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12 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


  ARCANOS MAIORES / As 22 cartas / A Lua / Texto de João Cláudio Fontes < voltar  
O alimento para a Lua
  João Cláudio Fontes  
 
    Todos já devem ter lido ou ouvido algo sobre a Árvore da Vida da Cabala e, possivelmente, sabem que na Cabala ocidental (hermética) se associa os 22 caminhos da Árvore com os 22 arcanos maiores do tarot. Os caminhos são isso mesmo, ou seja, os caminhos que todos percorremos no nosso processo evolutivo, da consciência adormecida e "enterrada" de Malkut, a primeira sephira da Árvore, passando pelos caminhos e pelos demais sephirot, até o topo da Árvore, Keter, a coroa da criação. O caminho de retorno à totalidade que é a nossa Divindade.
    Pois bem, a carta A Lua está associada ao caminho 28, que liga a sephirah Netzach à sephirah Yesod. Netzach, tradicionalmente é associada ao planeta Vênus, à Afrodite, à Lúcifer, à "estrela-d'alva" ou "estrela matutina", ao aspecto instintivo-emocional da personalidade, ao poder da natureza, às canalizações do plano astral, à sexualidade "selvagem", luxuriosa, à "mulher fatal". A Mãe Natureza em toda a sua beleza majestosa e terrível.
    Yesod é a Lua, a Sephirah que marca a transição do mundo visível, a Terra, para os mundos interiores (passagem simbolizada pelo caminho 32). Alguns autores dizem que corresponde ao "Id" Freudiano, o inconsciente pessoal instintivo e ao plano astral. Logo, a carta XVIII liga essas duas sephirot essencialmente femininas.
    Não vou me estender no simbolismo da carta em si, que me parece já ter sido bem tratado por outros autores. Os animais, o Lobo, o Cão, o crustáceo (lagostim, escaravelho, escorpião ou o que quer que seja esse ser primitivo), as torres, o caminho à frente, enfim, tudo o que já foi dito. Só gostaria de ressaltar que nesse estágio do caminho o herói ou heroína começa a se defrontar com o seu lado sombrio e começa a ver que, no caminho, nem tudo são flores. O mestre espiritual George Gurdjieff dizia que no começo do caminho tudo são "rosas, rosas, rosas " mas depois que se caminha um pouco mais, vem os "espinhos, espinhos, espinhos".
 
Afrodite, Pan e Eros, escultura grega em mármore, aproximadamente 100 a.C.
Afrodite, Pan e Eros
www.wikimedia.org
 
    É preciso se podar o ego pra que nós possamos realmente sentir o perfume da essência, da alma. Não tem escapatória. Quem quer só o "sunny side of the street" acaba se queimando, as vezes gravemente.
    A Lua, e os cães de Hécate nos lembram bem, também pode nos ensinar muito através do nosso confronto com os nossos medos, raivas, ódios, perversões sexuais, apegos, indolência e todas aquelas características que não gostamos de admitir que fazem parte da nossa personalidade.
    O que não significa aceitá-las incondicionalmente e acriticamente. "Perder a cabeça para recobrar os sentidos" como pregam algumas terapias humanistas (Gestalt, Grito Primal, Terapias Reichianas e outras) nem sempre funciona... ainda mais se a pessoa já tem uma tendência a ser impulsiva e anti-intelectual (o que é tão egóico quanto ser hiperintelectual e obsessivo).
    Histeria não é sinônimo de liberdade, espontaneidade... Muito menos libertinagem. Aceitar e integrar de forma saudável os nossos instintos é uma árdua tarefa. Mas necessária se nós quisermos evoluir estando ainda encarnados. Já disseram que nós, seres humanos, estamos a meio caminho entre as feras e os anjos.
 
A Lua no Tarô de Marselha-Kris Hadar
A Lua no Tarô de Marselha
www.krishadar.com
      A carta XVIII trata da integração do nosso lado fera, do nosso animal interno, que como nos contos de fada, pode ser o nosso melhor aliado ao longo da jornada, ou se tornar o nosso pior inimigo: o Ogro ou a serpente traiçoeira, os monstros e monstras que tentam devorar o herói ou heroína ao longo do caminho.
    Todo cuidado é pouco! Mas o que é a vida sem aventura? Em marcha, então! Caranguejo que dorme, a maré leva!
    Meditando sobre o Arcano me chamou a atenção o fato de as "gotas" ou raios que aparecem na carta estarem na direção contrária, ou seja, estão "caindo pra cima". Isso me lembrou algo que o Mestre greco-armênio George I. Gurdjieff dizia, que os seres humanos "adormecidos" eram "alimento para a Lua". Para entender melhor isso seria necessário descrever os ensinamentos cosmológicos dele, mas acho que é suficiente dizer que, para ele, a Lua simbolizava o grau máximo de "mecanicidade" do nosso "raio cósmico" (num esquema de 7 níveis). Segundo Gurdjieff, a Lua teria surgido como resultado do choque de um planeta errante há milhões de anos atrás. Um fragmento teria se desprendido e deu origem ao nosso satélite. Isso teria acontecido graças a um erro de cálculo de um Arcanjo. Então um outro Arcanjo, Sakaki, teria sido incumbido de consertar essa catástrofe.
    Para isso ele teve que criar vários organismos vivos sobre a Terra,  de modo que  as  vibrações  emitidas  no  momento de
suas mortes poderiam continuar estabilizando a Lua. Mas se os seres humanos, no seu processo evolutivo, descobrissem que não passavam de mero alimento para a Lua, isso atrapalharia todo o "projeto Lua". Logo, ele implantou nos seres humanos um órgão artificial chamado "Kundabuffer", o amortecedor da Kundalini, que os manteria adormecidos e inconscientes dessa terrível situação de serem vampirizados pela Lua.
    Isso me lembra muito aquela cena dos "casulos" do filme Matrix... Então, para ele, somente o "Trabalho", o processo consciente de despertar, guiado por alguém que já despertou ou por um grupo de buscadores imbuídos desse ideal, poderia nos livrar desse pesadelo.
    Quer se considere essa idéias como fatos cósmicos ou como uma alegoria simbólica da nossa situação, um "mithos", me parece válido ver a Lua como símbolo do inconsciente, o "Id" freudiano, que precisa ser integrado à consciência a fim de que nos livremos das suas compulsões infantis. E isso está em perfeito acordo com o caminho 28 da Árvore da Vida, como eu já descrevi.
    A força da Natureza tem que ser canalizada a fim de nos impulsionar no nosso processo evolutivo, como no despertar da Kundalini. Mas há sempre o perigo de cairmos vítimas das ilusões e tentações que o inconsciente nos traz ao longo da jornada. O lado sombrio de Circe adora transformar os homens (e mulheres...) em porcos... Chafurdando na lama, com o focinho grudado na Terra. Após ser dominada por Odisseus, ela o ajuda a passar pelas sereias. Mas a Odisséia só termina em Ítaca, quando o Rei, Odisseus, consegue se reunir com a Rainha, Penélope, cosumando as bodas alquímicas.
    Na Cabala, o objetivo é passar do domínio da Lua, em Yesod, para a esfera do Sol, em Tiferet.
    Essa seria a nossa Aurora Dourada... Somente então nós seriamos livres: "Cada homem e cada mulher é uma Estrela".
    Não um satélite...
    Abraços
    Na Lux
janeiro.09
Contato com o autor:
João Cláudio Fontes - joaoclaudiofontes@yahoo.com.br
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