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20 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


A possível história das cartas de jogar
Bete Torii
 
 
Conteúdo apresentado na palestra de abertura da Jornada com os Arcanos Menores, promovida pelo Clube do Tarô entre agosto e novembro de 2010.
 
Já foi dito e repetido, inclusive neste site, que não se conhece a origem do tarô. Mas pretendo compartilhar o que pensei e articulei como a possível história das cartas de jogar, a partir de algumas pesquisas. Abordarei “a origem das cartas” de dois pontos de vista:
1. Origem no sentido de por que e para que existem, de que necessidade ou para que finalidade surgiram.
 
2. Origem no sentido de história ou antecedentes: o quando e como de seu surgimento e evolução.  
1. De que necessidade ou para que finalidade surgiram?
Diz Hélio Schwartsman em coluna na Folha de São Paulo, em 15 de julho (falando da fascinação do público pelos casos policiais, como o do goleiro Bruno, entre outros):
 
(...) desde o útero procuramos nos expor a experiências necessárias para o correto funcionamento das conexões neuronais. ...) Estamos sempre em busca de mais experiências e, de preferência, experiências extremas, pois é com elas que temos mais a aprender.
O problema é que situações-limite tendem também a ser perigosas. E não faria muito sentido colocar a vida em risco para adquirir habilidades que só são úteis enquanto estamos vivos. A solução que a natureza encontrou para esse dilema é a simulação, o jogo.
(...) o mesmo vale para sentimentos e situações sociais. Podemos nos exercitar nessa seara assistindo a um filme, lendo um romance ou o tabloide sensacionalista. Os detalhes do enredo são o de menos; o que importa é que sejam situações extremas que possamos "vivenciar" em segurança.
 
www.esportesite.com.br
 
www. parana-online.com.br
 
www.es.gov.br
Sabemos que o homem se dedica a jogos há milhares de anos – tanto os jogos e torneios que preparam fisicamente os jovens para a guerra e a defesa da aldeia, como jogos “de salão” ou “de azar”, que treinam o raciocínio, a estratégia e a diplomacia.
Creio que as mancias e oráculos compõem uma categoria irmã dos jogos: jogos são uma forma de treinar habilidades que possivelmente serão necessárias mais adiante na vida, enquanto oráculos são uma forma de nos anteciparmos aos fatos para termos mais tempo de preparar uma resposta a eles. Nos jogos há uma situação hipotética, impessoal, padrão: se um peão adversário barrar o avanço de um cavaleiro, com a cobertura dos arqueiros da torre, o que o cavaleiro deve fazer? Na mancia, há uma situação prevista especificamente para mim/meu reino, ou para determinada época; como posso me preparar para ela?
No meu entender, essa é uma explicação bem plausível para a existência de mancias em todos os povos. E outra coisa que pode ser dita é que nosso interesse pelos acontecimentos futuros é uma decorrência de nossa inteligência humana, e é provavelmente uma causa de nosso sucesso como espécie durante milênios.
Observação: assim como os jogos – recreativos ou esportivos – “decaíram” para o vício, a profissionalização etc., também as mancias decaíram para a morbidez de querer saber “o que vai me acontecer” e o aproveitamento desse mercado com a comercialização de leituras de predição.
2. Quando surgiram e como evoluíram?
Devo observar inicialmente que acredito que o deck dos arcanos menores teve origem e desenvolvimento diferentes dos do deck de arcanos maiores, e ambos foram fundidos num jogo só, na Europa, provavelmente por volta do século 15. Além dos indícios de história dos Arcanos Menores que vou citar a seguir, há uma espécie de “prova indireta” disso:
É bastante citado, nos estudos de Tarô, o nome de Johannes, monge alemão que escreveu em Brefeld, na Suíça, que “um jogo chamado jogo de cartas (ludus cartarum) chegou até nós neste ano de 1377", mas declara expressamente não saber “em que época, onde e por quem esse jogo havia sido inventado”. Sobre as cartas utilizadas, diz que os homens “pintam as cartas de maneiras diferentes, e jogam com elas de um modo ou de outro. Quanto à forma comum, e ao modo como chegaram até nós, quatro reis são pintados em quatro cartas, cada um deles sentado num trono real e segurando um símbolo em sua mão”. Confira em Origens.
Ou seja, o monge Johannes obviamente se referia aos Arcanos Menores! Era esse o jogo que ele viu, na Suíça, no século 14.
Quanto à sua estrutura de 4 grupos (reinos, exércitos) semelhantes, formados de 4 figuras graduadas (nobres) e um número de soldados (peões, “não-pessoas”) – o deck dos Arcanos Menores lembra o chaturanga indiano, o antecessor do xadrez.
Chaturanga
 
