudo. Foi o caso da Qabbalah judaica e dos grupos sufis islâmicos que deram temas, cantos litúrgicos, pensadores e místicos amplamente reconhecidos. No cristianismo estes grupos afloraram rapidamente (séc. II), mas ao invés de trabalharem em sintonia, entraram em choque com o corpo da Igreja: repudiaram o Velho Testamento e o martírio, advogaram mulheres no sacerdócio e concorreram aos cargos hierárquicos, como o de Bispo (Valentino em Roma). Foram os grupos gnósticos, cujas doutrinas acolheram ecos de hermetismo e dos cultos dos Mistérios, num momento em que a Igreja ainda não tinha organização estabelecida e lutava tenazmente pela sobrevivência, a questão do martírio era essencial e a afirmação do livre arbítrio resultou no combate ao fatalismo imperante na época. A questão dos gnósticos voltou à tona com a descoberta dos papiros em Nag Hammadi, e outra vez os textos são tomados por biografias verídicas quando são documentos religiosos de um grupo cristão egípcio, escritos duzentos anos depois da morte de Jesus.[6]
Durante toda a Idade Média os camponeses continuaram com seus rituais de fertilidade e festas, vindas da mais remota antiguidade. Os padres católicos e os ministros protestantes descobriram surpresos que o mundo rural europeu tinha apenas um verniz cristão e partiram para campanhas de evangelização, a partir do sec. XVI quando usaram e abusaram do terror do inferno e da figura do diabo, a pastoral do medo.[7] Nos últimos séculos medievais, a Europa recebeu um grande fluxo de manuscritos versando sobre alquimia, magia e astrologia, vagalhão só estancado no século XVII pelas monarquias que viam nestas práticas incentivos para a rebelião política.[8]
Hermes Trimegisto
Hermes Trimegisto – Mosaico na Cadetral de Siena
Da magia cerimonial renascentista publicaram-se livros e artigos que preencheriam uma biblioteca. Apesar de alguns trabalhos valiosos, que estudam a conexão disto com o nascimento das modernas ciências empíricas, o essencial da coisa é perdida, pois os autores ignoram completamente a hierarquia dos saberes tradicionais, onde a magia cerimonial é um saber experimental do mundo intermediário, quer dizer ocupa um posto inferior. Além disto, agora era praticada por indivíduos solitários para aliviar as agruras da vida, em total consonância com o humanismo renascentista. Os autores renascentistas, que desde Ficino, se ocuparam com os textos herméticos não se deram conta da data de redação e muito menos do grau de iniciação que eles comportavam, com práticas meditativas insinuadas. Mas nestas alturas pouco se sabia na Europa sobre estas atividades. A abordagem da Qabbalah, por autores cristãos, também ignorava totalmente o lado prático desta corrente esotérica. Assim que o racionalismo se espalhou a partir do século XVII, a magia foi considerada uma ilusão deplorável, uma quimera insensata e uma exploração da credulidade humana. Naturalmente isto é uma tolice, a magia é perfeitamente real e possível em determinadas condições psíquicas que já eram raras no Renascimento. A feitiçaria foi declarada problema médico. É uma grande ironia que dois católicos ortodoxos (Descartes e Marsenne) tenham combatido o hermetismo renascentista e criado o moderno racionalismo mecanicista que muito colaborou para a dessacralização.
A astrologia teve outro destino, também foi combatida como tolice humana, mas ela estava ligada à prática da medicina, agricultura e metereologia, o que dificultou sua extinção: os calendários anuais astrológicos continuaram a ser publicados. Ademais, era uma época de grande transformação social e as preocupações sobre o destino e a fortuna eram generalizadas. O Tarô, cujos primeiros baralhos foram impressos no século XV, prosseguiu sua carreira silenciosamente e só tornou-se objeto de consideração teórica no século XVIII.
