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23 de fevereiro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


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O fabuloso Tarot de Amélie Poulain
Texto de
 Leonardo Chioda
 
Le Fabuleux Destin d´Amélie Poulain, filme francês produzido por Jean Pierre Jeunet em 2002, foi um sucesso inesperado na França. A história da garota surpreendeu a produção e o mundo, tornando a personagem principal um ícone da cultura pop. Camisetas, zines, comunidades no orkut, febre e ideologia entre designers gráficos, livres-pensadores, estudantes de Letras, escritores de cartas, fãs de filmes alternativos e até adeptos do kitsch, mesmo que inconscientemente. Ah, claro, e muito bem vindo entre os lúdicos, aqueles que gostam de jogos de figuras. Sim, exatamente como você e eu.

Audrey Tautou no papel de Amélie Poulain  
Audrey Tautou é Amélie Poulain
 
Como o próprio nome do filme sugere, o grande segredo é perceber o destino de Amélie se desvelando em cada cena, uma vez que os minutos iniciais enfatizam a infância de uma garotinha estranha, com doenças cardíacas imaginadas pelos pais. Quieta e reclusa em um mundo de imaginação e brincadeiras solitárias, Amélie dá margem à curiosidade de saber qual é o diferencial da personagem e o que faz de significativo e inovador durante o filme, durante a vida.

Amélie Poulain, menina.
 
Amélie não é uma garota comum, apesar das brincadeiras. Ela mexe com os hábitos, conhece-os bem. Detalhista, vive cada momento. É meditativa, quieta e observadora. A eterna menina cuja inocência é séria e o romance que vive é antigo. Repleto de imaginação, de surpresas e desejos. Mundinhos particulares. Cachalote, seu peixe de estimação, era neurastênico e vez ou outra tentava suicídio. Uma criança com um peixe? Associação simbólica com o Pajem de Copas, certeira. A realidade a assusta, principalmente quando pensou que cada clique de sua Kodak causava acidentes ao redor do mundo. É dentro de casa, aliás, que os arcanos começam a aparecer. Na infância, Amélie vivia isolada das pessoas. Raphael Poulain, ex-médico militar e pai às vezes, só se aproximava quando era preciso fazer exames nela. Rei de Espadas puro.
 
Rufus no papel de pai de Amélie  
O ator Rufus como Raphael Poulain — lábios contraídos: sinal de falta de coração.

Para completar a família, Amandine, sua mãe, tinha colapsos nervosos que só uma morte trágica nos portões da igreja iria deixá-la em paz: uma turista canadense se joga do topo do templo e cai em cima dela. Uma Torre para uma Rainha de Gládios.
 
Lorella Cravotta no papel de mãe de Amélie  
Lorella Cravotta é Amandine Poulain (Fouet, em solteira) — tique nervoso: sinal de perturbação neurótica.

Os anos passam — Amélie prefere sonhar até ter idade para partir”. Sai do subúrbio e passa a trabalhar como garçonete numa cafeteria em Montmartre, o famoso Café Le Deux Moulins — hoje um dos pontos turísticos de Paris. Amélie gosta de procurar detalhes que ninguém vê. Não gosta de namorar, mesmo que cultive um gosto particular pelos pequenos prazeres, como:
 
Amélie toca os cereais   Créme brulé
Enfiar a mão bem fundo no saco de cereais;   Quebrar a cobertura do crème brulée com a colher;
 
Amélie brinca no canal
E jogar pedras no canal Saint Martin.
 
Aliás, desde nova Amélie mantém contato com a água. Só o começo das analogias com o personagem mais novo da corte de Copas. Arrisco semelhanças físicas, até.
 
O Pagem de Copas no Universal Waite deckAmélie de guarda-chuva

Falar em Pajem do tarô é o mesmo que falar em Princesa, a nova concepção do arcano a partir da “correção” do oráculo, segundo alguns artistas. Aqui se encaixa apenas uma noção de temporalidade à história, que se passa entre agosto e setembro de 97 — Lady Di morre na França.
 
Jornais anunciam a morte de Lady Di

Não, não é coincidência e muito menos uma troca de princesas da minha parte. O acidente serve apenas para situar a história na realidade. Mas claro, é a presença da própria Morte mexendo nas entranhas do acaso.
 
Amélie ouve a notícia

Em seu antigo apartamento, Amélie assiste à notícia pela TV. Perplexa, uma ironia do destino acarreta os próximos acontecimentos: encontra uma velha lata escondida em um buraco na parede do banheiro e descobre que as relíquias guardadas pertenciam a um ex-morador. Ao abrir, lembranças que nem eram dela pulam à sua frente. Amélie decide encontrar o dono, um tal de Dominique Bredoteau.

“BreTodeu, e não BreDoteau.” — o destino de Amélie começa a mudar quando conhece seu vizinho Raymond Dufayel, l’homme de verre. Com a ajuda do Eremita em pessoa, consegue devolver as preciosas memórias de infância de Bredoteau. Digo, BreTodeau.
 
