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19 de outubro de 2020

Responsável: Constantino K. Riemma


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O tarô como recurso terapêutico
(uma via para o autoconhecimento)
Giancarlo Kind Schmid
  Há pouco mais de 20 anos surgiu um movimento nos EUA e Europa com o propósito de integrar o tarô às atividades psicoterapêuticas. Embora discreto inicialmente, essa tendência ganha grande força hoje e vários adeptos surgiram em nossa década, associando o oráculo a diversas vertentes terapêuticas, revelando que o tarô é muito mais do que um simples instrumento para previsões.
 
Na história, o tarô surge originalmente como jogo de cartas comum  com fins de entretenimento. Atravessou 04 séculos popularizado como atividade lúdica, e somente no século 18 ganhou status oracular, objetivando revelar o futuro e conexão com a magia. Em pouco mais de dois séculos, foi alçado a instrumento simbólico com foco terapêutico.

A pergunta que precisamos fazer é: "em que o tarô se transformará nos próximos anos?". Sim, os conceitos mudam, as tendências tornam-se outras, estamos deixando a "Era da Fé" (Peixes) para entrar na "Era do Pensamento" (Aquário) e, como esse oráculo tem seus fundamentos no simbolismo, natural que acompanhe a revolução inconsciente coletiva, onde o homem  "não quer apenas saber para onde vai, e sim, quem é e a que veio".

Nos idos dos anos 80, um grupo de psicólogos americanos resolveu experimentar o uso das imagens dos arcanos para trabalhar com seus pacientes. A idéia era estimular livre associações a partir de cada lâmina (carta) escolhida aleatória ou propositalmente. Seus registros e observações propunham estabelecer uma ponte entre o inconsciente de seus pacientes e as imagens arcanas, permitindo "dar voz" a conteúdos que teimavam em se manter reprimidos. A experiência, reservada por assim dizer (pois temiam que psicólogos mais ortodoxos viessem a atacar a prática), foi um sucesso, a ponto de conseguirem não só estimular uma relação mais direta com suas histórias pessoais íntimas, como também conhecer melhor o perfil daqueles internados.

Vinte anos se passaram e o tarô tornou-se uma espécie de "bússola para o autoconhecimento". Certamente, não o seria se não tivéssemos travado contato com as pesquisas do psicanalista suíço Carl Gustav Jung, percursor de algumas idéias que hoje estão relacionadas ao oráculo, como a compreensão do universo simbólico, as manifestações arquetípicas, a natureza do inconsciente e as tipologias psicológicas. Falar de tarô hoje sem citar termos como "arquétipos", "inconsciente coletivo", "sombra", "persona" e outros, é como excluir-se da modernidade alcançada por esse oráculo. Preocupante, porém, é a abordargem de tal tema desconhecendo tecnicamente tais termos (mas esse é um assunto para outra ocasião). Tudo que está em alta, infelizmente, vira modismo.

Existe ainda resistência ao aceitar tais fatos. Alguns sentem-se incomodados com a possibilidade de desviar o tarô do foco adivinhatório (termo esse caindo em desuso popularmente) para o foco terapêutico. Esquecem-se que o símbolo é plástico e pode ser aplicado (adaptado) a qualquer coisa. Daí a gama de correntes em torno do tarô, permitindo espaço para todos. Porém, a tendência do homem futuro é querer conhecer-se ainda mais, pois não há amanhã sem o agora. Apresentar o futuro sem capacitar o consulente, é o mesmo que enviar alguém a uma viagem sem mapa e destino.

O tarô é composto por 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores. O primeiro grupo agrega um tipo de simbolismo, digamos, mais universalizado, a que chamamos de imagens arquetípicas. Tratam de temas comuns a todas civilizações (do nascimento à morte, do poder à ruína, do céu à terra, do bem ao mal, etc.). Plasmam 22 tendências humanas, 22 níveis de consciência, 22 formas de manifestação da vida. Devido à sua pluralidade simbólica, são perfeitamente úteis para descrever comportamentos humanos. Já o segundo grupo distribui-se em 04 naipes, cada qual podendo ser associado a um plano ou tipologia psicológica (Ouros=terra, sensorial; Espadas=ar, racional; Copas=água, sentimental; Paus=fogo, intuitivo). Estes, já são capazes de revelar nossa relação com o meio e as preocupações naturais de todos nós (ter um amor, uma carreira, recursos, saúde, família, sucesso, amigos, estudar, etc.). A combinação dos dois grupos insere o ser humano no seu contexto de vida.