A Igreja romana não tentou reprimir estas manifestações, ao contrário acatou algumas: símbolos zodiacais estão presentes nas esculturas das catedrais e os herméticos também, a partir do Renascimento. O estilo greco-romano foi absorvido por toda arte visual cristã no período com total apoio papal: uma verdadeira revolução acontecia com a cumplicidade do Vaticano, pois apesar da temática religiosa esta arte visual dessacralizava o mundo.[9] A passividade da Igreja era grande e isto se refletiu na vida intelectual: nem sombra dos grandes intelectuais cristãos dos séculos XII e XIII. Mesmo no aspecto místico ocorreu um declínio, San Juan de La Cruz e Teresa D’Ávila foram os últimos no século XVII. Daí em diante a Igreja esteve intelectualmente na defensiva, tratando a Bíblia como depositária de ensinamentos astronômicos, históricos, geológicos etc. Foi o caminho para um conflito com as nascentes ciências empíricas que provocou mais confusão e isolou a Igreja dos intelectuais laicos. A partir do final do século XVIII o mundo ocidental foi moldado totalmente por forças seculares: liberais, positivistas e toda gama de socialistas.
O cristianismo estava completamente despreparado para o mundo moderno oriundo da revolução industrial e do Estado laico. Finalmente ganhava independência, mas penou um bocado: a urbanização acelerada encontrou a Igreja com poucos sacerdotes, ideologias laicas antagônicas (liberalismo, socialismo e anarquismo) repudiaram sua presença. As congregações (marianas, sagrado coração) foram essenciais, pois a frequência aos cultos e sacramentos caíra muito no sec. XIX. Batalhas amargas sucederam-se pelo controle da educação primária. As visões de Anna Emmerich e as aparições da Virgem em Lourdes deram fôlego à devoção. No século XX, a Igreja finalmente se deu conta de que o Antigo Regime estava destruído e não havia volta: teria que aprender a atuar num mundo já secularizado, o que foi tema essencial no Concílio Vaticano II, na década de 1960.
Os ataques à religião cristã
Há um campo do saber que produziu toneladas de papel impresso, o campo dos estudos bíblicos. Por ironia ele teve seu início com um livro de um padre oratoriano, Richard Simon, que lançou em 1678 o livro “História crítica do Velho Testamento”, onde constatava que os textos sagrados estavam repletos de contradições e repetições, sendo resultado do trabalho de vários autores em diferentes épocas. Ainda estamos nisto, e os escribas modernos debatem se a passagem X é de origem javista, eloísta ou sacerdotal. Uma leitura literal e naturalista dos textos é um contrassenso e quem insistir nisto achará muitas contradições. Assim, a história da Criação é repetida no segundo capítulo do Bereshit (Gênesis) e o nome de Deus muda, Elohim no primeiro e Iaveh no segundo. Veem aí uma acomodação entre dois relatos diferentes, mas não é nada disto: são dois mundos diferentes! O primeiro é Beriah (espiritual) e o segundo refere-se à Yetzirah (formação, psíquico), daí a mudança do nome divino. Quanto às repetições, os autores modernos parecem ignorar que os textos eram entoados de forma detalhada, as repetições fazem o papel de refrão e que o som tem qualidades psíquicas fundamentais. Somente uma leitura espiritual resolve estas dificuldades e teria evitado polêmicas desnecessárias. O livro de Simom fez parte de um grande movimento tentando tornar o cristianismo racional, isto é, expurgá-lo de todo o mistério. No século XVIII a luta tornou-se abertamente política na França, com Voltaire e os enciclopedistas.
Durante o séc. XIX expandiu-se o conhecimento sobre as antigas civilizações e os paralelos com os textos bíblicos levaram ao questionamento sobre sua inspiração e singularidade. A geologia firmou-se como ciência e começou a recuar o tempo tradicional da Terra e do Cosmo. Arqueólogos e paleontólogos encontraram os primeiros hominídeos e Darwin lançou seu famoso livro defendo a unidade dos seres vivos a partir de um ancestral comum, diversificando-se através da seleção natural até produzir o ser humano. A tudo isto a Igreja Católica reagiu com anátemas, silêncio e sempre defensivamente, a ponto de lançar um movimento neotomista para confrontar problemas inteiramente novos, o que foi insuficiente. E para culminar convocou um Concílio que acabou por proclamar a infalibilidade papal, para pasmo e escárnio dos livre-pensadores. A proclamação de Nietzsche sobre a morte de Deus apenas culminou um século de ataques.
