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24 de maio de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


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Veredas do Tarô
Parte II: arcanos de 8 a 14
Ivana Mihanovich
 
O caminho da Justiça, arcano VIII
O caminho da Justiça
www.4culture.org/publicart/collection/profile.aspx?
projectid=25&cat1=Collection&cat2=Built&cat3=Plaza&cat3b=20
Aqui vemos que o homem está levemente fora do centro, como se estivesse sugerindo a dificuldade que temos em conseguir o equilíbrio perfeito, já que isso demanda uma visão "de cima", mais abrangente ou imparcial. Realmente, quando estamos dentro de uma cena, situação ou evento, é muito difícil ver com imparcialidade, como é difícil julgarmos a nós mesmos com isenção. Tendemos a alternar nosso autojulgamento vagando entre os extremos da autoindulgência indolente e da autocrítica feroz - e, claro, estendemos isso à observação e julgamento do outro. Uma justiça verdadeira pede isenção pessoal, sem variar a sentença de acordo aos nossos desejos, projeções psíquicas, antipatias ou empatias pessoais.
Esta imagem mostra que há várias possibilidades, algumas, inclusive, que parecem seguir à margem do caminho central, mas que, no entanto, mais cedo ou mais tarde, acabarão por levar-nos ao mesmo lugar. Alerta-nos, portanto, a resgatar a correção em nossos movimentos ou atos. Podemos perder tempo e, talvez, a nós mesmos, evitando o centro, dando voltas num labirinto ilusório, ou podemos perceber e aceitar o fato de que não se foge eternamente ao chamado do equilíbrio ou da justiça, em qualquer sentido.
A Justiça do tarô nos incita a refletir sobre nossa responsabilidade em relação, não apenas aos volteios que escolhemos, mas também aos seus efeitos posteriores, pois, assim como os caminhos marginais parecem escapar de passar pelo caminho essencial da Justiça, na verdade fatalmente a ela levarão. Seus jardins estão pontilhados de plantas jovens, quase recém brotadas, relembrando-nos de que o que decidirmos plantar determinará o que iremos colher mais adiante.
O caminho do Eremita, arcano VIIII
O caminho do Eremita
http://angelslightworldwide.com/tag/cave-light
Esta é a vereda do caminhar interno.
A imagem sugere caminhos por dentro da terra ou, podemos inferir, da mente e do corpo. Os compartimentos parecem esculpidos pela ação do tempo, como a dizer que o ser que aí vive é um peregrino em busca do conhecimento e que, ao passear por dentro de si mesmo, vai formando essa casa natural, especificamente moldada a quem ele é.
Apesar de duras, as paredes convidam ao recolhimento e, embora subterrâneo, o local é acolhedor e mesmo protetor. É fácil presumir que alguém diligente e pacientemente faz a limpeza desse mundo interno: não há insetos, nem perigos que distraiam quem aí medita.
A fonte de luz natural simboliza uma luz própria e perene, à qual o Eremita sempre pode retornar ou recorrer. Na verdade, ela aparece como uma conexão intensa, brilhante e exata, um tubo de luz que liga o ser interno com o mundo externo. É no autoconhecimento mais profundo, portanto, que encontramos a luz pessoal, que nos guiará na interação com o que há fora de nós.
Ao fundo, à direita, percebe-se outra luz tênue e mais rasteira, indicando que esse ser não é forçado a uma reclusão eterna, ao contrário: tem plena liberdade de ir e vir, como alguém que, de tempos em tempos, sai e recolhe novos dados para enriquecer suas reflexões nesse lugar pessoal pacífico e iluminador.
O caminho da Roda da Fortuna, arcano X
O caminho da Roda da Fortuna
www.astrolog.org/labyrnth/bower/mazeo07.jpg
A primeira coisa que chama a atenção, aqui, é a perfeição do desenho, do fluxo e da "interação labiríntica". Como não há pegadas nos desenhos mais próximos, à primeira vista o desenho não parece ter sido feito pelo herói. Assim, é natural que a vista salte e procure o início ou a origem desse caminhar. Ele parece sair desse canto superior esquerdo, algo que não vemos distintamente, mas que a mente a priori percebe como uma soma de luz e mar, como se simbolicamente saísse mesmo da fonte original ou dos mistérios que regem o que chamamos de sorte, acaso ou destino.
O herói, ao invés de rebelar-se contra o fluxo ao qual o desenho circular o impele, ou de lamentar estar naquela roda ou estágio particulares e não em outras mais adiante, apenas relaxa, entrega-se ao inevitável, aceita e flui com o momento. É como se simplesmente admitisse que não pode controlar tudo o tempo todo, ao mesmo tempo em que é levado a perceber que todas as voltas (como as etapas, estágios ou momentos) estão interligados e que, portanto, mais cedo ou mais tarde acessará a todos eles (certamente, ao menos, àqueles que fazem parte da sua mandala pessoal). Na verdade, em alguns pontos podemos ver claramente que certas veredas terminam tão de repente quanto começaram, aí sim deixando ao herói a aplicação sábia de sua autonomia na escolha de seu próximo passo. Para que esse caminho seja evolutivo há, portanto, um convite subliminar à uma dança fluente entre o que parece vir anteriormente desenhado por mão invisível e a interferência livre, autônoma e deliberada por parte de quem caminha.
