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23 de março de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Plurilinguagem tarológica: bem-vindo ao caos simbólico!
Giancarlo Kind Schmid
 
Muitos estudantes que enveredam de início nos estudos do tarô, encontram de imediato dificuldades para identificar o ponto de partida para suas pesquisas. De certo, devido à entrada do tarô no Brasil pela via ocultista, ficou de certa forma estigmatizada a idéia de que era necessário enveredar em uma parafernália cultural-esotérica como meio para a “formação do tarólogo”. Algumas obras editadas nos anos 80 mais confundiam do que elucidavam e acabavam por truncar a linguagem do tarólogo com seus consulentes. E pior: muito daquilo que era lido não era compreendido devidamente, sendo mais útil àqueles que já haviam ingressado em alguma ordem esotérica ou escola iniciática. O hermetismo é bonito e profundo, mas não é prático quando se trata de uma análise objetiva taromântica.
Alguns estudantes procurando desesperadamente entender alguns textos ou trechos de livros fazem verdadeiras “ginásticas mentais” para buscar o entendimento ou compreensão da intenção dos autores. Daí surgem os “achismos” oriundos de uma incerteza da interpretação, levando o pesquisador a estabelecer critérios puramente pessoais. Não existe outra forma, mas a maneira mais consistente por aprender o tarô é a prática. Os cursos informarão e darão, dentro dos limites cabíveis, o “caminho das pedras”.
"Les Marottes" - Os bastões dos bobos (ou loucos)
Pintura de Claude Verlinde
A afobação e ansiedade em querer aprender o tarô são inimigos do conhecimento coerente. A tentativa de “beber de várias fontes” ao mesmo tempo, sem qualquer tipo de filtro, pode resultar em combinações esdrúxulas, análises incongruentes e erros de interpretação. O tarô funciona muito bem quando nos pautamos por uma linha de estudos: se o estudante optar entender o tarô pela via cabalística, então deve envolver-se com a Cabala e entender profundamente o assunto (lembrando que existem correntes diversas); se optar pela Mitologia, então deve estudar os mitos relacionados; se optar pelo hermetismo, melhor ingressar numa ordem para entender a intenção simbólica. Tentar “pincelar” os vários conhecimentos existentes, de maneira superficial, procurando atá-los integralmente, poderá resultar naquilo que chamo de “caos simbólico”. Em outras palavras, é a confusão criada a partir da tentativa de se combinar idéias ou conceitos de várias fontes, resultando num antagonismo lingüístico. Devemos entender que os símbolos possuem várias manifestações, talhadas segundo os valores culturais que os revestem. Para ilustrar de forma superficial, podemos citar o cão como melhor amigo do homem aqui no Ocidente, enquanto no Oriente, ele assume uma personificação demoníaca, visto como manifestação do mal. Para sabermos qual a intenção do símbolo dentro de um contexto, precisamos perceber como a imagem está expressa: o cão parece amigo ou ameaçador?
Chamo a atenção sobre a tentativa de se igualar todos os sistemas de linguagem para explicar os arcanos. O estudante deve se familiarizar com uma corrente e passar a se pautar por ela, pois, do contrário, estará sempre “à deriva” nas análises, sem a certeza que a informação que detém produzirá o resultado esperado. Diante da metáfora que “jaqueiras produzem jacas, mangueiras produzem mangas”, é impossível condicionar nossa linguagem aos vários segmentos que certamente enriqueceram o universo do tarô. Sempre devemos ter em mente que os símbolos produzirão um efeito especial sobre nós, pelo qual desenvolveremos nosso sistema de decodificação. Esse sistema ou forma de interpretar os códigos simbólicos poderá estar ou não de acordo com as dezenas de linhas já existentes.
Pintura de Salvador Dali
Há estudantes que simplesmente se verão deslumbrados ao descobrir que os mecanismos que se valem para leitura dos símbolos, estão de acordo, por exemplo, com as abordagens de algum pesquisador antigo. O problema é acreditarem que o sistema em questão é único e absoluto, dando a impressão que quaisquer outros meios de se chegar às informações que o tarô proporciona, estão errados ou equivocados. Então, nascem as famosas discussões, onde se debate “o sexo dos anjos”, quando em se tratando de linguagem simbólica, existem tantos meios possíveis para se alcançar os significados, que isso cria um nó na cabeça da maioria dos tarólogos. Então, alguns tentam fazer o caminho inverso, rejeitando quaisquer linhas de conhecimento e impondo-se como exclusivamente intuitivos na captação das mensagens. Não vejo mal nas pessoas que tiram o tarô baseando-se em sua intuição, o desafio será explicar como chegou à determinada conclusão, já que foi a intuição seu único veículo de comunicação. Nesse ponto, ressalto que a tarologia (estudo da estrutura simbólica e histórica do tarô) deve seguir paralela à taromancia (prática da tiragem), pois uma completa a outra.
Alguns tarólogos se aborrecem quando digo que a Cabala, Astrologia, Numerologia, Mitologia, Alquimia e outros mecanismos simbólicos não explicam o tarô. Devo salientar que os símbolos já se auto explicam, quaisquer outros meios para se entender os arcanos, são paralelos que em alguns casos podem ampliar interpretações, mas, por experiência própria, percebo que na maioria das vezes complica muito mais. Não estou criticando quem deseja entender o tarô por uma das vias citadas, mas se escolher tal opção, que o faça mergulhando a fundo na área relativa, pois os livros nunca poderão oferecer todo conhecimento palpável ou absoluto, apenas fragmentos das idéias do(s) autor(es).
Concluo essa análise, levando o leitor a ponderar: não somos dotados de plenos poderes quanto à linguagem do tarô. Jamais obteremos todo saber e o dominaremos conforme queiramos. Por mais que encontremos sentido nas análises dos diversos autores, a experiência com o baralho acaba sendo muito pessoal. Isso não significa que vamos falar o que vier à cabeça, de qualquer forma ou modo. Existe uma linearidade na leitura, e os símbolos expressas significados e resultam em intenções, através dos quais chegaremos próximos da realidade que os revestem. Muita prepotência acreditarmos que lendo todos os livros existentes no mercado, que estaremos aptos a dominar absolutamente a arte. Tarô é antes de tudo vivencial, aprendemos muito mais com a prática do que apenas as leituras. Observando o comportamento dos arcanos numa tiragem, conseguiremos nos aproximar de sua essência. Não podemos e nem deveremos nos “engessar” nos conceitos de outrem, apenas tê-los como referência nos estudos, engrandecendo-nos no somatório das pesquisas, leituras e trocas de informações. Somos muito pequenos diante da imensidão da psique, e nunca aprenderemos o suficiente, mesmo estudando uma vida toda.
O Caos Simbólico é produto de nossas incertezas e da tentativa de tornar o tarô uma cartilha de significados. A cada dia os arcanos estarão nos trazendo novas visões e significados, cabíveis à sua essência. Nada é estático, tudo se encontra em constante movimento. E o movimento leva a novas descobertas!!!
 
Contato com o autor:
Giancarlo Kind Schmid - www.taroterapia.com.br  e  www.sobresites.com/taro
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
fevereiro.11
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
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  O Momento
  I Ching
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