 
Iluministas famosos
Famosos iluministas do século XVII:
Voltaire, Rousseau e Benjamin Francklin
O resultado deste declínio religioso foram as matanças e horrores da primeira metade do século XX. Naturalmente os iluministas repudiam tal conexão, mas de que outro jeito explicar a recaída na barbárie? Novamente aqui os intelectuais cristãos brilharam pela ausência, e o assunto foi tratado por um grande poeta cristão, T. S. Eliot, em cuja obra a modernidade e suas ruínas são claramente tratadas como frutos do declínio religioso. Nada que pudesse se equiparar ao trabalho de De Maistre, um século antes. Entre os autores esotéricos destacou-se Rudolf Steiner que viu e promoveu a singularidade do cristianismo.
Os Evangelhos são textos religiosos e dão escassas informações biográficas sobre Jesus. A medida que o individualismo prosperou e o interesse por novelas aumentou, as perguntas apareceram: como foi a infância de Jesus, e a adolescência? Esteve ligado a grupos religiosos? Como se isto tivesse qualquer importância para o entendimento da doutrina pregada. A curiosidade não é de hoje, pois escritos apócrifos muito antigos já abordavam estas questões. Na ausência de documentos os contemporâneos deram tratos à bola e criaram biografias fantasiosas, especialmente a partir da década de 1970, quando foi lançado o livro “Jesus viveu na Índia”, do teólogo alemão Holger Kersten. Ele observou certas semelhanças na vida de um cultuado guru indiano, Issa, cujo túmulo encontra-se em Caxemira e deduziu que Jesus teria sobrevivido à crucificação e terminado a vida na Índia. Se ele tivesse se dado ao trabalho de ler uma História das Religiões veria imediatamente que há um número grande de arquétipos na vida dos deuses, heróis e salvadores. Depois disto, muitos livros e filmes abordaram o assunto e em todos sempre o mesmo objetivo: humanizar Jesus, esquecendo a questão espiritual.
Diante da avalanche de ceticismo, baseada em controvérsias científicas, alguns cristãos levantaram dinheiro em fundações para achar Sodoma e Gomorra no mar Morto, vestígios da passagem judaica no Sinai, os restos da arca de Noé no monte Ararat, o Jardim do Éden no Iraque, o lugar onde João Batista pregava e batizava no Rio Jordão, as casas dos apóstolos, etc. Sem notarem que isto é o triunfo completo do materialismo. Não vemos judeus, mulçumanos ou budistas fazendo isto. A TV a cabo está repleta de documentários tentando provar que esta ou aquela passagem da Bíblia está correta, que aconteceu verdadeiramente. Quem assim pensa e se preocupa já não entende que estes textos não são historiografia e biografia: muito mais importante que verificar a realidade dos fatos do livro do Êxodo, é compreender que se trata do relato de uma grande iniciação: deixar a escravidão para ir à Terra prometida, há aí dezenas de sentidos alegóricos. O mesmo pode ser dito a propósito das parábolas de Jesus que são tomadas apenas num sentido moral, quando na realidade vão muito além.
Monte Sinai
Procura de vestígios da passagem judaica no Sinai.
Ao insistir nos cultos e na moral e deixar a doutrina espiritual ao relento, os cristãos viram seus contemporâneos e conterrâneos cada vez mais interessados nas religiões orientais e seus esoterismos. Desde o Renascimento muitos europeus se dedicaram a ler, reler e espremer manuscritos de tradições mortas na esperança de preencher um vazio. O que resultou disto foi um bazar esotérico sincrético, onde cada um faz o arranjo que lhe convém, e cujos resultados não são muito promissores. Mesmo o transplante de tradições vivas é sempre complicado: o budismo tibetano é esplendoroso, resultado de séculos de história envolvendo um modo de vida, uma língua, uma culinária, enfim, uma cultura que não é possível transplantar para outros lugares. Agora temos uma doutrina védica anódina para ocidentais e taoísmo para executivos.
Numa era de comunicações de massa, os cristãos tentaram uma atualização problemática com pastores televangélicos patrocinando shows de milagres e teologias de prosperidade para os mais desamparados. A onda propagou-se para a América Latina no vácuo criado pela abolição da Teologia da libertação e das comunidades eclesiais de base, e agora o movimento ruma à África. Os católicos debatem-se com pedofilia em suas próprias fileiras, com a ascensão do movimento gay, métodos contraceptivos, novidades em biotecnologia e outros fenômenos da modernidade. Os cristãos orientais, minoria no Oriente Médio, sofrem em meio ao tumulto dos conflitos da área e se transformam em bodes expiatórios.
