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13 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


O Oraculo do Poço da Panela
Glória Marinho
 
Shmuel, um judeu convertido, era uma pessoa perturbada emocionalmente. Muito inteligente havia se formado em Música, Filosofia e Psicologia, inclusive com vários Mestrados. Mas... Há sempre um... mas... Havia casado e separado... Tivera amores... Nada duradouro... Cismara com a vida religiosa e durante quatro longos anos frequentara o mosteiro dos Agostinianos, chegando até a vestir batina marrom. Nada deu certo. A sua erudição sempre lhe abria as portas para onde quer que fosse. Tornou-se professor de Filosofia e começou a clinicar: Filosofia Clínica e Terapia Familiar Sistêmica, inovando as terapias.
A primeira se estabelece a partir de um diálogo investigativo, provocando o partilhar e o refletir sobre as questões existenciais e a avaliação do universo no qual se vive. Quem sou eu?... De onde vim?... E para onde vou?... Eis as questões pertinentes. A segunda é a velha terapia de grupos em seus relacionamentos, só que acrescida das mesmas leis que regem os sistemas abertos ─ físico, químico, biológico ─ podendo ser aplicado aos familiares, usando as mesmas regras estabelecidas pelos sistemas (como se descascasse uma enorme cebola estando a relação estabelecida com cada camada, na formação da cebola inteira).
Atualmente, a questão que mais o angustiava era a descoberta de que poderia curar as pessoas, chegando ao ponto de afastá-lo de uma amiga muito antiga que o ajudara nos seus piores momentos e a qual apelidara de mãe adotiva. A amiga idosa sabia do seu dom (pois ele já o utilizara nos amigos) e pediu-lhe que colocasse sua mão sobre um sinal no rosto, que a estava perturbando. A rapidez com ele impôs a mão, deixou-a incrédula e só então percebeu que ele não gostara do pedido. Mesmo assim, três dias depois o sinal caiu sem deixar nenhum vestígio. Talvez ele receasse que ela pudesse se tornar a sua primeira cliente. O fato de ser chamado de curandeiro o apavorava. O seu lado racional lutava contra seu lado místico. Decididamente ele precisava de ajuda profissional.
Nessa tarde de sábado depois de muita espera, Shmuel conseguira uma “audiência” com o Oráculo do Poço da Panela, um psicólogo famoso que passara por “poucas e boas” antes de se estabelecer como um Vidente. Possuía fama de ser excelente e excêntrico ao mesmo tempo, chegando a ser chamado de bruxo por seus clientes, que rapidamente ficavam curados da mais profunda depressão, ao consulta-lo. A mulher o deixara e ele, deprimido, fechara o consultório e iniciara uma longa viagem. Não estava gostando da clinica e não se sentia à vontade com o seu trabalho. Visitou a Índia, o Tibete e o Egito, por lá passando alguns anos.
Ao regressar, conseguiu uma casa de estilo colonial no bairro antigo da capital, Poço da Panela, e lá se instalou sob a alcunha de “O Oraculo”. O bairro do Poço da Panela abrigava apenas os remanescentes dos senhores de Engenho isto é, os Usineiros e suas famílias. Era um bairro tranquilo, muito arborizado e cheirando a coisas antigas. Na igrejinha recoberta de madeira, de uma simplicidade monástica, realizavam-se os mais caros casamentos da cidade. A arquitetura do bairro de estilo colonial encantava a todos com seus casarios enfileirados e iguais, em grande parte todos decorados com madeira de lei.
Shmuel chegou pontualmente na hora marcada e adentrou o portal da pequena casa colorida. Um serviçal o atendeu e o introduziu na sala de espera. Shmuel sabia que o Oráculo havia feito o Caminho de Santiago de Compostela e esperava um senhor já de idade. Ao se abrir a porta que o levaria á saleta, a primeira exigência foi a de tirar os sapatos mergulhando os pés descalços no carpete felpudo de cor amarronzada.
A sala estava vazia e ao passear com o olhar Shmuel ficou admirado com a decoração do ambiente, pois era versado em simbologia. Nas paredes via-se brocado de seda adamascada de cor bege no lugar de papel de parede combinando com as duas únicas cadeiras acolchoadas em forma de medalhão, cujo símbolo arredondado chamou a sua atenção. Sabia que no Zen budismo o círculo simbolizava a mais alta iluminação e a harmonia das forças espirituais.
