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05 de junho de 2020

Responsável: Constantino K. Riemma


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Iconografia medieval
Relações iconográficas que sugerem histórias
Bete Torii
 

A Idade Média foi, acima de tudo, alusiva. Poucos sabiam ler, mas todos dominavam a imagem como ferramenta de comunicação, buscavam significados por trás da realidade visível. Assim, aquilo que aos olhos modernos pareceu obscurantismo era o apogeu da linguagem dos símbolos. E talvez o saber humano nunca tenha estado tão revelado e acessível quanto naquela longa noite estrelada.

 

             A frase acima é de Suzana Lakatos, em
             URL=http://www.humaniversidade.com.br/boletins/os_segredos_das_catedrais.htm

A Papisa

Na Abadia de Fontevraut, em Anjou, França, fica o túmulo de Eleanor (ou Leonor) de Aquitânia, figura imensamente poderosa e interessante do século 12, neta de trovador, que foi rainha consorte da França e da Inglaterra, sucessivamente, e introduziu as regras do fin'amore (o amor cortês) nas duas cortes. Ela era culta e letrada, coisa rara na época, principalmente entre as mulheres. Vejam a semelhança da escultura de seu túmulo com a carta 2.

Adotando a hipótese, que me parece muito plausível, de que o tarô tenha surgido na região do Pays d'Oc (que fica na região do ducado de Aquitânia), sendo uma das manifestações da cultura trovadoresca medieval perseguida pela Igreja Católica e os reis de França a partir do século 13, fica muito interessante imaginar que os gravadores quiseram homenagear sua grande Senhora e protetora com essa carta.

Pesquise sobre a vida de Eleanor de Aquitânia; a Wikipedia tem um excelente texto.




O Imperador

Eis uma representação de Ricardo Coração de Leão, do século 12, que bem pode ter sido o modelo para a carta 4. Ricardo I era filho de Leonor de Aquitânia e foi rei da Inglaterra de 1189 a 1199. Como se sabe, ele foi até incluído como "personagem" nas lendas arturianas, que são de um tempo um pouco mais antigo.

Sobre a vida de Ricardo I, veja, além da Wikipedia, o texto em:
http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1420055 



A força


Para continuarmos falando do rei Plantageneta Ricardo I, vejamos mais uma representação sua, em que ele domina um leão - que é também a figura de seu brasão de armas - de forma que lembra a carta 11.

O fim do texto sobre ele na Wikipedia diz: "Ricardo morreu como consequência de ferimentos provocados por uma flecha que o atingiu no abdome em Abril de 1199. O próprio fato de ter sido atingido naquela zona do corpo é revelador da sua personalidade. Se tivesse usado uma armadura nesse dia, não teria morrido."  De certa maneira, essa coragem e a abertura/vulnerabilidade na região do abdome também se relaciona com a figura da carta 11.



O Diabo


O diabo também frequentava as igrejas medievais! Este capitel se encontra na igreja de St. Austremoine em Issoire, na região de Auvergne, na França.  A igreja é do século 12, no estilo romano - e tem baixos-relevos representando todos os signos do zodíaco, também.

Vejam as evocações da carta 15: o Diabo é uma figura escura, um tanto animalesca e alada, no meio, que subjuga dois humanos nus por meio de cordas atadas ao pescoço.  


O Mundo

Este baixo relevo se encontra sobre o pórtico lateral da Catedral de Bourges (França). Inúmeras outras igrejas góticas têm o mesmo símbolo sobre suas portas: o Cristo em majestade, dentro da vesica pisces, contornado pelos 4 evangelistas representados pelos animais. A carta 21 só pode ser uma alusão a essa figura, pois a coincidência é grande demais!
 

 
08/09/2009 19:54:25

Comentários

Roque Tepin - 19/09/2009 10:33:52
Achei muito interessante essas comparações. Estou curioso para saber como serão com as outras cartas.

Helena - 20/09/2009 19:42:14
É fascinante olhar para os desenhos com que o Homem registra sua História desde as paredes das cavernas, para como os registros viram signos, ícones. Como é instigante relacionar o que foi, é e será, interpretando o que "está escrito" e traduzindo para cada momento! E com que linguagem deliciosa a Bete faz isso!