Como o tarô pode ser aplicado terapeuticamente? Preferindo não complicar-me em explicações técnicas e tornar-me prolixo, pensemos que o símbolo é importante veículo de comunicação entre consciente e inconsciente. O que cada arcano realiza, é uma transferência de conteúdos psíquicos até então "invisíveis" à consciência, para a observação e interpretação objetiva. A qualidade desses conteúdos é revelada pela qualidade de cada lâmina, permitindo ao leitor, em sua sensibilidade e intuição, decodificá-los para o consulente na forma de orientações e sugestões. O processo do autoconhecimento ocorre no momento em que o consulente utiliza essas informações para si como  ferramentas para a transformação pessoal, permitindo a superação de suas limitações e crises.

Das práticas terapêuticas conhecidas (integradas ao tarô), destaco as mais populares que vem arrebatando estudantes e pesquisadores diversos:

1) Tarô e Psicologia - alguns psicólogos (principalmente junguianos) europeus e norte americanos  (e aqui mesmo do Brasil) vêm adotando o tarô como um plus psicoterapêutico. Tudo aquilo que não conseguem detectar na análise em consultório, o tarô consegue revelar e permitir uma maior abrangência no tratamento. Importante ressaltar que o tarô não invalida ou substitui a Psicologia tradicional, apenas soma, amplia a capacidade de entendimento do profissional. O Conselho de Psicologia não aceita a atividade, mas lá fora a resistência é bem menor.

2) Tarô e Florais - relacionando os arcanos às essências dos mais diversos repertórios, ou mesmo as combinações entre os arcanos, a prática começou a ganhar força nos anos 90. Valendo-se de métodos específicos (ou não) o tarólogo identifica o momento psicoemocional do consulente, sugerindo-lhe uma receita a ser ministrada durante um certo tempo. O tarô, nesse caso, substitui a entrevista anamnésica para levantamento biopsíquico do consulente.

3) Tarô e Meditação - na verdade, após o boom hippie e a divulgação maciça da filosofia oriental nos anos 70, alguns praticantes mais ousados passaram a usar o tarô para meditações diárias. Essa sugestão, mesmo que implícita, nasce com as correntes ocultistas oriundas de magistas como Crowley, C.C. Zain, Ouspensky e outros. Trata-se de uma prática onde o usuário das lâminas refletirá sobre o seu momento, um assunto qualquer, suas ações e decisões, visando alcançar uma clareza interior. Alguns praticantes usam apenas um arcano, outros trabalham com métodos, tratando-se de algo muito particular.

4) Tarô e Arteterapia - transformar as imagens do tarô em arte. Quando o ocultista Zain sugeriu que pintássemos nossos baralhos, essa prática tornou-se uma forma de arteterapia rudimentar. Hoje, a prática agrega várias  expressões como a dança, escultura, modelagem, pintura, poesia, música dentre outras. O objetivo é atenuar as tensões do praticante e permiti-lo relacionar-se de forma direta com as suas emoções mais profundas, "desbloqueando" a psique.

5) Tarô e Oniroterapia - usando os arcanos do tarô para compreender melhor os sonhos. Na verdade, a idéia é realizar uma ponte entre o conteúdo simbólico dos sonhos com o dos arcanos. A partir daí, criando-se uma associação entre os polos simbólicos, somos capazes de acessar conteúdos profundos que remetam ao momento psíquico do consulente.

Há outros tipos de práticas terapêuticas envolvendo o tarô, a citar a Cinesiologia, Programação Neurolinguística, Física Quântica, Teatroterapia,  Cristalterapia, dentre outras áreas ainda em fase de desenvolvimento e descobertas.

Creio que em mais vinte anos, será impossível desconciliar o tarô das vertentes terapêuticas. Urge, em nossa sociedade, o desejo de saciar o chamado íntimo que nos leva irremediavelmente ao caminho do autoconhecimento (lembrando que essa jornada iniciou-se na Grécia séculos antes de Cristo através do axioma "conhece-te a ti mesmo").


FONTES BIBLIOGRÁFICAS:


GILLES, Cynthia. O Tarô, uma história crítica – dos primórdios medievais à experiência quântica. Editora Pioneira. São Paulo, 1994.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras completas de C. G. Jung. Vol IX/1. 2. ed. Vozes. Petrópolis, 2002.

MARQUES, Ednamara Batista Vasconcelos e. O Tarô. Das correlações arquetípicas à função terapêutica. Editora Florais de Minas. Itaúna, 2004.

NICHOLS, Sallie. Jung e o Tarô. Uma jornada arquetípica. Editora Cultrix. São Paulo, 1997.

