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23 de maio de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


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  1. A roda, fileiras e os quatro grupos | 2. Os onze pares | 3. Tétrades comparativas  
Os indícios reveladores dos segredos do Tarô
1. A roda, as fileiras e os quatro grupos
Oswald Wirth
Traduzido do original francês por
Constantino K. Riemma
    
Este texto consiste na tradução integral do Cap. II - Les indices révélateurs des secrets du Tarot,
da obra do esoterista francês Oswald Wirth denominada Le Tarot des imagiers du Moyen Age.
Para facilitar o manuseio deste texto relativamente longo, fizemos sua divisão em três partes:
[1. A roda, as fileiras e os quatro grupos]    [2. Os onze pares]    [3. Tétrades comparativas]
A roda
 
    Entre os tarôs propriamente ditos, existe um que não traz número. É o Louco, que com essa particularidade parece ficar sem lugar. Hesitamos portanto quando se trata de lhe assinalar uma posição no conjunto. Ele deve preceder o 1. Mágico ou seguir o 21. Mundo?
    A questão desaparece quando o Tarot é disposto numa roda, como sugere a palavra ROTA (= roda) extraída de TARO por Guillaume Postel, pois o Louco se intercala entre o começo e o fim,  representando o irracional e incompreensível Infinito do qual saímos e ao qual estamos destinados a retornar.
    A disposição em roda é muito importante, pois o círculo assim formado se divide naturalmente em duas metades, compreendendo cada qual onze figuras. Em razão das correlações que serão feitas, é proveitoso alinhar essas metades em fileiras:
           
          
Analogia dos contrários
    
    Comparando as figuras que se correspondem nas duas fileiras, é impossível  não reconhecer um certo contraste, em particular entre os arcanos 1 e 0, 7 e 16, 10 e 13, 11 e 12.
    É evidente, de fato, que o Prestidigitador ou Mágico (1) só poderia ser um homem inteligente e hábil, que sabe exatamente o que faz, enquanto que o Louco (0) representa um insensato, que caminha ao acaso, cegamente, sem saber para onde vai.
    O Carro (7), que leva um vencedor, se coloca acima da Casa de Deus ou Torre (16), da qual dois personagens são precipitados; assim, o mais alto sucesso se aproxima, no Tarot, da queda catastrófica, lembrando a Rocha Tarpeiana vizinha do Monte Capitólio.
    A Roda da Fortuna (10) parece prometer uma oportunidade inesperada, ao contrário da Morte (13), que implica a ameaça de uma inelutável fatalidade.
    A Força (11) opõe o poder realizador à impotência do Pendurado (12), cujos braços estão amarrados.
    Embora menos evidentes, os contrastes estão presentes entre os demais arcanos, de tal modo que é permitido concluir que cada uma das metades do Tarot deve ter, no conjunto, um significado geral oposto ao da outra metade.
Jakin e Bohas
    
    Como determinar essa dupla significação geral? Num primeiro momento, somos tentados a atribuir à primeira fileira um sentido favorável e à segunda um sentido desfavorável. Olhando, porém, com mais atenção, poderemos colocar a questão de um modo mais preciso. Trata-se não tanto de bem e mal, mas de atividade e de passividade.
    Os onze primeiros arcanos marcam a carreira de um agente essencialmente ativo, consciente e autônomo; os onze últimos, ao contrário, colocam em cena um sujeito passivo, inconsciente, sensitivo ou impulsivo e desprovido de iniciativa. Mais uma vez, não se deve tomar aqui a passividade unicamente pelo seu lado mau.
    A Iniciação distingue dois caminhos, assim denominados:
 Seco, masculino, racional ou dórico, e
 Úmido, feminino, místico ou jônico.    
    O primeiro se fundamenta na exaltação do princípio da iniciativa individual sobre a razão e a vontade. Ele convém ao sensato, que permanece sempre em plena posse de si mesmo e só conta com os recursos de sua própria personalidade, sem esperar algum socorro das influência exteriores. O segundo é totalmente o contraponto do primeiro. Ao invés de desenvolver o que tem em si e de dar conforme toda a extensão de suas energia íntimas, ele age de acordo com a mística de se colocar em estado de receber em toda a extensão de uma receptividade especialmente cultivada.
    Esta distinção fundamental se reflete no Tarot, cujas duas metades correspondem às duas colunas do Binário: ao Homem e à Mulher; ao Espírito, fogo interior ativo, e à Alma, vapor ambiente sensitivo; ao Enxofre dos alquimistas e ao seu Mercúrio.
    