O papel importante do herói, nessa imagem, parece ser o de observar a si mesmo atentamente durante os estágios da Roda, sejam "em cima" ou "embaixo", para aprender quando sua interferência agirá a seu favor, ao invés de apenas badernar, talvez severamente, uma cadência natural.
Os caminhos d'A Força, arcano XI
Caminho da Força
www.trekearth.com/gallery/Europe/France/North/Ile-de-France/Versailles/photo1193632.htm
Caminho da Força
http://positiveandinspirationalquotes.blogspot.com.br/2011_08_01_archive.html
Nas imagens que escolhi para A Força, a palavra essencial é "domar".
Na primeira, é a natureza que foi domada, criando jardins de interação pacífica, tanto entre os próprios elementos (água, terra, vegetação, ar), quanto entre o resultado final e o observador. Essa é uma representação simbólica da arte da diplomacia, que inclui o dom da argumentação inteligente: a habilidade de refrear os impulsos pessoais, aplicar o bom-senso, saber quando ceder e quando exigir, conter o selvagem que há em nós, reunir e compor, atingindo um resultado fluente para todas as partes.
Na segunda imagem isso está representado na interação entre a mulher e a fera, a imagem clássica da carta original. A subida ao alto, acompanhada pelo poder representado por um leão (poderíamos dizer que ela está simbolicamente acompanhada pela própria força ou poder pessoal), só é possível uma vez que a dinâmica baseie-se, antes, no reconhecimento particular da própria natureza instintiva ou animal, bem como em seu profundo potencial. Afinal, instintos demandam espaços de expressão adequados e não intransigente repressão, caso contrário podem apenas recrudescer e então liberar-se sem aviso, como a proximidade de um leão bem sugere.
Por essa manipulação dos impulsos e instintos mais primários, animais ou básicos, manobra também presente na interação com o outro, é que se diz que esta carta inclui a sensualidade, algo que insinua-se subliminarmente na primeira imagem e um tanto mais claramente na segunda.
O caminho d'O Enforcado, arcano XII
 

Particularmente considero este um arcano dual, assim como a Torre. Creio firmemente que nem todo evento ou experiência são de responsabilidade unicamente nossa, nem mesmo num sentido mais subliminar ou subconsciente. As elaboradas explicações de certas linhas espirituais, ou a aplicação errônea do conceito oriental de karma, em geral parecem-me falíveis ou, no mínimo, passíveis de debates eternos e impossíveis de apresentarem conclusões cabais. Há, portanto, certos eventos que credito aos Mistérios, cujas razões ou funções nos são, ao menos com o entendimento terreno que podemos ter, incompreensíveis, inexplicáveis e, muitas vezes, inaceitáveis. Esses estão fora de nosso campo de interferência. Sempre que falo d'O Enforcado, portanto, refiro-me àquilo que realmente nos cabe, ao que podemos manipular e que encerra nossa palpável parcela (ou totalidade) de responsabilidade.

 
O caminho do Enforcado
http://www.artbible.info/art/large/556.html
Nesta imagem ("A Parábola dos Cegos", de Pieter Bruegel), a primeira evidência é a reação em cadeia. Sabemos que o último homem da fila fatalmente cairá, a menos que largue mão do bastão, sua conexão com os que caíram antes dele. Podemos, então, entender como algo simbólico, representativo de que ele cai ou sofre por agarrar-se ao que já foi.
Num primeiro momento, é provável que nosso impulso seja a compaixão, afinal o pobre homem não pode ver. Na verdade, se nos colocássemos em seu lugar, imediatamente sentiríamos autopiedade. No entanto, se aprendemos lá atrás, com a Justiça, a alçar-nos para conseguir uma visão mais imparcial, tornamo-nos observadores e, como tal, perguntamo-nos porque ele não larga o bastão, ao primeiro sinal de instabilidade. O que foi feito de seus outros sentidos, de sua intuição, de seus instintos? E, antes de tudo, por que, em primeiro lugar, optou por prender-se a essa corrente? Certamente o personagem nos daria uma longa lista de desculpas e justificativas, exatamente como fazemos quando nos sentimos vitimizados. Diante daquele a quem percebemos como vítima, sejamos nós mesmos ou o outro, é realmente difícil argumentar logicamente.
Na visão junguiana dos sonhos, atrevo-me a dizer, em geral todo personagem simbolicamente representa o próprio sonhador. Assim, como num sonho, os elos dessa corrente de cegos representam um ser único, que reúne em si mesmo aquele que sugere uma ideia nefasta, como também aquele que a aceita.
Diante de momentos cuja saída parece-nos impossível, imobilizamo-nos, sentimo-nos atados e impotentes; sentimo-nos vítimas. O Enforcado oferece-nos a libertação, sugerindo-nos rever o momento, questionando a real origem dessa situação e refletindo sobre o fato de que, muitas vezes, uma liberdade genuína exige-nos certos abandonos, em prol da conquista da autonomia e de uma evolução verdadeira.