Bete Torii - 21/09/2009 19:32:27
Sim, o assunto é interessante, fascinante. Afinal, tarô é também cultura (he he)!

ivan m - 11/11/2009 07:43:28
Olá Bete, tudo bem?
Sou Ivan, de BH, aqui temos um Curso de Tarot Iniciático, não para a adivinhação, mas para o autoconhecimento. Este, ao meu ver, passa pela interação com os símbolos. Um símbolo não deve ser enquadrado em um sistema, pois há nele várias interpretações unidas aos insights de cada ser humano. Gostaria de entrar em contato com você, pois penso que se nós tarólogos não aprofundarmos nesse estudo tão fecundo, perderemos o que há de melhor em nosso trabalho. Há muitas catedrais no Brasil que ainda não foram notadas. Por exemplo: aqui, em BH, temos a Catedral de São José e poucas pessoas se aperceberam de que nela há a maioria dos signos do Zodíaco em seu interior.
Abraços
Ivan

Bete Torii - 11/11/2009 19:04:51
Pois é, Ivan, há muita ignorância dos dois lados. Boa parte dos tarólogos e estudantes do tarô têm "bronca" de tudo que tenha a ver com o Catolicismo, sem notar que os tarôs (Arcanos Maiores) mais antigos que se conhece são evidentemente figurações e símbolos de uma Europa medieval cristã. E, por outro lado, uma considerável parte dos católicos de agora abominam o tarô e a astrologia como parte das crendices pagãs, ignorando a origem e o corpo de conhecimento de um e outra.
O problema é que tanto esses sistemas simbólicos como a religião se vulgarizaram e viraram "meios" e utilitários... Ó tempora, ó mores!
Abraços, obrigada por seu comentário.

ivan m - 22/11/2009 18:42:51
A origem da Igreja é: Sumeriana, Egípcia, Zoroástrica e Copta. Sumeriana, porque o Antigo Testamento sofreu muitas influências de duas epopéias: Gilgamesh e Enuma Elish. Egípcia, pois muitos textos do período clássico possuem muitas semelhanças com a Bíblia. Zoroástrica, já que o Zoroastrismo era uma seita levada pelos soldados romanos da Pérsia para Roma e Copta, alguns manuscritos foram levados para a Grécia e depois de longo tempo retransportados para o Egito e traduzidos para o Copta. Antes, do Imperador Constantino, o cristianismo era uma seita como qualquer uma , ela se imiscuía com as outras. Só a partir do Concílio de Nícéia, é que a Igreja decidiu negar as fontes de onde ela tirou o seu substrato principal. Isso valida a informação que a política foi mais importante do que a verdade.
Não citou a fonte para os seus fiéis e fltrou a história, modificando-a completamente.


Bete Torii - 25/11/2009 00:33:33
Olá Ivan, agradeço os filmes indicados e o seu comentário. Mas gostaria de lhe dizer que não tenho a menor pretensão de discutir as origens da Igreja, nem do homem, nem da escrita (objetos de alguns dos filmes indicados), aqui no meu modesto fórum. Só quero apontar correspondências pictóricas entre o tarô clássico (ou de Marselha) e outras manifestações culturais e artísticas da Idade Média européia. Na verdade, faço uma tentativa de validar e corroborar a tese de que os Arcanos Maiores são uma invenção européia anterior ao século 15, que por volta desse século 15 foi "emendada" aos arcanos menores ou naibis que vieram do Oriente. Veja meu artigo, aqui no site: http://www.clubedotaro.com.br/site/h23_15_mamluk.asp. Um abraço.

ivan m - 25/11/2009 07:27:36
Cara Bete, tudo bem?
A iconografia é ampla, por isso citei e sugeri alguns sites.Tudo está interligado, apesar de parecer separadas as percepções que cada ser humano fez e faz do mundo que o cerca. Compreendo o seu ponto de vista.
Abraços
Ivan

ivan m - 25/11/2009 07:31:39

Sugestão:
Livro: O mistério das catedrais
Mansões Filosofais, todos os dois de Fulcanelli

Bete Torii - 25/11/2009 12:10:58
Ivan,
sim, é verdade! E reitero sua indicação dos livros, ainda que eu mesma só conheça um pouco do primeiro.

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