O eixo do Tarot
    
    Cada fileira do Tarot é dividida em duas partes iguais pelos arcanos 6 e 17, que são precedidos e seguidos por um grupo de cinco arcanos.  Cabe então procurar o significado, de um lado, dos dois arcanos médios (6 e 17) e, de outro, dos quatro grupos de cinco arcanos.
    Nas duas vias iniciáticas se  distinguem duas fases: a primeira de preparação e de estudo, a segunda de aplicação e de colocar em prática, conforme o quadro seguinte:
    
A t i v i d a d e
 
      
Preparação
Teoria
Estudo
 
 
Aplicação
Prática
Colocar em ação

      
      
P a s s i v i d a d e
 
    Podemos notar que, se na iniciação masculina ou dórica a teoria precede a prática, o inverso se produz na iniciação feminina ou jônica, pois o sujeito passivo é impelido aos atos realizadores antes que lhe seja dado compreender. 
    Para desenvolver uma atividade consciente (dórica) é necessário começar pela aquisição dos conhecimentos que se referem aos arcanos 1, 2, 3, 4 5. Quando a instrução é completada, uma prova moral representada pelo arcano 6 permite, se for suportada com sucesso, passar às realizações práticas indicadas pelos arcanos 7, 8, 9, 10 e 11.
    No âmbito da passividade (jônica), o abandono místico se traduz  nas figurações dos arcanos 12, 13, 14, 15 e 16. A seguir, com a ajuda das influências exteriores às quais se refere o arcano 17, determina-se uma iluminação progressiva,cujas fases se refletem nos arcanos 18, 19, 20, 21 e 0.
    Cada qual a seu modo, os arcanos 6 e 17 estabelecem assim a ligação, de um lado entre o aprendizado teórico e o trabalho aplicado do modo dórico e, de outro lado, entre a prática espontânea e o discernimento a posteriori do modo jônico.
    Não insistiremos aqui sobre o que caracteriza as duas grande vias da Iniciação, pois isso dificultaria ao leitor concentrar sua atenção sobre os quatro grupos de cinco arcano que fornecem a chave para decifrar o conjunto do Tarot. Esses grupos são de extrema importância em razão de sua coordenação, graças à qual eles se ordenam reciprocamente quanto ao significado de seus arcanos homólogos. Disso resulta que, se o primeiro grupo for decifrado, os demais se elucidam racionalmente por analogia e justa transposição, como iremos mostrar.
 
O primeiro grupo de arcanos
    
    A Papisa (2) e a Imperatriz (3) estabelecem uma simetria com o Imperador (4) e o Papa (5). Este conjunto de quatro cartas se destaca do Prestidigitador (1), o que nos leva a considerar seu antagonismo com os arcanos que se seguem a ele. Estes, na fase preparatória ou teórica da iniciação dórica, opõem o quaternário à unidade. Ou seja, em matéria de estudo e de preparação intelectual, a unidade pertence ao sujeito pensante. Assim, podemos ver no Prestidigitador (1) a personificação do eu, princípio consciente, ponto de partida de toda iniciativa. É o sujeito simples do conhecimento, cujo objeto múltiplo é figurado pelos quatro arcanos simétricos.
    Esses arcanos compreendem dois homens e duas mulheres que estão investidos de funções laicas e religiosas.
    Os sexos só podem se referir aos conhecimentos indutivos e dedutivos, estando a indução de acordo com o talento feminino, enquanto que a intelectualidade masculina se sobressai na dedução. As funções evocam, por outro lado, a antiga distinção entre as ciências sacerdotais,  metafísicas ou abstratas, e as reais, físicas ou concretas, o que nos leva às seguintes interpretações:
 Papisa (2): Conhecimento sacerdotal indutivo; Metafísica intuitiva, Fé racional ou Gnose.
 Imperatriz (3): Ciência real indutiva; Física; Observação da natureza concreta.
 Imperador (4): Ciência real dedutiva; Matemáticas e ciências exatas aplicadas.
 Papa (5): Conhecimento sacerdotal dedutivo; Filosofia religiosa, Ontologia, Cabala,
  Esoterismo.
 
As transposições reveladoras
    
    O arcano 6, Os Enamorados, marca a passagem da teoria à prática, do estudo preparatório à aplicação. Ele liga assim o 5 ao 7, ainda que o Carro (7) faça referência à aplicação do saber e das qualidades morais do iniciado plenamente instruído, representado pelo Papa (5). Uma relação análoga existe entre os arcanos 8 e 4, 9 e 3, 10 e 2, 11 e 1. Em cada caso, o arcano do segundo grupo aplica praticamente aquilo que o arcano homólogo correspondente do primeiro grupo só realiza em potência ou em teoria. A fileira passiva do Tarô oferece, por assim dizer, a imagem invertida da fileira ativa; isso permite indicar pelo esquema a seguir as relações que se estabelecem no conjunto dos 22 arcanos:
 
