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12 de novembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Caminhos da Mente e a Posse do Tesão
Ivana Mihanovich

[Palestra apresentada na Confraria de Tarô, 31/08/2019. Trata-se de um relatório
ou sinopse. O conteúdo original faz parte de um projeto ainda em processo.
]

A maioria de nós tem dificuldade em viver o tesão puro e simples. Desejo sexual e exercício do prazer é malvisto numa sociedade de estrutura judaico-cristã como a nossa. O que fazemos é cobrir tudo com o verniz do amor, um sentimento considerado mais nobre e assim suavizamos a admissão do instinto sexual e das loucuras do apaixonamento. O resultado é a confusão de conceitos e a dificuldade de distinguir os meandros do sentir. Precisamos, antes de tudo, aprender a discernir.
Parti do princípio de que o tesão é um afeto e da necessidade de que entendamos melhor o que isso significa, bem como de investigar com mais profundidade os gatilhos das paixões.
Caminhos da Mente e a posse do tesão. Desejos e máscaras
Ilustração elaborada pela Autora
Abordei ligeiramente algumas áreas nas quais investigo essas questões, como a Neurociência-Neuropsicologia, a interferência das novas tecnologias na mente contemporânea, coloquei um ponto da Psicanálise (a ideia freudiana sobre a depreciação do amor e o fenômeno da repetição) e um cerne da teoria de Anima e Animus da Psicologia Analítica de Jung, como pontos importantes para a compreensão de possíveis razões ou gatilhos que nos conduzem ao apaixonamento e ao desejo sexual. Não pretendi, como de resto nunca pretendo, que isso feche questões, ou que sejam reflexões que conduzem a uma verdade cabal. Ao contrário, são sugestões de caminhos e óticas que propõem pontos de partida para a reflexão.
Como todo objeto de pesquisa acadêmica, o entendimento sobre o que é um afeto é uma discussão interminável. Mas na palestra citei alguns exemplos, como Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, na área da Psicanálise, Dai e Sternberg, na área da Psicologia Cognitiva, e António Damasio, na Neurologia e Neurociência, autor que apresenta possibilidades que considero mais elucidativas (dele, sugeri dois livros, “O Erro de Descartes” e “O Mistério da Consciência”, da Ed. Companhia das Letras). Partindo de premissas de Damásio, coloquei a questão de que o tesão é antes de tudo mental e apresentei a diferenciação desse autor entre sentimento e emoção, pois tendemos a crer que o desejo está no emocional, quando, a meu ver, mais definidor é o sentimento por trás dessa expressão.
Essencial também, penso, é o entendimento de que a reação de padrões neurais bem como do organismo como um todo se dá exatamente da mesma forma, seja o EEC (o gatilho) presencial, mera imagem ou apenas retirado da memória. Corpo e mente alteram-se com igual resultado, diante de qualquer dessas possibilidades.
A pergunta que me coloquei foi: Posto que não exige a interação concreta, quando meu tesão é uma resposta afetiva a um estímulo real e quando faz parte de uma fantasia particular ou de uma projeção?
Quase todo cliente vem ao tarô alegando que ama ou que deseja. Eu acredito que o trabalho do tarólogo é ajudar o cliente a ver além da superfície, tomar consciência dos seus sentimentos e a compreender, dessa forma, as causas das emoções que acionam ou induzem seus desejos e, portanto, das escolhas que disso decorrem.
O impulso e a expressão sexual inúmeras vezes apresentam-se como máscaras para estados e sentimentos bem diversos, como o isolamento, traumas infantis, o sentimento de inadequação, relações oficiais onde o indivíduo não se reconhece mais mas das quais não quer abrir mão, limitações dogmáticas ou moralistas de clã etc. Tesão, portanto, nem sempre é expressão de puro desejo e, ainda mais raro, um dado participativo de estado amoroso.
A tudo isso soma-se o que chamei de “novo ser digital”: apresentei certas questões da interferência tecnológica sobre as sinapses neurais, a degeneração da memória causada por certas ferramentas tecnológicas bem como o problema do soterramento atual de informações ao qual nos sujeitamos e que gera um desgaste tanto cerebral quanto psíquico. Este indivíduo contemporâneo apresenta atrofias neurológicas sutis porém essenciais quanto à conexão, empatia e, acima de tudo, tem extrema dificuldade de auto percepção e de captar a interligação entre o externo e o interno. Acho isso fundamental para o trabalho do tarólogo contemporâneo, pois o atendimento, nesses casos, difere do habitual, especialmente na comunicação, se queremos que a leitura apresente resultados mais coesos e duradouros.
Caminhos da mente e tesão. As difernças de percepção.
Ilustração elabaorada pela Autora
Apresentei, então, alguns Arcanos Maiores como exemplo, seus atributos fundamentais, alertando que nenhum deles pode ser visto de forma rasa, escolhendo entre os conceitos aqueles que “nos interessam” e por isso chegando a algo que responde apenas se há desejo de parte a parte, ou que responde simplesmente sim ou não para o bom e velho “Ele me ama?”
Na minha abordagem, um arcano deve ser compreendido como um universo de conceitos e sua melhor tradução se dará, sempre, pelo contexto e não de forma isolada. E por contexto quero dizer a somatória do arcano, o método utilizado, a posição que a carta ocupa nesse método, a interligação com as outras cartas, o cliente e seu momento de vida.
Ajudar o cliente a refletir sobre os gatilhos, máscaras e sentimentos não conscientes coloca-o no seu momento real e presente e lhe devolve a autonomia fundamental nas escolhas que faz e, portanto, em como desenvolve a si mesmo e à sua vida.
Fechei parodiando Descartes, pois penso que “Busco quem sou, logo existo” é mais compatível com a riqueza possível do nosso trabalho do que o dito original e espero ter contribuído com nossa área, propondo óticas novas e diversificadas.
Ivana Mihanovich é escritora, taróloga, jornalista,
tem capacitação em Neuropsicologia e estuda Psicanálise e Psicologia Analítica.
Publicou um livro sobre o tarô e mantem o blog de conteúdo:
www.tarotluminar.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô : Autores
Edição: CKR – 12/09/2019
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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