PRAMAD, Veet. Curso de Tarô e seu Uso Terapêutico. Editora Madras. São Paulo, 2004.

ROSENGARTEN, Arthur (Dr PhD). Tarot and Psychology. Spectrums of Possibility. Paragon House, St. Paul, Minnesota, 2000.
 
09/11/2009 23:20:34

Comentários

Giancarlo Kind Schmid - 11/11/2009 21:58:03
Jaime,
Dentro do próprio ocultismo há correntes que distinguem formas de pensar. Por exemplo, os atritos ocorridos entre Waite e Crowley, geraram divergências entre as correlações cabalísticas, astrológicas e até numerológicas (como a conhecida inversão entre os arcanos 08 e 11). O que eu quis dizer é que você tem um ponto de vista, eu tenho o meu, e sempre haverá pessoas dispostas a apoiar um ou outro. O que eu não acho bacana é a divergência em tom de crítica, quando a pessoa começa a falar algo sem ao menos estudar (ou conhecer) a fundo o assunto. Se está havendo uma "psicologização" da prática, significa que o público está buscando algo mais. Se fosse um movimento isolado, até poderia dizer que se trata de um fenômeno induzido. Mas, não o é. Se isso lhe incomoda, provavelmente precisará se adequar aos novos tempos, pois a tendência é do movimento crescer.
Sinalizei a questão do "ataque pessoal", pois estou pra lá de escolado com debates assim: se iniciam como um debate racional e daqui há pouco tornam-se ofensivos. Para evitar isso, já explicitei na outra mensagem que não quero passar por isso aqui.
Disseste bem: "a tarologia é AINDA pertencente às artes mânticas". Talvez não o seja EXCLUSIVAMENTE amanhã. Quem disse que o tarô pertence à MANTEIA foram os ocultistas. Será que eles estavam totalmente certos? Eles são tão humanos e falíveis como nós. Penso que o aspecto oracular do tarô é um dos possíveis recursos que oferece (assim como foi um dia atividade lúdica), agora, não temos competência de julgar o que poderá se tornar no futuro. O ser humano se transforma, o mundo muda, as tendências podem se tornar outras.
Não nos apoiamos em termos psicológicos para assegurar o que o tarô se tornou. Por si só, ele é o que é: um instrumento simbólico em processo evolutivo.

Giancarlo Kind Schmid - 11/11/2009 21:58:11
Não escrevo para ser apoiado ou elogiado. Escrevo para divulgar, informar (e esclarecer). Como disse, aceita o que eu escrevo quem se afina com a proposta. Ninguém é obrigado a concordar com ninguém. Só acho chato "discutir o sexo dos anjos" quando esse assunto não permitirá um consenso da forma que é tratado (com resistências ou preconceitos). É preciso ler e pesquisar antes de firmar opiniões.
Não seria um ponto de vista petrificado acreditar que o tarô é só mancia (oráculo)? Pense nisso.
Abraço!

Flavio Albeorni C. Farias - 12/11/2009 20:31:34
Gostei imenso deste texto. Parabéns.

Francis Capello Lucci - 12/11/2009 21:41:37
Por gentileza, Sr. Giancarlo, estou pesquisando sobre a origem do uso terapêutico do Tarô e preciso de informações a esse respeito. Ai te pergunto: quando o Sr. afirma que "um grupo de psicólogos americanos resolveu experimentar o uso das imagens dos arcanos para trabalhar com seus pacientes", poderia citar os nomes que compõem ou que fizeram parte deste grupo, incluindo a fonte de onde retirou essas informações?

Quanto a esta tua afirmação: "1) Tarô e Psicologia - alguns psicólogos (principalmente junguianos) europeus e norte americanos (e aqui mesmo do Brasil) vêm adotando o tarô como um plus psicoterapêutico."

Será que poderia me dizer aqui a fonte de onde tirou essas informações? De que regiões da Europa são estes psicológos? Como moro na Europa, em Roma, Itália, gostaria de entrevistar alguns desses psicológos europeus.

Fico-lhe grata com as respostas.

Francis

Giancarlo Kind Schmid - 12/11/2009 21:53:04
Oi Flavio,
Muito obrigado pela sua visita e comentários. Será um prazer conhecê-lo no evento do dia 12/12 em Sampa.
Abraços!