Traduzindo pela própria imagem acima, a verdade é que, antes do último cego pensar que só o que pode fazer é juntar-se à fila, deveria admitir que o faz unicamente porque recusa-se a aceitar sua limitação, ou seja: recusa-se a lidar com sua realidade presente. No fundo, ele encontra-se onde está porque "quis porque quis" seguir a qualquer preço.
Bem, quando, renitentes, acionamos caminhos baseados no que "queremos porque queremos", sem a ponderação prévia das consequências possíveis e, principalmente, entregando a outro a condução de nosso momento, quase sempre, adiante, nos recusamos a assumir a responsabilidade original e preferimos acusar a outro de ser nosso algoz.
O arcano XII ensina que, enquanto não olharmos para a questão com honestidade, aí permaneceremos, eternamente caindo e culpando a outros pelo nosso infortúnio, quando bastaria apenas admitir a que nos agarramos, que nos empaca a vida, e então largar o bastão, abrir mão do que não nos serve mais e que, quase sempre, adiante revela que na realidade nunca nos serviu verdadeiramente.
O caminho d'A Morte, arcano sem nome ou XIII
O caminho da Morte
www.trekearth.com/gallery/Europe/France/North/Ile-de-France/Versailles/photo1192416.htm
Uma paisagem fria e árida, uma vereda central e uma que segue paralela; tudo tão limpo, sem excessos. Um homem solitário e um vislumbre de algo novo que se abre ao longe, mas que ainda não está claro.
Em geral, consideramos essas árvores como "mortas", mas na verdade elas estão apenas hibernando, transformando-se e cumprindo um ciclo que se repete desde o princípio dos tempos. Portanto, certamente irão reviver quando esta fase estiver terminada. Ao contemplá-las, penso que parecem dizer que, se pudermos reconhecer quando é hora de nos recolhermos, ao invés de lutar contra isso, adiante poderemos renascer.
O homem à direita opta por não enfrentar o caminho principal: segue paralelo ao caminho que entendemos como principal. Afinal, ao menos neste momento, pela vereda central não se vê bem o que pode vir pelo outro lado. Longe de ser covardia, essa solução revela cabeça fria, aceitação e entendimento da realidade com a qual ele é forçado a lidar. Mesmo tendo que passar por este caminho solitariamente, ao longe vemos que outros por aqui já passaram. É, portanto, algo que, em algum momento, é comum a todos nós, embora deva ser vivido particularmente.
Chama a atenção certa ausência em geral e, realmente, este é o caminho da limpeza, da liberação e da purificação. Momento de poupar energia e matéria, cortar os excessos e, mais importante, de olhar para a vida com olhos de realidade, sem enfeites, sem distrações, sem bagagens inúteis. Afinal, imagine caminhar pela neve escorregadia, encarando um vento gelado, carregando o que aí não tem utilidade.
Para trilhar este caminho, portanto, o herói deve deixar para trás tudo o que não tem aplicação no presente e tudo o que já terminou. Para isso, deve, antes, refletir calmamente, enxergar o que já cumpriu seu tempo e então aceitar que tudo tem começo, meio e fim, pois só assim realmente alcançará a compreensão de que todo fim também implica, automaticamente, na abertura de um novo ciclo.
O caminho d'A Temperança, arcano XIIII
O caminhio da Temperança
www.trekearth.com/gallery/Europe/France/North/Ile-de-France/Versailles/photo1190198.htm
A primeira sensação que esta imagem passa é a de ausência de movimento. Em seguida percebemos que é um corredor, ou seja: algo que liga um ambiente interno a outro. Assim, o próprio corredor é como uma pausa entre os momentos. A luz que vemos refletida no chão lembra-nos  que há um mundo lá fora ao qual podemos ir, passando pelos compartimentos, até chegarmos à saída. Este local parece, portanto, um intervalo ou refúgio temporário. O local é protegido, tranquilo, limpo e pacífico, além de ser organizado como se favorecesse a busca do equilíbrio: para cada quadro ou móvel à direita, há um equivalente à esquerda.  Ao mesmo tempo, a ausência de qualquer olhar estranho ou censor, oferece espaço para a expressão pessoal; talvez a apreciação ou produção da arte que vemos nos quadros, ou apenas dançar, refletir, devanear ou brincar. Se a entendermos como uma imobilização forçada, viveremos apenas a angústia da impotência, mas se a percebermos como pausa necessária à reenergização, a Temperança tornar-se-á um espaço temporal sagrado, fundamental para o fortalecimento do herói. Assim, ela deixa de ser a imobilidade que os caprichos egoicos entendem como marasmo e transforma-se em preparação e impulso potencial.
março.13
Contato com a autora:
Ivana Mihanovich é escritora, taróloga, publicitária. Publicou um livro
sobre o tarô e mantem um blog de conteúdo: www.tarotluminar.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
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