"O Xadrez teve sua origem no norte da Índia, durante os séculos V e VI da era cristã. Nessa época não se chamava xadrez nem tinha a forma atual. Evoluiu a partir de um jogo indiano chamado Chaturanga – que significa quatro angas (exércitos). Era um jogo para quatro adversários. (...) Cada oponente possuía um rajah (rei), um carro de combate (torre), um cavalo, um elefante (bispo) e 4 soldados a pé (peões)".
(Fonte: www.fgnchico.sites.uol.com.br/ xadrez2.htm)
A propósito dois fatos poderiam ser apontados para “advogar” a origem indiana dos Arcanos Menores, segundo Rui Sá Silva Barros: os 4 naipes, representando as 4 castas hindus, e o número de 10 cartas numeradas – considerando a importância do sistema decimal na Índia. Tivesse saído diretamente da China, o tarô teria decerto 9 cartas numeradas, como veremos adiante.
O Mahjong, um jogo chinês (dos mais populares na China, Japão, Coréia etc.) que hoje é conhecido no mundo todo, é um “parente” de outros jogos, inclusive o tarô, por certo. Ele tem há séculos um formato e modo de jogar que o colocam entre o jogo de tabuleiro com peças, o dominó e as cartas. E também trabalha com naipes e quadruplicidade: tem 4 cópias (4 exemplares) de cada uma de suas 34 diferentes “pedras”, mais dois conjuntos de 4 pedras especiais. Você pode ver esse jogo e seus naipes na Wikipedia, onde há o interessante texto abaixo, sobre a história da sua origem:
"Segundo parece, o Mahjong moderno é descendente de um antigo oráculo que há milênios era consultado pelos adivinhos chineses. Quando seus astrônomos começaram a registrar as progressões do Sol, da Lua e dos planetas, utilizavam um tabuleiro de adivinhações para prever a posição dos corpos celestes".
"Os movimentos destes astros no céu era registrado movendo os contadores pelas casas do tabuleiro. Este é possivelmente a origem de muitos jogos difundidos, como o Pachisi e o Mahjong. Precisamente neste último são verificados sinais desta origem de oráculo, como a inversão dos pontos cardeais (já que se trata de uma representação dos céus e não terrestre) e a divisão de treze pedras, que representam os meses do calendário lunar."
"A palavra Mahjong é a transcrição livre ocidental do nome original Ma Jiang ou Ma Jiang Pai, onde Pai significa pedra, peça. Seu antecessor recebia o nome de “Jogo das folhas em tiras” porque as fichas eram feitas de papel, semelhante ao nosso baralho comum."
"De todo modo, a história do Mahjong é obscura e existem vários jogos anteriores, antecedentes, porém pouco documentados."
A foto ao lado mostra os componentes do Mahjong:
as pedras (peças), as fichas de contagem e os dados.
(Fonte: www.pt.wikipedia.org/wiki/Mahjong)
 
Com isso pretendo dizer que as cartas de jogar provavelmente descendem de jogos orientais (Índia e China), sendo que pelo menos um deles começara como oráculo. Continuemos com sua trajetória provável.
Há indícios históricos de que o tarô teria entrado na Europa via Espanha, por mãos dos árabes. Ou que teria sido trazido da Terra Santa pelos cruzados... De qualquer forma, é bastante aceito hoje que o tarô chegou ao Ocidente vindo do mundo islâmico – ou através dele. Existem, no museu Topkapi de Istambul, belas cartas remanescentes de um baralho sarraceno de aproximadamente 1400, que provam mais do que isso: na verdade, esse “tarô mameluco” pode preencher uma lacuna da história; já que parece ter funcionado como elo entre as cartas chinesas e as européias. Leia neste site: Baralho mameluco.
Quanto ao formato – cartas, folhas ou lâminas com figuras pintadas – os baralhos sugerem constituir uma evolução da tridimensionalidade para a bidimensionalidade, algo como a migração da escultura para a pintura, do baixo relevo para a gravura... Embora, de maneira fascinante, o Mahjong tenha aparentemente evoluído na direção contrária.
Runas
www. marcosbarros.com.br
 
Búzios
www.robdm.blog.uol.com.br
 
Baralho
www.jogosdecartas.hut.com.br
Os jogos de salão (ou mânticos) mais antigos tinham peças feitas de materiais e formatos que eram acessíveis em cada época para cada povo. Assim, temos os dados de diferentes materiais em vários locais do mundo, as flechas coreanas com flâmulas, que foram substituídas por fitas coloridas, as peças de cerâmica ou madeira ou outro material para jogos de tabuleiro, os búzios, as runas, as pedras de bambu e osso do mahjong, etc. É natural pensar que os baralhos de cartas sejam uma evolução de peças assim – no sentido de um jogo mais leve e portátil, e ao mesmo tempo mais bonito e sofisticado. Então, eles devem ter surgido aonde o papel surgiu – e esse lugar foi o Extremo Oriente, especificamente a China.
A rota do papel rumo à Europa demorou séculos e passou pela Ásia Central (século VII), Turquia e Síria (século VIII ou IX), norte da África... para então chegar à Espanha, por mãos dos árabes, em torno do século X. No entanto, o uso generalizado do papel espanhol só aconteceu no século XIII. Na Itália se produzia papel desde o século XII. O primeiro moinho de papel na França surge em Troyes, no século XIV. Ainda assim, até o final do século XVIII, a fabricação do papel era totalmente artesanal. (Fonte: www.coladaweb.com/curiosidades/a-historia-do-papel)
Ou seja, a história das cartas de jogar corre parceira à história do papel e das técnicas de pintura e impressão sobre papel, é claro.
agosto-novembro.10
Contato com a autora:
Bete Torii - btorii@uol.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
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  O Momento
  I Ching
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