Arandelas de bronze ladeavam um enorme espelho redondo de mais ou menos um metro e meio de diâmetro, num modelo muito antigo, de acordo com a moldura toda trabalhada em madeira de lei, onde se viam animais míticos como cavalos marinhos, que segundo a visão alquímica, representa o fogo e água associados às forças cósmicas. As arandelas por sua vez tinham como suporte, uma metade da flor de lótus de cor dourada, no encaixe das lâmpadas em forma de velas de cor azulada. A flor do lótus – sabia Shmuel – simbolizava a pureza da mente e ação do budismo.
Shmuel examinava tudo com atenção enquanto esperava a aparição do Oráculo. Para ele, tudo que existia no mundo possuía um significado. Logo abaixo do espelho via-se um console de jacarandá em forma de meia lua contendo um candelabro retangular com três velas, num suporte de folhas esverdeadas e cravejadas de pedras semipreciosas coloridas, encravadas nas bordas de suas folhas. Na frente do candelabro uma rosa de ouro muito parecida com a ourivesaria de Benvenuto Cellini, do século XVIII, reluzia com todo o seu esplendor e formava um triangulo perfeito em seus ângulos. A rosa de puro ouro brotara das sementes de ouro plantadas por um alquimista. Estava escrito na tradição.
─ Hum...mais uma vez o círculo da rosa e os ângulos de um triângulo... o Círculo como símbolo cabalístico inscrito num quadrado, representa centelhas do fogo divino oculto na matéria. Na psicanálise ele é o símbolo da alma e do EU e representa a Mandala. O Triângulo por sua vez, representa os três graus de desenvolvimento espiritual: palavra, pensamento e ação correta ─ murmurou baixinho Shmuel continuando com a descrição do que via ao seu redor.
─ A rosa de ouro detém a simbologia de uma harmonia cósmica e da realização absoluta. Esta rosa tem oito pétalas e significa o desapego aos desejos mundanos como prega o budismo ─ continuava a murmurar Shmuel.
Vagueando o olhar mais uma vez pela sala, deparou-se com uma enorme mesa arredondada: metade mesa e metade em forma de dragão com sua cauda enrolada. O pé da mesa, formado por suas pernas deixou-o estupefato. A mesa aparentava ter uns dois metros de diâmetro - calculou Shmuel. A outra metade era de jacarandá. Os três - o espelho o console e a mesa – formavam todo o mobiliário da sala... Nada mais...
Em cima da mesa na parte de madeira, via-se uma taça de lápis lazuli, com sua cor azulada e de tamanho considerável, parecendo ser uma fronteira entre o dragão e uma das suas asas que era na realidade, a outra parte da mesa. Olhando mais de perto Shmuel notou símbolos encrustados dos dois lados da taça: o sol de um lado e a lua do outro, com suas cores brilhantes.
─ O Sol dourado simboliza a glória, espiritualidade e a iluminação. A Lua prateada, a intuição, imaginação, magia, os erros, a fantasia arbitrária ─ pensou com seus botões Shmuel.
Não deu tempo para mais nenhuma observação, pois o Oráculo se fazia anunciar. Shmuel deixou de ver o restante do console, em forma de lua crescente, esculpido com cavalos marinhos, tidos como animais ctônicos e de simbologia relacionada com o fogo e a água, associados ás forças cósmicas. Era tal o enlevo de Shmuel, ouvindo uma música de fundo muito suave, que não se apercebera do Oráculo adentrando a saleta e observando-o em silêncio. Um leve pigarro o fez despertar.
O Oráculo nada cobrara dele. Apenas uma oferenda de incenso, que foi logo aceso, porque não se podia ir até ele, de mãos vazias. Sentaram-se um diante do outro na parte da metade da mesa arredondada com a taça entre eles. As velas foram acesas pelo serviçal, e as luzes das arandelas também.
O Oráculo meditava de olhos fechados e Shmuel ainda teve tempo para mais uma reflexão: Taça... O graal do conhecimento e olhando para ele notou que ainda era uma pessoa jovem.
