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29 de maio de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


La Sibylle des Salons e o O Grande Lenormand
Rafael Faria Abrão
 “La Sibylle des Salons” (A Sibila dos Salões) é o nome do baralho composto de 52 cartas, cujo nome “Sibylle” é uma derivação da palavra antiga “Sibila” (ou “Pythia”), que significa “profeta”, “vidente”, “oráculo”, “guardião”, sendo primeiramente mencionada nas obras de Platão.
Cronologicamente, os três primeiros baralhos cuja encomenda é atribuída a Mademoiselle Lenormand são esses: La Sibylle des Salons (1828), Grand Jeu de Societé et Pratiques Secrètes de Mlle Le Normand (1840) e o Le Petit Lenormand, (também de 1840).
Cartas da Sibylle de Salons desenhadas antes de 1840
"La Sibylle des Salons" (A Sibila dos Salões) desenhada por Grandville, em 1827.
É considerado como um dos primeiros jogos de cartas para adivinhação na Europa.
Como ocorre que muitas pessoas tomam conhecimento da existência do La Sibylle através do próprio “Le Petit”, começamos esse texto com duas notas importantes. A primeira diz respeito ao cuidado de não se fazer uma cega e automática associação desse baralho ao nome da famosa cartomante. Do mesmo modo esse cuidado é também recomendado ao se estudar a origem do próprio Le Petit. Mesmo o mais antigo jogo citado acima, La Sibylle des Salons, não traz qualquer menção ao nome de Lenormand em suas primeiras edições.
A segunda nota diz respeito à referência ao Sybille de Salons como “O Grande Lenormand”, nome pelo qual ele é mais conhecido em língua portuguesa. É importante notar que este e o Le Petit são os dois baralhos mais famosos associados à Mlle. Lenormand, mas que seria errôneo interpretar que o “Petit” de 36 cartas seja uma adaptação do primeiro, do maior com 52 lâminas, que ficou conhecido como “O Grande Lenormand”. Cabe ainda ressaltar que a expressão francesa “Le Grand Lenormand” é usada, não para se referir ao “La Sibylle’’ mas, sim, ao segundo e menos conhecido baralho dos três que citamos, denominado “Grand Jeu de Societè et Pratiques Secrètes de Mlle Le Normand’’; com suas 52 cartas tem uma razão óbvia para ser conhecido como “Grande”.
Um dos objetivos deste texto é distinguir completamente os três baralhos. Não existe um conjunto publicado originalmente como “O Grande Lenormand” e, mais ainda, nenhum desses jogos é uma adaptação do outro. Todos os baralhos são distintos, em sua arte e em seu modo de jogar.
Impresso em cromolitografia e medindo 11,3 x 7,5 cm, La Sibylle des Salons começou a ser publicado pela editora Grimaud a partir do ano de 1828. Mesmo sem ter abertura para reflexões, nem poder ser relacionado ao tarot, desfrutou no séc. XIX do mesmo prestígio e popularidade que teria o Tarot de Rider-Waite no século seguinte. Foi muito usado e difundido em seu tempo. Assim sendo, se faz necessário o resgate de uma obra relativamente esquecida, mas extremamente significativa para a cartomancia e para a sua popularização. Por não desfrutar de uma fama comparada a do tarot ou a do “Baralho Cigano”, felizmente ou infelizmente, dependendo do ponto de vista que se analisa, o La Sibylle des Salons se mantém distante de artistas que se sentem inspirados por baralhos de cartomancia, deixando sua versão original protegida (ou esquecida).
Jogo Sibylle de Salons impresso pel agrimaud, a aprtir de 1840
Caixa do jogo Sibylle des Salons e as cartas 4. Espera e 27. Doença, nas edições Grimaud a partir de 1840
Prova disso é que basta uma mínima leitura das imagens para reconhecer esse baralho com a maior facilidade. Mesmo que a figura do “Urso” nos coloque em contato com qualquer deck do “Le Petit”, ninguém encontraria outra arte para o “Amour”, por exemplo. Essa carta da “La Sibylle” continua a mesma desde 1828 e se por um lado não é alvo de olhares artísticos, teria sua própria arte difundida em outros baralhos muito semelhantes abordados no fim desse artigo.
