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13 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


O cartomante
Glória Marinho
Após uma ausência de muitos e muitos anos, dona Zoé retornou ao seu torrão natal. Tanto tempo físico havia passado que ela até perdera a conta. Do tempo emocional ela sempre se apercebera. Já o tempo mental, que é o narrativo, procurava sempre registrar seus espirros de experiências existenciais escrevendo livros, praticando uma espécie de protagem, quando procurava colorir as impressões externas. O tempo representava para ela uma cruciante realidade.
Embevecida em seus pensamentos, lembrou-se de palavras lidas em Saramago: foi ontem, e é mesmo que dizermos, foi há mil anos. O tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó. O tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar. Suspirou fundo e continuou imersa em suas elucubrações.
Ao chegar à cidade de Nascentes, não ficou nem um pouco surpresa com as pequenas mudanças. Nada mudara tanto. Das três ruas de que guardara na lembrança, surgiram mais três, perfazendo um total de seis ruas principais, que cruzavam a pequena cidade, descendo e subindo as ladeiras. A única novidade que chamou a sua atenção foi a reconstrução do velho coreto, em frente à igreja matriz.
Cidadezinha, pintura de Li & Cassy in Art
Cidadezinha
Pintura obtida em Li & Cassy in Art - www.elo7.com.br/cidadezinha/dp/12AF91
Na última rua a ser visitada, sem que fosse reconhecida tal era o tempo de sua ausência, alguns prédios novos faziam parte da paisagem.
─ Imaginem só! Prédios novos de três andares! Isso era algo completamente inusitado e fora de cogitação! – sussurrou dona Zoé.
A igreja Matriz, reformada fez dona Zoé lamentar o mau gosto, pois seus traços antigos foram modernizados com vitrais modernos simplesmente horrorosos.
─ Parece que regrediram! Que coisa! A velha matriarca florentina, fundadora de Nascentes e responsável pela construção da Igreja Matriz, deveria estar se revolvendo em seu túmulo secular – pensou dona Zoé
No entanto uma coisa estranha estava acontecendo com ela. Nada de emoções fortes. Nada de saudades. Sentia apenas um certo mal estar, como se nunca tivesse participado da vidinha dessa pequena cidade. De repente, não mais que de repente, ao se deparar com a visão das serras ficou sem fala
─ O que houve com as Serras? – diz ela.
─ Por que estão tão perto das casas? Não era assim. Não me lembro...
Na orografia da paisagem das montanhas, que todos chamavam de serras e que circundavam a cidadezinha, como se fora uma meia lua, apresentava ao centro serras mais altas. À medida que se estendiam para um abraço nas ruas laterais, iam se abaixando até transformarem-se em pequenos morros. O que causou surpresa a dona Zoé, fora a nítida sensação de que alcançaria as Serras estendendo simplesmente as mãos.
─ O que aconteceu? Porque não me lembro disso?
Tamanho era o seu deslumbre ao ver as Serras de novo, lembrando-se do por do sol por detrás delas, que não atinava para a realidade que a envolvia. Não foram as serras que invadiram a cidade, mas sim, as casas recém construídas que caminharam ao seu encontro, como se buscassem abrigo e segurança. Prova disso era a visão da vegetação por entre as pedras, vistas com nitidez na abertura da pedra de boca, de cor acinzentada e que outrora abrigara uma tribo de índios.
Sem saber explicar a mudança e com uma sensação de pertencimento àquela paisagem, dona Zoé ficou por alguns minutos calada, absorta em seus pensamentos enquanto contemplava as Serras. De onde estava, na rua onde passara a sua infância, podia vislumbrar o centro das Serras e um pouco das laterais...
Aquela imagem seguiria com ela para sempre.
─ E só então! – E sussurrou baixinho – Que saudades das Serras...
Há muito tempo atrás, nessa cidadezinha, pequena porém decente, vivera dona Zoé. Era uma jovem romântica e sonhadora, como soer as moças interioranas. Isso, no passado, é claro!... Havia se formado recentemente como professora, única profissão disponível para as moçoilas daquela época, e começara a lecionar no único grupo escolar aonde outrora fora apresentada às primeiras letras.