O segundo grupo de arcanos
    
    A doutrina transcendente e abstrata que o Papa (5) proclama do alto de seu trono imóvel é aplicada pelo Triunfador do Carro (7) que percorre o mundo sobre um trono móvel. Por toda parte esse ministro inteligente adapta o ideal às necessidades práticas. Ele está em combate com a realidade brutal, e a transforma pela conciliação dos contrários: espírito e matéria, egoísmo e altruísmo. É um árbitro, um pacificador, um sábio que reina pelo seu saber e sua autoridade moral.
    A exatidão matemática (Imperador, 4) se traduz no domínio moral pela Justiça (8), pois a “justiça nada mais é que as matemáticas em ação, em aplicação”, como frisou Berthault-Gras, citado por Lacuria em “As harmonias do ser reveladas pelos números”. A ciência real dedutiva ensina a realização da ordem: ela coloca cada coisa em seu lugar, assegurando assim a estabilidade, o equilíbrio, o funcionamento regular. Podemos portanto relacionar o arcano 8 à sabedoria conservadora, administrativa e governamental.
    A ciência real indutiva (Imperatriz, 3) é cultivada pelo Eremita (9), personificação do sábio que elucida progressivamente e com extrema prudência os mistérios da natureza.
    A Roda da Fortuna (10) promete êxito na vida prática a quem souber aplicar as faculdades intuitivas (Papisa, 2). É preciso ser adivinho para se beneficiar das alternâncias da sorte.
    A Força (11) é o atributo do Prestidigitador (ou Mago, 1) que realizou integralmente o seu programa.
 
O terceiro grupo
    
    Se os cinco primeiros arcanos forem, por assim dizer, invertidos em seus significados, explicarão os arcanos 0, 21, 20, 19 e 18.
    O Louco (0), ao contrário do Prestidigitador ou Mágico (1), é um ser vazio, cujo eu, desprovido de qualquer iniciativa própria, sofre sem controles todas as influências exteriores.
    O Mundo (21) representa o grande Todo que age sobre o sensitivo e o arrebatado em êxtase. As faculdades extáticas estão passivas na medida em que a intuição (Papisa, 2) está ativa.
    O Julgamento (20) opõe a espontaneidade da inspiração aos estudos laboriosos e pacientes comandados pela Imperatriz(3), personificação das Ciências reais indutivas.
    O Sol (19) é a fonte da luz espiritual que ilumina o artista e o poeta. A iluminação genial é antagônica à exatidão matemática (Imperador, 4), embora a arte obedeça a regras rigorosas que, conscientemente ou não, submetem-na à lei dos números.
    Na ordem ativa, a síntese intelectual é puramente racional (O Papa, 5); na ordem passiva, ela é imaginativa. A Lua (18) emite uma claridade incerta e muitas vezes enganosa, como as miragens da imaginação.
 
O último grupo
    
    As Estrelas (17) são as do destino. Elas determinam a sorte do ser passivo que não tem como escolher seu caminho, como deve fazer o iniciado dórico, representado pelos Enamorados (6), que é chamado, como o jovem Hércules, a escolher entre o Vício e a Virtude.
    Uma imaginação exaltada (Lua, 18) concebe projetos extravagantes cuja realização só pode levar a um revés, figurado pela Casa de Deus (16), que faz alusão a todo empreendimento quimérico, ao contrário do triunfo (Carro, 7).
    Aquele que tem os dons de um artista (Sol, 19) está apto para praticar as artes ocultas. Pelos seus encantamentos, ele age sobre a alma do mundo, agente mágico simbolizado pelo Diabo (15). Este arcano opõe o tumulto, o desencadeamento dos instintos irracionais, à calma normal e lógica da Justiça (8)
    O inspirado (Julgamento, 20) tem uma receptividade que vai além do ponto de vista intelectual; ele se aplica às obras, ele atrai para si o fluido vital universal, que torna adequado para transmitir aos outros. É esse fluido que a Temperança (14) transpassa de uma urna à outra. Banhar-se nas ondas do oceano fluídico é o contrário da prática do Eremita (9), que se fecha no mais estrito isolamento.
    O êxtase (Mundo, 21) se liga ao poder de evocação que oferece uma vida nova àquele que a Morte (13) ceifou. O antagonismo dos arcanos 10 e 13 saltam à vista; eles representam a oportunidade feliz e a fatalidade infeliz.
    O Pendurado (12) representa o ser que se sacrifica ao renunciar a si mesmo em benefício do outro. A passividade do Louco (0) toma aqui um caráter sublime. Ela realiza a Grande Obra, cuja conclusão marca o final da via mística, enquanto vimos a via natural ou positiva chegar até a Força (11).
    
out.07
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