Giancarlo Kind Schmid - 12/11/2009 22:36:47
Oi Francis,
É um grande prazer poder colaborar.
Bem, vamos lá. Citarei os nomes desses profissionais mais conhecidos lá fora, pois há os colaboradores, e não conto com o nome de todos relacionados às equipes.
1) Dr. PhD Arthur Rosengarten (psicólogo junguiano) - autor da obra "Tarot and Psychology: Spectruns of Possibility" - http://www.cihs.edu/cihs/Dr_Rosengarten_bio.htm http://artrosengarten.wordpress.com/ e http://www.paragonhouse.com/Publicity/tarot.htm
2) Dra. Irene Gad (psicóloga junguiana) - autora da obra "Tarô e Individuação" - http://www.aeclectic.net/tarot/books/tarot-individuation/
3) Dra. Sallie Nichols (terapeuta e pesquisadora junguiana) - autora da obra "Jung e o Tarô" http://www.tarotica.com/jungtarot.html
4) Dra. Jane Selinske - http://www.cgjungny.org/workshops51.html
5)Dr. PhD Elinor Greenberg (Gestalt Terapeuta) - http://www.tarotschool.com/TarotPsychotherapy.html

Aqui no Brasil temos referências como Paulo Urban (psiquiatra e psicoterapeuta) - http://www.amigodaalma.com.br/conteudo/cursos_palestras/leiturastaro.htm e http://www.amigodaalma.com.br/conteudo/artigos/taro.htm

Para saber mais: http://marygreer.wordpress.com/2008/03/31/carl-jung-and-tarot/

Algumas das informações que precisa podem ser encontradas nas obras citadas acima e também na Encyclopedia of Tarot - Stuart R. Kaplan - tomo IV

Abraço e boas pesquisas!

Jaqueline Cesar - 15/11/2009 11:05:10
Muito interesante este artigo.Faço terapia junguiana a cinco anos
e fiz grande progresso me valendo dos arcanos maiores na interpretação dos meus sonhos ou mesmo na analise de meu comportamento enquanto paciente.Como taróloga procuro não lidar com previsões,mas com tendencias que me auxiliam na questão do consulente tornando-me assim uma guia na solução dos problemas.
Acredito firmimente no livre arbitrio e na sua força transformadora
nas questões existenciais.

Giancarlo Kind Schmid - 15/11/2009 14:17:45
Oi Jaqueline,
Obrigado pela sua visita.
O tarô tem sido aplicado como excelente meio psicoterapêutico, através do autoconhecimento ou auto-análise. E, certamente a consciência do livre arbítrio é fator primordial, pois é através da oportunidade de escolha que de fato crescemos, maturamos e nos tornamos seres integrais. Se alguém sempre tomar à frente para decidir o que é melhor para nós, nunca aprenderemos, de fato, a lidar com as nossas limitações e dificuldades impostas pela vida. Somos os seres mais inteligentes do planeta e, por incrível que pareça, os últimos a "sair do ninho" e a assumir os riscos existentes da jornada.
Abraços!

Eliane Zanette - 15/11/2009 21:24:49
Utilizo o Tarô como ferramenta complementar em atendimentos como Terapeuta Holística. Sou feliz e realizada por ser classificada cartomante. Não me envergonho nem tão pouco fico frustada com comentários pejorativos porque os resultados são excelentes e trazem benefícios aos consultantes. "Somos o que pensamos ser". Minha consciência se expande e me sinto em paz e em harmonia com o Universo, ouvindo opiniões, lendo, trocando experiências, fazendo cursos...vivendo na intenção de ser instrumento, canal de cura. Tenho a convicção que o TARÔ é espetacular. Grata pelo conhecimento que adquiro cada vez que leio sua página.

Giancarlo Kind Schmid - 15/11/2009 22:11:47
Oi Eliane,
Agradeço sua visita e comentários.
Considero positivo a pessoa sentir-se bem ao assumir-se o que é. Não me classifico "cartomante", pois apenas faço uso do tarô, embora lá fora (nos EUA principalmente) não haja distinção entre o usuário de cartas comuns e o de tarô. Aqui no Brasil é que criou-se essa distinção (tarólogo quem usa o tarô e cartomante quem faz uso de outro baralho). Porém, não são os rótulos que fazem a diferença, mas a qualidade do trabalho e o objetivo atingido, não é mesmo? Também sinto-me feliz por me denominar "taroterapeuta" no cumprimento da atividade que me propus dedicar. O fundamental é a boa conversação e rica troca de informações, somos todos aptos a aprender e ensinar (uns com os outros), ampliando os horizontes do saber. O mais bonito é que todos nós estamos realizando o papel de divulgadores dessa maravilhosa arte que é o tarô.
Abraços e volte sempre (aqui e no meu site)!

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