Essas lembranças foram se achegando enquanto dona Zoé voltava com o seu filho Petrúcio, dirigindo o carro da família, voltando para a capital. Enquanto dormitava lembrava bem daquela época. As lembranças afloraram sem controle, causando uma ansiedade há muito esquecida.
Lembrava que naquela época estava se recuperando de uma grande paixão e lutava desesperadamente com uma frustração insidiosa, beirando a depressão
─Zorilda! Zorilda! Você sabe quem chegou?
Era sua velha amiga Estela, que assim a chamava.
─ Que desadoro é esse, mulher? Quem foi que chegou?
E Estela numa agitação sem fim, contou a novidade.
─ Um circo, criatura, um circo com um trailer só de ciganos!... Ciganos ricos, logo se notam pelos colares das mulheres e suas vestes de seda da China, por sinal, belíssimos.
Os circos e também os ciganos eram comuns na cidade, mas nunca juntos ou ricos. Esses vinham em busca de jogos de carteado, preferidos pelos fazendeiros locais, talvez cultivando uma velha tradição trazida da Itália por seus antepassados florentinos: o jogo de cartas ou de baralhos como era comumente conhecido.
Adentravam as noites indo até de manhã, em volta da uma mesa forrada com um tapete persa, dentro ou fora dos trailers, onde fluíam enormes quantias, inclusive a troca de jóias e cavalos árabes por dinheiro. Era grande a expectativa dos fazendeiros pelos jogos, o que isentavam os ciganos da perseguição da polícia pela acusação de raptores de crianças, embora ninguém nunca tivesse visto tal coisa.
─ Ah, diz Zorilda, ciganos cartomantes. Sei bem o que é. Não acredito em nada disso! São apenas sugestões que seu inconsciente vai processar podendo até contabilizar alguns acertos. Nada mais...
─ Puxa! Estás mesmo desiludida com tudo. Reage mulher! Isso vai passar.
─ Eu sei o que estou dizendo, Estela. A Cartomancia era antigamente um ofício quase que exclusivo do povo cigano, pelo menos se sabe que o baralho cigano ficou conhecido na corte francesa do século XVIII por intermédio de madame Lenormand, com uma simbologia correspondente ao baralho ordinário. Sendo a cartomancia um ramo da simbolomancia, pode-se considerar um assunto sério, pois lida com as energias da psique. A Cartomancia é a arte de prever o futuro através das cartas. No inicio qualquer tipo de cartas servia para o ritual da adivinhação. A referência documental mais antiga remota ao século XVI. No ano de 1678 foi citado num dicionário chinês um oficial do Império chamado Huei Kong que inventara um jogo de 32 tabletes de marfim com temas como o céu, terra, homem, sorte.
─ Puxa! Tanta erudição para nada. Não és capaz de lidar com teus sentimentos e superar as adversidades – diz agastada, a amiga Estela.
Zorilda soube disso tudo através de suas leituras e das experiências com o convívio com os ciganos que apareciam de vez em quando na cidade desde os tempos de criança. Inclusive ela aprendera um pouco sobre o baralho cigano. Mas não acreditava em leitura de mãos. Era muito para ela.
E as lembranças surgiam incessantemente.
A cidade de Nascentes continuava exibindo o pôr do sol mais sensacional que ela já vira, quando aos poucos ia definhando por detrás das serras, ficava-se sem fôlego, apreciando uma profusão de raios amarelados, avermelhados, alaranjados, espargindo-se pelas encostas afora, dependendo das estações do ano.
O nome de Nascentes derivou-se das numerosas nascentes que jorravam do interior das pedras por entre as fendas das rochas. Água pura e mineral vinda do sítio da Goiabeira.
Essa era a cidade de apenas três ruas principais na época de Zorilda: uma que subia, uma que descia e a terceira que servia de bifurcação entre a Igreja, situada no centro da Praça e as demais ruas. Diante da Igreja um coreto se erguia para dar lugar às bandas de música que alegravam as festas do padroeiro da cidade. Com a passagem do tempo o Coreto fora demolido.
