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19 de novembro de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


+ Estudos: Conjunto dos arcanos
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A simbólica dos arcanos: uma peregrinação da alma
Texto de Jean-Claude Flornoy
original no www.letarot.com
Tradução de Constantino K. Riemma
    
    A idéia da peregrinação da alma, desde sua encarnação até sua liberação, inspirou os místicos e buscadores da verdade na Idade Média. A codificação das etapas dessa peregrinação é muito antiga e podemos entender que o Tarô constitui um sucedâneo modernizado, no final do século XIV, dessa antiga tradição.
    Por volta de 1240, os escultores da Catedral de Chartres, na França, antecipam em sua obras o que seria o Tarô. Seus grafismos deixam bem clara a fonte de onde se inspiraram os imagineiros do Tarot.
    [Nota: O termo traduzido como "imagineiros" refere-se ao francês imagier, que designa os escultores da Idade Média, companheiros e mestres das corporações de ofícios, criadores de figuras, imagens, baixos-relevos comos os reproduzidos abaixo]
 
 
Cristo, no centro da mandorla, na
Catedral de Chartres, evoca algumas
figuras dos arcanos maiores
 
O baixo-relevo da Catedral de Amiens,
apresenta clara analogia com a carta
16. A Casa de Deus (Torre)
 
    
    Muitos historiadores e analistas do Tarô se recusam a estabelecer um nexo entre a aparição do Tarô – súbita e “do nada” – no norte da Itália, em 1375-77 e a civilização da Idade Média. A razão para isso, provavelmente, é o elo perdido. Esses analistas de estilo universitário têm necessidade de pistas escritas irrefutáveis. Isso se torna ao mesmo tempo sua grandeza e sua fraqueza. Sua grandeza porque nada avança sem provas e, sua fraqueza porque, no caso de tradição oral, não existem escritos. Desse modo, eles cortam toda riqueza de ligações com uma tradição que ainda se encontrava viva na época do aparecimento dos trunfos.
    Em situações como essa – a pesquisa sobre origem do Tarô – parece importante ultrapassarmos tais modos formais de pesquisa e apresentarmos opções e lendas. São os grafismos e os temas das imagens que estabelecem as ligações, os nexos.    
    
              
Esculturas da Catedral de Chartres são provas evidentes da similaridade iconográfica
com cartas do Tarô como a 11. Força, 15. O Diabo, 14. A Temperança.
    
    Esse laços nos levam aos companheiros das corporações de ofícios, aos criadores de imagens das catedrais, aos talhadores de pedras, aos trovadores, aos fiéis do amor. Referem-se a todo o conjunto da cultura sagrada da Idade Média, que atravessou uma época sombria, e que nos deixou maravilhas de beleza e de tecnologia inigualáveis. O tarô nos abre para a alma do povo românico, esse povo que a Inquisição perseguiu durante quase quatro séculos para tentar sua erradicação.
    Os 22 arcanos maiores do Tarô descrevem, em forma de código, o caminho da vida de um indivíduo, de sua encarnação à sua liberação. É um mapa geográfico que descreve o itinerário interior do ser através de suas cinco fases de existência.
    
A organização geral dos arcanos maiores
    O Tarô, como peregrinação da alma, decompõe o caminho da vida em cinco fases:  infância, aprendizagem, companheirismo ["compagnonnage", no francês, referindo-se aos companheiros de ofício], mestria – que apresento formando um “quadrado” –  e, por fim, a sabedoria que ocupa a posição central. Cada fase tem sua “porta”, sua conselheira e sua atmosfera própria. O Mundo e a “Desculpa” possuem um status especial.
    
Primeiro quadrado: A INFÂNCIA
Tempo da infância, da construção do corpo físico, dos colégios e nações,  o “nós”.
                   
Porta: O Mágico (I), a encarnação
Quadra: vovó (II) , mamãe (III), papai (IV) e vovô (V).
 
Segundo quadrado: A APRENDIZAGEM
Tempo da aprendizagem, da construção do corpo mental, o “eu”.
                   
Porta: Os Enamorados (VI), a primeira paixão.
Quadra: brilhar (VII), independência (VIII), Diógenes (VIIII), destruição da estrutura (X).
 