Talvez a mais relevante contribuição que “La Sibylle des Salons” deixou para o jogo de 32 cartas atribuído a Mlle. Lenormand tenha sido a objetividade e o descompromisso com as leituras, se comparadas ao tarot. Porém, “La Sibylle”, ainda que com um número maior de cartas, consegue ser mais objetivo que o “Le Petit”. Nele, ao invés de animais e símbolos representando várias situações, abertas a diversas interpretações — o que, além da inegável fama, explica a preferência e a abertura do “Le Petit Lenormand” a diversas outras criações e permissões para possíveis conversas, como com o xamanismo — “La Sibylle des Salons” carrega significados e métodos próprios (facilmente encontrados na internet) traduzidos por pessoas e situações extremamente literais. Ainda que representem situações corriqueiras e comuns na vida da maioria das pessoas, traz consigo a impressão de ter também um prazo de validade “aplicável” bastante curto.
Ediões da Sibila após 1840
Exemplo de cartas editadas a partir de 1840:
1. Protecteur (Protetor), 2. Amie sincère (Amiga sincera) e 3. Flatteur (Bajulador)
Qualquer ligação a mais com o seu “sucessor” torna-se arriscada, ainda que existam cartas similares no “Grande” e no “Petit” (tal como também existe “A Torre” no “Le Petit” e no tarot, mas que mesmo assim não podemos deixar de lado os significados próprios da carta em cada baralho); o nome de Lenormand torna-se insuficiente para explicar algum contato entre os dois conjuntos de cartas além da vertente mais simples de leitura dada à cartomancia. Se fecharmos os olhos para as diferenças de ambos e privilegiarmos as semelhanças, uma hora ou outra teremos que nos deparar com o fato de que a mesma Rainha de Paus que serve “A Serpente” no “Le Petit Lenormand” é a mesma Rainha de Paus que serve “Amiga Sincera” (Amie Sincère) no vasto “La Sibyille des Salons”.
Esse apelo pelas questões recorrentes da vida comum, citado acima e o diálogo óbvio com a análise do comportamento social deram para “La Sibylle” uma de suas características mais singulares: suas cartas também funcionaram como mais um dos meios de comunicação que vinculavam sátiras aos costumes sociais bastante criticados no século XIX. É sabido que a partir da década de 1840, o baralho começou a ser impresso com novos desenhos feitos por Grandville e a partir de então, creditados a ele (a primeira edição que teria acontecido isso seria uma lançada em 1848).
Os humanos como insetos, desenhados por Grandville
As sombras humanas na arte de Grandville
Amostras da arte de Grandville na representação da face sombra dos homens
Algumas informações levam a pensar que as cartas anteriores a essa data representavam figuras completamente diferentes feitas por outro criador. Porém, Grandville sempre foi o único desenhista desse tipo de baralho. Quando da data da primeira publicação, Jean Ignace Isidore “Grandville” não passava de um pupilo de André Leon Larue, ninguém menos que o famoso artista Mansion, a quem a arte das cartas foi creditada por aproximadamente 20 anos. As mudanças que ocorreram nas cartas após essa data dizem respeito a pequenas melhorias nas cores e no traço dos desenhos,sem qualquer alteração substancial das edições anteriores e posteriores de “La Sibylle des Salons”.
Poucas reedições foram feitas do baralho original. Além da melhoria do traçado nos anos 40, o baralho seria mais uma vez reeditado em 1860. Embora a arte não tenha sofrido qualquer mudança, uma alteração digna de nota foi a ordem de numeração das cartas: os números de identificação passam a acompanhar uma nova ordenação, não estritamente alfabética, que leva em conta a primeira letra das cartas:
Jogos da Sibylle editados no final do sec. 19
Exemplos de cartas editadas a partir de 1860: 1. Amor, 2. Amiga sincera, 3. Ausença
Em 1890 o baralho passa por uma nova edição que muda drasticamente as suas cores e que fica em circulação por pouco tempo. Por fim, quase 100 anos depois,  em 1969, a Grimaud apresenta o “The Parlour Sibyll”, a versão inglesa do baralho, que trazia em cada lâmina o nome correspondente ao francês na parte superior direita, em azul (e a coloração correta das cartas). Manteve a caixa e as artes pelas quais o baralho ficou conhecido, com a ordem e os nomes adotados em 1860. Portanto, edições que trazem a caixa original e que contem como a primeira carta o “Amour”, correspondem a essa nova edição de 1969 (a primeira carta da edição original é o “Protecteur”).