A fundação de Nascentes remonta ao século XVII com a chegada de um grupo de descendentes da nobreza florentina vinda da longínqua Itália. Ela, a cidade, é muita antiga na verdade. Antiga também era a praga dos ciganos, proferida pela esposa do chefe no seu sepultamento, juntamente com seu filho: “Cidade ingrata! Eu te amaldiçôo. Nunca irás prosperar!... Anos se passarão... Todas as cidades ao teu redor prosperarão. Tu ficarás estagnada no tempo e no espaço”.
─ Zorilda – diz a amiga – lembro-me bem da praga dos ciganos. Esse povo realmente tem um poder mágico. Até hoje Nascentes só vai para trás. A fábrica de queijo faliu. A de fubá também. O cinema fechou. Os bares que tinham várias mesas de sinuca também. Ficamos até sem padaria por um longo tempo. Os rapazes são obrigados a sair em busca de empregos. Não há uma hospedaria para quem chega de visita. O Clube dos Trinta, onde se realizavam os bailes, não existe mais.
─ Tens razão, Estela, relembrando a praga dos ciganos, sinto que é verdade que Nascentes parou no tempo e no espaço desde as mortes do chefe cigano e de seu filho, causa da maldição por parte da mulher dele. Mas o povo da cidade não teve culpa! O poste de madeira caiu em meio a uma chuvarada e os fios que se enroscaram no pescoço do pai e do filho que tentou ajudá-lo, causaram as mortes. Estavam montados em um cavalo árabe quando aconteceu a tragédia, o que facilitou tudo.
E Zoé em sua imaginação ativa, continuava a relembrar dos detalhes de sua infância e mocidade, sem esquecer nenhum detalhe.
─ Pois sim. Segundo os mais velhos até para salvar o cavalo de ser enterrado junto com eles foi difícil. O fazendeiro teve que implorar quase de joelhos, além de oferecer uma polpuda quantia em dinheiro – continuou Zorilda.
Conversando, as duas amigas se dirigiram para o local onde o circo estava sendo armado, chamado pelos moradores de os Coqueiros, por conta de um coqueiral que se organizou de forma circular no terreno arenoso. Havia um projeto para se fazer uma pracinha, mas o responsável apenas fizera um círculo cimentado rodeando o local, imitando um calçadão e embolsara o restante da verba municipal. Uma mandala se formara com os coqueiros no centro, rodeados pela calçada de cimento que o tempo iria se encarregar de destruir.
─ Incrível! Agora que sei o significado das coisas, revejo os fatos como um evento de sincronicidade. Rochas, pedras em forma de elipses envolvendo a cidade ou melhor dizendo, uma mandorla. Na praça dos Coqueiros vê-se nitidamente a forma circular – murmurava dona Zoé, sonolenta e mergulhada em suas lembranças.
O carro zunia na pista de asfalto, embalando as recordações, como se fora uma pano de fundo ou uma sonoplastia. E dona Zoé continuava a sonhar acordada...
Existem mais duas praças na cidade. Uma de forma ovalada e outra arredondada. Esta ficava em frente à Igreja Mariz, construída pela matrona florentina fundadora da cidade, e a outra praça, junto ao grupo escolar. A paisagem era de uma beleza sem par, tudo emoldurado pelas serras que em noites de lua cheia dava a impressão de que, se estendêssemos as mãos tocaríamos a lua e as estrelas. As folhas do coqueiral farfalhavam com a chegada da brisa da noite, recebendo os raios enluarados que permeavam por entre a folhagem.
Nascentes, quase sempre vivia às escuras. Tempos bons aqueles. Nada se sabia da vida. Nada se temia. Nada se fazia.
─ Veja, Zorilda!  Que homem bonito e alto! Nossa! Ele vem em nossa direção. Deve ser um cigano!
─ Deve ser...
Antes que Zorilda pudesse responder, um cigano moreno de cabelos negros como as asas da graúna, olhos negros iguais ao da canção russa e dentes brilhantes, se achegou e logo de chofre dirigiu-se a ela.
─ Vamos entrar – diz ele – estava à sua espera.
Zorilda sem fala, e sem esboçar nenhuma reação o seguiu de perto, ante o olhar perplexo de Estela.