Terceiro quadrado: O COMPANHEIRO
Tempo do companheirismo, da construção do corpo emocional.
                   
Porta: A Força (XI), a reconstrução com e na matéria.
Quadra: retorno das lágrimas (XII), catarse emocional (XIII), caminho com o coração (XIIII), crescimento da energia (XV).
 
Quarto quadrado: MESTRIA
Tempo da mestria, construção do corpo de energia.
                  
Porta: a Casa de Deus (XVI), morrer antes de morrer.
Quadra: a obra-prima (XVII), fim do medo (XVIII), de coração à coração (XVIIII), nascer do ensinamento (XX).
 
Centro (síntese) : REALIZAÇÃO
       Tempo da Sabedoria, da construção do corpo glorioso.
   A quinta e última fase é a da participação da consciência na alma do mundo, na Anima Mundi. Representa o Mestre da época.
   O arcano XXI. O Mundo, se encontra no centro, como síntese e conclusão do caminho da vida, da peregrinação da alma.
   Os tibetanos do vajrayana diriam que esse estado de realização está ainda sujeito a uma progressão em graduações que vão até 12 e que denominam “terras”
 
O Louco
Ele se desculpa e faz sua reverência;
ele cavalga o instante.
Ele se livra do mundo e vive no aqui e agora. O passado e o futuro desapareceram de seu cotidiano.
É o Louco sagrado, o Buda tolo, o Judeu errante...
   
    
Jogos numerológicos
    Essa disposição em quatro tem a vantagem de apresentar de modo harmonioso os conjuntos de fases vividas. Os amantes da numerologia e dos jogos matemáticos têm, aí,  um ponto de encontro.
    A base matemática é 4 e o 7 se apresenta, igualmente, com particular importância.
Por exemplo, se somarmos os números das cartas externas ou internas de cada quadra, teremos:
– primeiro quadrado: 7 = 2 + 5 ou 3 + 4
– segundo quadrado: 17 = 7 + 10 ou 8 + 9
– terceiro quadrado: 27 = 12 + 15 ou 13 + 14
– quarto quadrado: 37 = 17 + 20 ou 18 + 19
    Podemos também adicionar as duas cartas que se encontram em linha em dois quadrados opostos:
17 = Papisa + Diabo; Imperatriz + Temperança; Imperador + Morte...
27 = Carro + Julgamento; Eremita + Lua ...
    
As etapas e a mensagem
    Cada arcano representa uma etapa do caminho da vida, um estágio de realização. Se os examinarmos um a um, na ordem e por agrupamentos de cada quadra com o seu respectivo "cabeça", o que “abre a porta”,  poderemos sentir em cada um deles a energia particular que emana dessas imagens. É possível entrar no “jogo da lembrança”. E poderemos dizer “eu também passei por isso!” No final das contas, talvez, compreenderemos que o Tarô conta a história de nossas próprias vidas.
    Aí está o ensinamento que os Antigos, mestres das imagens e construtores do românico e, após, das catedrais medievais, quiseram conferir a um jogo de cartas antes de desaparecerem definitivamente. Trata-se, portanto, de um jogo a dinheiro que se alastrou como um rastilho de pólvora pelos botequins de toda a Europa. Foi como uma garrafa lançada ao mar, um conhecimento transmitido, às cegas, para as gerações futuras, para qualquer finalidade útil...
    Uma vez que o suporte era modesto, porque o jogo permitia ganhar dinheiro, porque falava por imagens e não por palavras e, sem dúvida, ainda por outras razões, a mensagem chegou até nós.

 

Do mesmo autor: a restauração do tarô de Jean Noblet (Paris, c. 1650)
e o de Jean Dodal (Lion, c. 1701), os mais antigos tarôs conhecidos
no estilo do "de Marselha", que a história nos conservou.
Para conhecer melhor o trabalho de Jean-Claude Flornoy, seus estudos,
criações e trabalhos de restauração de baralhos antigos, visite os sites:
www.tarot-history.com (inglês) ou www.letarot.com (francês)

 
 
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