Logo em seguida o Oráculo abriu os olhos e falou:
─ Você está com as energias desequilibradas e divididas em várias partes. Não sabe quem é na realidade. Só resgatando cada parte sua uma a uma você irá saber onde se encontra o seu processo de desenvolvimento, cuja questão maior é o seu conflito de identidade religiosa e a aceitação do seu destino terrestre. Nasceu para ser um Guru, mas está atrapalhando tudo com o seu racionalismo exacerbado e teimosia incontestável. A razão de ter mais de uma profissão atrapalhou bastante.
Shmuel estava pasmo!...
─ Como ele poderia saber das profissões?... Além de músico, filósofo e psicólogo, sou também lapidador de diamantes... A crise de identidade entre a fé cristã e a judia?... ─ pensou consigo mesmo, já que tinha sido avisado que não poderia interromper.
─ Além disso – continuou a falar o Oráculo – a questão com sua mãe é outro entrave. Ela minou a sua autoestima e bloqueou os seus sentimentos. Por isso você procurou a música, uma vez que sua avó querida foi uma exímia pianista.
Ao ver pronunciado o nome da avó que o criara as defesas de Shmuel caíram por terra. Como ele sabe?... Só contei isso nas terapias que fiz... Ele sabe de tudo!...
Shmuel havia fugido de casa aos quinze anos de idade e fora para Israel viver no Kibutz. Depois, ficara morando com a avó e lá casara com uma judia ao completar dezenove anos.
─ Você precisa atentar para os sinais. Aprender música foi o primeiro deles - diz o Oráculo. É através dela que você vai se conectar com as pessoas. Precisa ouvir os sinais!... O seu dom maior é o de Cura. Não pode fugir disso. Temos uma história muito parecida. Você nem precisou viajar tanto para descobrir o sentido da vida. Sua cultura já o preparou para isso. O estudo da Cabala que se iniciou aos quarenta anos já o fez ver a verdade. Por que você não aceita o seu destino?...
─ Eu não sei por onde começar... Tenho uma vida produtiva e não posso deixá-la de uma hora para outra. Como vou iniciar uma mudança tão drástica na minha vida?... O que devo fazer? ...Como começar?... Por onde iniciar?...
─ O eterno apego ao material dos judeus!... Não tenha medo. Você já consultou tanto o I Ching... o Tarô... Eles não o aconselharam?... Podemos começar criando um espaço Holístico!... A partir do momento em que acreditar, as coisas começarão a fluir. Posso ajuda-lo... Os essênios há 2.000 a.c. já lidavam com energia vibracional que restaura o equilíbrio das pessoas. Atualmente são os Vedas, médicos da Índia que a praticam há séculos. Tenho até um nome para o seu espaço: Cabana Arcana. Lá você poderá atuar com psicodrama, cura energética, Filosofia Clínica, Alinhamento dos chacras... Uma infinidade de coisas que descobrirá com o tempo.
E o Oráculo continuava falando, falando, sem parar...
─ Como você está indo nos estudos da Qabbalah, que é o legado místico dos filhos de Abraão?...
Lembre-se do que disse Mestre Yeshuvah a respeito da Torah na fala dos profetas, quando a fé começava a esmorecer (...) “Até que o céu e a terra passem nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.”
Onde você está no desenvolvimento da Árvore da Vida?... Preste atenção!... Você é um privilegiado!... E sua tia que domina a magia das plantas?...
Assim falando, o oraculo impôs suas mãos sobre Shmuel que sentiu um leve torpor.
─ Não me procure. Espere que eu o chame.
Nesse exato momento o Oraculo fechou os olhos e entrou em meditação. Shmuel aturdido, enlevado e fragilizado, também fez o mesmo. Ao abrir os olhos teve uma grata surpresa. O Oraculo, com seu kafta colorido de azul e dourado havia se retirado sem fazer nenhum ruído, enquanto uma luz ofuscante vinda das frestas de um dos vitrais da janela, atingiu um disco dourado que encimava o espelho, fazendo-o reluzir com tal intensidade que a sala ficou como se estivesse incendiada, com os raios de sol direcionado para os quatro cantos do recinto.
Era uma réplica do Disco Dourado do Sol dos Incas, uma doação do deus Viracocha e servia segundo a lenda, para estabelecer uma conexão com os deuses. Só então ele percebeu que o formato da saleta possuía a forma de um quadrado.
─ A sala quadrada... A mesa no centro dela, arredondada... O sol nos quatro cantos... É a quadratura do Círculo!... Resmungou Shmuel.
janeiro.13
Contato com a autora:
Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
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