─ Então... A moça bonita veio me testar? Quer saber do destino. Está magoada e no momento não confia em ninguém.
─ Não. Imagine! Não sei o que dizer. Eu acredito.
─ Lembre-se do que vou lhe dizer quando tudo acontecer – falou com rispidez, o cigano bonito.
E sem mais delongas tirou um baralho de uma caixinha decorada com alguns símbolos: um círculo, uma meia lua, uma cruz...
Mais tarde, já refeita do susto, Zorilda procurou saber a interpretação dos símbolos: o círculo seria a percepção total, a meia lua, transmissão de energia e a cruz a união do masculino e feminino numa interpretação que não poderia ser a única, uma vez que se tratava de símbolos.
Em seguida, o cigano pediu a data de nascimento dela. Não quis saber de nenhuma pergunta.
─ Veja bem – disse o cigano sem titubear – você vai casar com o primeiro que aparecer. Vai ter 11 filhos se não se cuidar, porque vem de uma família muito fértil. Vai fazer uma cirurgia séria e ficar entre a vida e morte do segundo filho. Sua vida só vai melhorar depois dos quarenta anos. Mas nunca lhe faltará nada. O básico, é claro.
Zorilda sentindo-se agredida, talvez pela fragilidade emocional do seu momento, diz bastante zangada:
─ Não acredito numa palavra do que estou ouvindo. Não vou ter nem o direito de escolher um marido: o primeiro que aparecer!  Que Horror! Onze filhos!  Poupe-me!  E melhorar de vida só depois dos quarenta anos! Agradeço, mais assim, eu não quero!
─ Não é questão de querer ou não – diz o bonito cigano – tem que aceitar. É o seu destino. Gostaria de estar aqui no dia do seu casamento, que não vai demorar e falar para você: eu não lhe disse?
Zorilda, aturdida e muito zangada, tenta retirar algo da carteira e sente uma mão sobre a sua:
─ Não precisa pagar. É uma cortesia – diz zombeteiramente o cigano bonito.
Caminhando e pensando, Zorilda se deu conta de que ficara muito perturbada com as palavras do cigano e murmurava consigo mesmo:
─ Pelo que eu sei são as ciganas que jogam as cartas. Mas o cigano parecia bastante sério.
Anos se passaram. As Parcas continuaram com a tessitura da vida, representando o presente, o passado e o futuro. Cloto, que está sempre no presente, responsável pelos altos e baixos da nossa existência, é a primeira irmã. Laquesis, a segunda irmã, é a distribuidora dos presentes que a vida nos oferece, permanecendo no passado. Restou-nos a última irmã Átropos, a mais implacável delas. É o futuro em ação. Anotou tudo que as outras duas ditaram e apenas cumpriu as suas determinações sem dó nem piedade.
Tudo isso com a nossa participação. É claro!
Assim, os acontecimentos foram se atropelando na vida de Zorilda. Ela realmente casou-se um ano depois da leitura das cartas como o cigano predisse, com o primeiro que apareceu.
Lembrou-se do cigano no dia do casamento e ficou com a impressão de que ele estava rindo dela. Sentia a presença dele o tempo todo. Na viagem de carro para a lua de mel, no anoitecer de um dia frio de dezembro, um acontecimento insólito lhe fez lembrar o cigano bonito. Na estrada, um homem vestido com um capote preto, deu com a mão e pediu carona. Qual não foi o seu espanto quando ela verificou que ele se parecia com o cigano bonito. Encolheu-se toda no banco do carro e ficou muda até chegar ao destino do carona.
Novamente o tempo caminhou lentamente e anos se sucederam, enquanto a vida continuava com seus reveses. Na gravidez do segundo filho – ao todo teve três filhos – a cirurgia cesariana foi muito complicada. Por pouco, muito pouco mesmo, ela e a criança não morreram. Ao nascer a criança pesou cinco quilos.
Todo o restante aconteceu exatamente como havia dito o Cigano bonito, anos atrás...
Ao chegar a essa parte das lembranças, dona Zoé despertou para a vida e olhou enternecida para o seu segundo filho, Petrúcio, que dirigia o carro, com destino à Capital.
─ Acordou, Mãe?
junho.11
Contato com a autora:
Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
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