Ressurreição de Cristo
A Ressurreição
 
E com todas as adversidades, erros de direção, intolerância, evangelização forçada e passividade intelectual, as igrejas cristãs estão abertas, uma clara evidência de que o Espírito continua presente. Ao criticá-las é preciso ter cuidado para não se pôr ao lado daqueles que clamaram por Barrabás. É preciso abrir novamente os textos e começar a inquiri-los de modo apropriado, há riquezas inexploradas e insuspeitas. Os cristãos têm um tesouro nos textos e depoimentos de autores medievais, eles são praticamente inacessíveis. Apesar de tudo, se há alguma civilidade na moderna vida ocidental isto é herança dos preceitos éticos cristãos, longe dos quais prosperam a gratificação instantânea, rédea solta aos impulsos e meliâncias de todos os tipos; pois sem religião a moral torna-se utilitária.
Para aqueles que se interessam vivamente pela formação de Jesus, os Evangelhos dão as pistas: os profetas babilônicos (Ezequiel e Daniel) que empregaram a expressão ‘Filho do Homem’, as correntes apocalípticas judaicas e as iniciáticas, expressas de modo
claro na famosa passagem da conversa com Nicodemos sobre a questão dos dois batismos. Nossos amigos espíritas interpretaram equivocadamente a referida passagem como alusão à reencarnação, quem conhece um pouco da história das correntes iniciáticas de então, não tem nenhuma dúvida. Houve um ensinamento especial e diferenciado no início para os mais próximos discípulos, os textos mostram; São Paulo, Clemente e outros atestam. Para vencer o secularismo da modernidade é preciso oferecer alimento sólido e é bom se apressar, pois se a profecia de São Malaquias for real restam somente dois papas antes da crise.
 
Referências
1. Há muitas versões da história cristã à venda, uma concisa, mas abrangente e razoável é: ROGIER, L.J. AUBERT, R.; KNOWLES, M.D (org.). Nova história da Igreja. Petrópolis: Vozes, 1983/4, cinco volumes.
As periodizações e articulações conceituais são de minha responsabilidade.
2. DUMÉZIL, Georges. La religion romaine archaique. Paris: Payot, 1974.
O texto no original pode ser encontrado na internet.
3. ELIADE, Mircea. Paganismo, cristianismo e gnose na época imperial. In História das crenças e ideias religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, t. 2, v. 2, pp. 130/164.
4. Assunto bem complexo. As primeiras perseguições datam do final das cruzadas contra os cátaros, nova onda seguiu-se às insurreições camponesas do século XIV, e as guerras religiosas no século XVI levaram a perseguição ao paroxismo. A explícita misoginia do movimento pode ser entendida como reação à valorização feminina no movimento trovadoresco e na grande devoção à Virgem.
5. Para a colonização do mundo islâmico ver:
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Cia das Letras, 1996. Para o Oriente ver:
PANIKKAR, K.M. A dominação ocidental na Ásia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. Especialmente o capítulo “As missões cristãs”.
6. Ver o capítulo já mencionado de Mircea Eliade. Para uma panorâmica dos manuscritos e questões pertinentes ver: PAGELS, Elaine. Os evangelhos gnósticos. São Paulo: Cultrix, 1990.
7. Dulemeau, Jean, História do medo no ocidente (1300-1800), São Paulo: Cia das Letras, 2009.
8. Para uma visão da atuação de astrólogos e esotéricos na revolução inglesa de 1648, ver:
HILL, Christopher. O mundo de ponta-cabeça. São Paulo: Cia das Letras, 1987.
Para a repressão de tais movimentos ver:  
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1987, especialmente o capítulo “A grande internação”.
9. Titus Burckhardt tratou do tema em diversas obras dedicadas ao tema da arte sacra, um exemplo é Principes et méthodes de l’art sacré. Lyons: Derain, 1958.
 
janeiro.12
Contato com o autor:
Rui Sá Silva Barros, astrólogo e mestre em História,
participa do Clube do Tarô com estudos sobre símbolos e
apresenta crônicas mensais no Fórum A Torre de Babel.
rui.ssbarros@uol.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
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