1. Amour, 2. Amie Sincère, 3. Absence. Profundas alterações de cor nas edições de 1890-1900
Ilustrações em www.gallica.bnf.fr
Uma curiosidade: assim como outras fontes também fazem, Michael Dummet, em seu livro “A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot” coloca o lançamento de “La Sibylle des Salons” no ano de 1827; e mais ainda, afirma ter sido lançado primeiramente com 33 cartas (32 mais uma representando a própria Sibila dos Salões).
O Legado da Sibila.
O terceiro baralho com o nome de Madame Lenormand – “Le Petit Lenormand” – é praticamente detentor de reconhecimento e escola próprios. Algo muito além da “pouca fama” de “La Sibylle des Salons” (ainda que reconheçamos sua importância), torna bastante difícil relaciona-lo com o baralho de 36 cartas – e as informações trazidas aqui só contribuem para deixar tal associação mais difícil. Porém, o objetivo desta resenha é propor uma redescoberta e um redirecionamento de olhar no tocante a esse baralho.
Sibila della Zingara
"A Sibila da Cigana" uma das adaptações de "La Sibylle des Salons"
Muito além do que o nome já declara, “La Sibylle des Salons” é a grande mãe de um outro caminho de leituras de cartas, o das Sibilas ou Sibyl Cards (ou ainda Tarot Parisien), com poucas informações históricas se comparadas a outros oráculos. As sibilas nasceram na verdade da popularização da cartomancia em uma vertente um pouco mais “barata”, com significados claros e fáceis de entender, sem a necessidade de misteriosas referências passadas de geração em geração. As “Sibilas” tinham um propósito muito mais recreativo, não muito distante de uma “brincadeira” ou “faz de conta”, fosse para fins realmente divinatórios ou ainda (bem mais distante) terapêuticos.
Sibylle - Le Livre du Destin
"Le Livre du Destin" outro exemplo de reapresentação do jogo desenhado por Grandville
Nessa linha surgiram várias outras versões, chamadas de “cartas de conversa”, bem populares na Europa do séc. XIX como as italianas “Vera Sibilla Italiana” e “Sibilla della Zingara”. Não podemos deixar de citar que embora tenham um número reduzido de cartas, o “Le Livre du Destin” (1850) e o “Le Petit Cartomancièn” (1870) também se enquadram nessa categoria, ambos com um número próximo de cartas com os quais “La Sibylle” teria sido lançado pela primeira vez.
La Vera Sibilla italiana
La Vera Sibilla Italiana, uma das mais conhecidas transposições da original "Sibylle des Salons"
Hoje, podemos tranquilamente relacionar o lançamento do Sibylle des Salons como causa e consequência de um dos frutos mais relevantes do renascimento ocultista do século XIX, isso é, seu passo seguinte, uma abertura cada vez maior dos assuntos e experiências esotéricas, que saiam das rodas de místicos no fundo de seus salões. Assim, sem ignorá-lo e tampouco colocar mais valores e significados do que realmente o cabe, podemos reposicionar e dar finalmente o merecido lugar para esse singular conjunto de cartas que, divinatório ou não, deu pelo menos outro olhar (se não místico, pelo menos satírico) a uma sociedade da qual somos todos herdeiros.
 
Fontes:
DECKER, R.; DEPAULIS, T.; DUMMETT, M. “A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot” .
RENOCIAT, Annie; “La Vie Et L'œuvre de J.J. Grandville”.
YOUSIF, Kery; “Balzac, Grandville, and the Rise of Book Illustration”.
www.fortune-telling-cards.com
www.gallica.bnf.fr/ark:/12148
www.giordanoberti.it/html/articoli_lenormand.htm
www.lepalaisdutarot.com
Veja também no Clube do Tarô : Baralho Lenormand - Baralho Cigano
 
Rafael Faria Abrão, especialista em docência no ensino superior,
graduado em design de moda, pesquisador sobre a história da Indumentária,
é apaixonado pela história da cartomancia em geral. 
 contato.rfa@hotmail.com e https://www.facebook.com/AbraoRafa
Edição: CKR – 14/03/2017
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