Serge Merlin como Raymond Dufayel   O Eremita no Tarot de Marseille restaurado por Jodorowsky-Camoin.
   
Serge Merlin como Raymond Dufayel e o Eremita de Marselha
 
Maurice Bénichou como Dominique Bretodeau  
Maurice Bénichou como Dominique Bretodeau

Comovida com a felicidade do homem, Amélie encontra um sentido para sua vida: ajudar as pessoas ao seu redor a partir de pequenos gestos, muitas vezes criativos e incomuns. Destaque para as descrições do cenário enquanto acompanha o homem cego pela rua, momento em que ela o faz enxergar, iluminar-se por um momento. Foi quando procurava referências sobre o antigo inquilino do apartamento que acabou conhecendo uma outra vizinha: Madeleine Wallace. Viúva, ela vive com seu gato e com o querido Leão Preto, um velho cão empalhado, há 40 anos sem receber notícias de seu marido desaparecido durante uma expedição. Bom, dizem mesmo é que ele havia fugido com a secretária.
 
Yolande Moreau como Madeleine Wallace   A Papisa no Tarot de Marseille restaurado por Jodorowsky-Camoin.
   
Yolande Moreau como Madeleine Wallace e a Sacerdotisa de Marselha

Seu nome lembra a própria Madalena e o sobrenome, as fontes Wallace da França: literalmente destinada às lágrimas, assegura a concierge. É a Sacerdotisa da história, claro. Amélie banca a boa samaritana e dá um jeito de escrever e enviar uma carta do falecido marido, se desculpando pela ausência e declarando, com todas as letras, que a amaria sempre. Milagre do Cupido. Ou uma tática da princesa Poulain.

A Rainha dos Enjeitados, portanto, acaba descobrindo que ainda lhe falta algo que lhe impede de se sentir feliz: um amor de verdade, alguém para jantar, um homem para dormir em seus ombros. Durante sua jornada secreta, acaba conhecendo Nino Quincapoix — o amor à primeira vista.
 
O Pagem de Copas no New Vision Tarot   Nino, o amor à primeira vista.
   
O Pajem de Copas do New Vision Tarot contrastando com os pés de Amélie.
E Matthew Kossavitz, como Nino Quincapoix.


Nino foi também um garoto solitário, a chacota da escola. Chegou a colecionar pegadas no cimento fresco quando era guarda noturno. Agora trabalha num sex-shop e no trem-fantasma do parque de diversões. Também é sensível, imaginativo, quieto e até romântico. Um de seus prazeres é manter um grande álbum recheado de fotografias 3x4, todas encontradas no lixo ou embaixo da máquina instantânea da rodoviária. O grande enigma de sua coleção é o retrato de um homem que aparece sempre em todas as lixeiras, ocupando bastante espaço na preciosa galeria. Sem que se dê conta, ele está prestes a descobrir o amor.
 
O enigma das fotos repetidas

A princesa de Copas torna-se amiga do homem de vidro. Ele tem pintado, nos últimos 20 anos, um quadro por primavera. O da vez é o "Almoço dos Barqueiros", em típicas pinceladas de Renoir. "O mais difícil são os olhares", confessa o artista. Aliás, o único que ele não consegue captar é o da moça com o copo d´água — referência direta ao arcano de Copas, a pura personificação de Amélie e seus sentimentos intocados. Ela está no centro e, no entanto, está fora. "Talvez seja diferente dos outros", justifica a garota, fazendo-o pensar. "Quando era pequena não devia brincar muito com outras crianças. Talvez nunca", deduz Dufayel, fitando a silenciosa companhia.
 
Amélie e o velho amigo

A moça do copo, em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente do quadro a criar laços com os que estão presentes, que se justifica: "Ao contrário, talvez ela esteja tentando arrumar a bagunça na vida dos outros". E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr em ordem?

Gerd Ziegler, em seu livro Tarô — Espelho da Alma, destaca a Princesa de Copas pela sua grande ternura e delicadeza e, pela análise da lâmina de Crowley, segura a taça com a tartaruga, um símbolo da proteção amorosamente proporcionada a si própria e aos outros.
 
Detalhe da no Thoth Tarot  
Detalhe da Princesa de Copas do Tarô de Thoth, pintada por Frieda Harris.

O braço esticado simboliza a distância que tomou dela mesma, ressaltando o perigo de anular-se, sofrendo pela solidão e pelo conformismo de fazer o bem aos outros. A carta prevê novos casos sentimentais, embora inicialmente delicados. Aqueles que surgem forma lenta ou mesmo despercebida.
 
Dominique Pinon
Dominique Pinon como o ciumento Joseph
e Isabelle Nanty, como Georgette.
Isabelle Nanty

Devido a isso, como o destino é fabuloso, o Cupido continua sobrevoando Montmartreveja o caso de Georgette e Joseph que, literalmente, abalou as estruturas do Deux Moulinse começa a entender o recado do Eremita quando se depara com uma chance ao amor: num encontro forçado pelas circunstâncias, ela acaba ficando com o álbum de Nino.

