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28 de junho de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


O Truco e a Cerveja
Márcio Jabur Yunes
Naquele tempo as coisas eram diferentes. Não melhores necessariamente, mas diferentes. Mais calmas, porventura mais ingênuas.
Quando eu nasci, nasceu também um menino na casa do alfaiate em frente. E, logo ao lado morava Dona Regina Parteira, italiana de forte sotaque, a mais antiga e famosa da cidade.
Praça e Igreja Matriz do Espírito Santo do Pinhal
Pinhal - a Praça da Independência e a Igreja Matriz do Espírito Santo do Pinhal
Como meu irmão, seis anos mais velho, chamava-se Marcos, e o primogênito do alfaiate, também filho único até então, era Márcio, que seria também o meu nome, minha mãe ficou curiosa pra saber o nome do recém-nascido.
Dona Regina, porém, respondeu: "Tuto quá". Minha mãe insistia na pergunta, e a resposta, lacônica e sempre a mesma: "Tuto quá".
Mas que diabos seria tuto quá?!
Só dias depois, através de outra fonte, é claro, provavelmente a própria parturiente, Dona Ida ficou sabendo que era Marcos. Daí o tuto quá. Márcio e Marcos lá, Marcos e Márcio em casa.
Pois é, as coisas eram assim, nada de maternidades, automóveis, televisão, janelas fechadas, luzes apagadas.
Parteiras, cadeiras na calçada, rádio na janela para O direito de nascer, jogo de truco, os berros dos jogadores vindo lá de dentro, no alfaiate ou no sapateiro vizinho. Cada dia alternava-se o local.
As ruas eram uma festa à noite. Pelo menos a minha rua, a Marquês do Herval, muito mais conhecida, porém, como "Rua dos Turco", assim mesmo, sem o s. Com as cadeiras e rádios, a gárrula algazarra das crianças, pique, roda, chicote-queimado, mãe-da-rua, brigas ocasionais. E os gritos do truco, dando sustos na gente.
O jogo de baralho em pinturas de Paul Cézanne
O jogo de cartas para o lazer dos homens vem de longe...
Tela do artista francês Paul Cézanne: Les Joueurs de cartes, 1892-1893
Ah, o truco!, que conheci mesmo antes de começar a andar. E muito antes de saber que trucar de zápete e sete copas é estar com tudo e não estar prosa.
Manilha velha.
Minha mãe contava que quando era criança, o jogo era sempre na casa do meu avô, não havia revezamento como no meu tempo, pelo simples fato de que ele era viúvo, e os demais, toda a turcaiada da rua, sentiam-se muito mais à vontade sem mulher a reclamar do barulho e dos berros, das guimbas e cinza na toalha e no chão, o xixi pra fora e sem erguer a tábua, o jogo até tarde impedindo o sono sagrado das crianças.
Nessas noitadas, dizia ela, o destaque era sempre o João Pedro, avô da Dona Lorís, a professorinha que me ensinou o bê-á-bá, como diria Ataulfo Alves, e que morreu com 101 anos.
João Pedro, avô de uma mulher de cem anos, inevitavelmente morreu antes de eu nascer. Meu avô, por exemplo, tinha 80 quando Dona Regina me trouxe ao mundo.
No entanto, se Jacó Jabur não tinha esposa, tinha uma empregada antiga e fiel, que cuidava da casa, das roupas, da cozinha e... das cinco crianças.
– Ou sai o jogo – intimou ela –, ou saio eu.
O jogo saiu e foi pra outra casa, talvez mesmo a do João Pedro, pouco acima, na calçada em frente, a calçada do alfaiate, da parteira e do sapateiro.
Com isso, houve na casa do meu avô um ganho adicional, econômico. É que o João Pedro, segundo Dona Ida, costumava quebrar a mesa quase toda noite.
Por favor, não confundam com quebrar a banca, pois no caso dele era literal, e não se tratava de sorte ou habilidade, mas de força, energia e paixão. As mesas, embora de madeira de lei, não resistiam aos tapas que ele lhes dava, ao berros, trucando ou repicando o truco dos outros. TRÊS! SEIS!...
Rua Cel. Joaquim Vergueiro em 1930
Pinhal : trecho da Rua Cel. Joaquim Vergueiro em 1930
Cartão postal do fotógrafo Antunes, disponível em www.sampahistorica.wordpress.com
Anos e anos depois, quando tudo ficara muito pra trás, o truco, a alegria barulhenta das crianças, as calçadas cheias de gente, a Rua dos Turco, as bravatas do João Pedro, eis que o truco surge de novo na minha vida, como uma dádiva inesperada.
Estávamos num hotel, desses enormes, afastados da cidade, com piscinas, quadras, saunas, academias, campos, bosques, sempre inúteis pra quem está a trabalho, num daqueles cursos em regime de seminário, a semana toda, como concentração de time de futebol.
– Você sabe jogar truco?
Três caras faziam a pergunta, e em questão de segundos estávamos jogando. Ou melhor, estávamos na mesa. Então eles viraram uma carta e não entendi por que.
O jogo começou, mas não por muito tempo. Ao fim de uma ou duas rodadas eu me levantei e fui para o bar do hotel:
– Pensei que a gente ia jogar truco.
Ora, todo mundo sabe que as cartas principais do truco são o zápete (4 de paus), 7 de copas, espadilha (ás de espadas) e 7 de ouros. Essas são as manilhas. Que, quando inventaram essa nova e infame maneira de jogar, passaram a se chamar "manilha velha".
Alegando que os truqueiros costumavam marcar o baralho pra saber quais eram as manilhas, inventaram essa indesculpável profanação chamada "manilha nova", que consiste em virar uma carta e o zápete será a carta de cima. As demais manilhas, sei lá como se escolhem. E não sei também com que baralho se joga, se inteiro ou não. O truco, como seu semelhante, o poker (em ambos o blefe é a alma do jogo), joga-se com baralho reduzido. No caso do truco, apenas as figuras, ás, dois, três e as manilhas.
Pra mim, é o único jeito de jogar truco.
Baralho e cerveja convivem muito bem...
Alem das apostas, baralho e cerveja convivem muito bem!
Aquele pessoal era gente meio limitada. Nos meus bons tempos de Sesc e Senac, em cursos e seminários semelhantes, no Grande Hotel de Águas de São Pedro, que aliás tinha sido Cassino, pra desgosto de Dona Santinha, que acabou com eles, a gente jogava mesmo era poker, pra valer, cacife alto.
Se lá tivesse também rodas de poker, jamais teria me submetido a essa suprema e indelével humilhação da tal "manilha nova", cuja extensão só os truqueiros de verdade, aqueles do tempo do João Pedro, sabem calcular.
Nas férias, vim pra Pinhal e encontrei um antigo freguês da venda do meu pai, da roça, como a maior parte da nossa freguesia. Amigos fiéis do velho, desde seus tempos de baú nas costas pelas colônias, sítios e fazendas de café. E depois, nas vendinhas beira de estrada no Macuco e no Zé Elias.
Contei a ele minha estranha aventura no tal hotel no meio do nada, sem zápete, sem os dois setes, sem o espadilha.
Ele deu uma longa tragada no cigarro de palha – relíquia raríssima de um tempo risonho, um tempo de flores, mães e roupas coloridas de domingo –, fez uma pausa, e bateu a mão pesada e calosa no meu ombro:
– Seu Márcio, truco com manilha nova é que nem tomar cerveja em casa, com a mulher.
Márcio Jabur Yunes
educador e escritor, é autor de várias obras literárias
mjaburyunes@gmail.com
Edição: CKR – 19/04/2017
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