A Morte traz o inesperado. Amélie vai até o Parque de Diversões para devolver pessoalmente o tesouro do rapaz. O sentimento vai se libertando como um suspiro. Ou melhor, como uma baforada próximo ao rosto.
 
A Morte no Tarot de Marseille restaurado por Jodorowsky-Camoin   Amélie e a morte
   
A Morte do Tarô de Marselha com Amélie e Nino: mudanças e mudanças.

E ela está apaixonada. E ele gosta de estratagemas.
Ambos imaginam-se, cada um com suas fantasiosas expectativas.
 
Anotações de Amélie

Ambos estão tensos, mas Amélie permanece segura. Até o dono da quitanda (quase um Imperador; chato, mandão e dependente da mãe na hora de fazer as finanças) tem seu merecido susto e a certeza de sua loucura ao perceber invertidas as maçanetas do banheiro e escovar os dentes com o creme para os pés. Traquinagens de Amélie por destratar Lucien, o Loucofiel entregador de compras e aluno de pintura de Dufayel. Pois é, Collignon. "Até as alcachofras tem coração".
O dono da quitanda e seu ajudante  
Urbain Cancelier é Collignon, o dono da quitanda e Jamel Debbouze, o Lucien.

É Amélie quem facilita a resolução do enigma do fantasma a Nino, que vai até a cafeteria e encontra a garota arredia que desconversa com os gestos e vira água quando ele deixa o lugar.
Nino e a foto

Um toque do décimo oitavo, A Lua, arcano ilustra o ponto.
Ela imagina sua vida ao lado de Nino com todos os detalhes.
Amélie

E um mal-entendido a faz desacreditar em milagres, pelo menos por um dia.
Amélie chora. Por amor.
Amélie chora

Mas a mensagem de Raymond é clara"Vá em frente, pelo amor de Deus”. Nino e Amélie, frente a frente. Eis os Enamorados, que se tocam no silêncio, no auge da história. A luz do Eremita indicou o caminho.
Amélie et son amour
O Cavaleiro de Copas no Morgan Greer Tarot  O Pagem de Copas no Morgan-Greer Tarot  
Cavaleiro e Pajem de Copas no Morgan-Greer Tarot

A Roda influenciou cada passo da história, que vai contra a mania de grandeza e demonstra o valor da pequenez ao ater-se aos detalhes. Aliás, quanto aos detalhes, deixo a dica: quando passear pelas cartas de um tarô, atente aos detalhes de cada uma delas. A cenografia, as texturas, o pano de fundo, as sombras, o jogo de cores e até a semelhança física entre os desenhos e os atores. Amélie é um filme mágico, riquíssimo tanto em mensagens sutis quanto em beleza visual, claro.

Esqueça a Nouvelle Vague”, sugere o diretor. O aspecto visuale até mesmo ideológicodo filme é ambíguo. A atmosfera é irreal; a estética, atemporal. Mas aqui não há espaço para o tédio. Cada personagem tem papel crucial na rede de influências de Amélie. Não, não é nada blasé. A fotografia é belíssima e muito bem trabalhada, um dos grandes destaques. O vermelho e o verde dominam. A trilha sonora, concebida por Yann Tiersen, é perfeita: tonifica o estilo cenográfico utilizado por Jeunet temperando a comédia com boas doses de drama. O acaso acompanhou o roteiro, o elenco e as decisões da equipe técnica. Nas palavras de Bruno Delbonnel, diretor de fotografia, “Amélie é uma história feliz”.
Amélie na estação do metrô
O metrô, o velho cego e Amélie ao som de Edith Piaf.

Apresenta ainda o narrador que parece comentar um assunto simples, porém profundo; descontraído, mas com pitadas de suspense que prendem a atenção. Um toque incomum que faz qualquer pessoa esquecer do tempo, assim como a leitura de um velho livro da infância. Ou mesmo como brincar com as cartas de um baralho.

É inovador e cativante, recomendado a todos por ser extremamente polissêmico e aquecido pelos humores e paixões de uma criança. Curiosa a forma com que todos os coadjuvantes têm seus destinos transformados pelas atitudes dela. A inocência, conscientemente preservada e transmitida em todos os momentos, faz com que sejam validadas as emoções e os minutos preciosos de se render aos prazeres da vida. O destino se encarrega do melhor. Basta querer.
Poster do filme Amélie Poulain  
FICHA TÉCNICA — clique aqui
TRAILER — clique aqui.
E ALGUMAS CENAS — clique aqui
Este trabalho de estabelecer convergências entre o filme
e os arcanos do tarô, de autoria de Leonardo Chioda,
foi inicialmente postado no blog do autor em 2007:
www.cafetarot.com.br
onde se encontram outros textos mais recentes,
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Para conhecer outros trabalhos do Leo, no
Clube do Tarô, veja a Lista de Autores
 
 
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