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23 de setembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Rastreamento de símbolos: Cavaleiros do Tarot
Glória Marinho
 
Há uma frase no livro Jung e o Tarô, escrito por Sallie Nichols que explicita de maneira clara e contundente o poder das cartas em suas várias interpretações:
Cavaleiro de Espadas
Tarô de Marselha
 
O Tarô possui em suas origens, antecipações em padrões profundos do inconsciente coletivo, com acesso aos potenciais de maior percepção à disposição desses padrões. Consequentemente uma viagem através das cartas é também uma viagem às nossas próprias profundezas, como ser humano.
Considerando os símbolos como material mítico por excelência, a sua interpretação é livre e sem limites. Esta é a linha de raciocínio que me orienta. Tomei de empréstimo a frase Rastreamento de Símbolos, de autoria de Ricardo Pereira, como titulo deste artigo, considerando-a pertinente para a minha explanação sobre os Cavaleiros do Tarot, como heróis e heroínas do nosso cotidiano.
Eles, os Cavaleiros, representam no dizer de Sallie Nicholas, a coragem e o espírito de indagações necessárias para que a jornada da alma seja bem sucedida.
Quanto à conotação dos símbolos, é sabido que as possibilidades de interpretação são infinitas. Se assim não fosse, as cartas passariam a ser simplesmente signos, pois o símbolo é a representação que guarda um sentido secreto.
Um referencial de apoio
A nossa proposta é utilizar os Cavaleiros do Tarot em suas várias atitudes e possibilidades, como um identificador da estruturação mental que definirá parte da personalidade do consulente, vista pelo ângulo antropológico. Assim procedendo seríamos vistos como heróis ou heroínas de nossos próprios destinos, atuando de maneiras diversas, na condução da nossa jornada da alma, como salienta Joseph Campbell em seu livro, O Herói de Mil Faces.
Para esta visualização tomei como suporte a Teoria Antropológica do Imaginário, de Gilbert Durand, priorizando o Teste Arquétipo de nove Elementos (AT-9), que consiste num teste psicológico com fundamentação antropológica. Ele representa a validação da teoria do Imaginário.
Na interpretação do AT-9 encontra-se a determinação do imaginário em seus vários universos pessoais, explicitando-se através de nove elementos, entre eles o personagem heróico, arrumado de maneira coerente ou não, representado o momento vivido de cada um. O ponto central é a identificação da estruturação mental que vai servir para o entendimento de parte da personalidade do consulente.
Os quatro Cavaleiros
A idéia central, aqui, é focalizar as cartas dos Cavaleiros como símbolos dessa estruturação mental. O meu limite está situado justamente na interpretação antropológica das estruturações mentais que, grosso modo, são três: heróica, mística e sintética.
De acordo com o autor do teste AT-9, o psicólogo francês, Yves Durand, teríamos:
1. o herói puro, racional, sabe por que está lutando e tem objetivos claros;
2. o herói impuro, deixa que lhe digam o que deve fazer;
3. o herói místico detesta a violência, age com objetivos especiais para resolver os seus problemas;
4. o herói chamado de sintético ou discriminatório, atuando nos dois pólos: ora herói de si mesmo, ora místico com sentimentos.
Numa projeção de correlações da visão do psicólogo com as cartas dos Cavaleiros do Tarot, consideraríamos o seguinte:
1. O herói puro seria o Cavaleiro de Espadas porque a sua essência é a liberdade de agir, possuindo uma comunicação perfeita,
2. O herói impuro, o Cavaleiro de Paus, porque ele abre espaços para os outros,
3. O herói místico se expressaria através do amor universal, cabendo o posto ao Cavaleiro de Copas,
4. O herói sintético ou discriminatório precisa de liberdade para construir sua vida, por isso mesmo é ambivalente, posição perfeita para o Cavaleiro de Ouros, que atua nos dois pólos – heróico e místico – um de cada vez ou os dois ao mesmo tempo.
Tratando-se apenas de mais um esquema com possibilidades de adaptação, entre as várias modalidades de apresentação existentes, utilizaremos o Tarot de Marselha completo, por ser o mais antigo e também por apresentar ausência de texto, ideal para estimular a criatividade e a Imaginação, que é a matéria prima do Imaginário, servindo para ampliar ainda mais a compreensão da natureza humana.
Os Trunfos do Tarot nos contam uma história simbólica onde as conexões míticas, históricas, antropológicas, imbricam-se e incitam os nossos pensamentos, sentimentos e sensações ao lidar com eles, recebendo ou decodificando as mensagens da vida, De maneira indireta chegamos a relacioná-los com a Kaballah, na Árvore da Vida.
Os Cavaleiros nas tiragens
Se acontecer do não surgimento dos Cavaleiros na leitura das cartas, será interessante observar o nível de envolvimento da pessoa com a própria vida. Será o nível místico tão alto que dispensa a luta explícita?
Se, ao contrário disso, vários cavaleiros aparecerem, poderemos considerar como uma demonstração da condição do consulente através das várias etapas vividas. Nada é para sempre. Mudanças necessárias e também consubstanciais estão acontecendo, aconteceram ou vão acontecer, no desenrolar de uma existência, através da consolidação dos arquétipos. No rastreamento da simbologia do Cavaleiro, o mais importante é a definição da estruturação mental do consulente no tocante ao seu posicionamento diante da vida, sendo decisivo para o sentido final do desdobramento das demais cartas.
Os cavaleiros serão os personagens que irão lidar com os nove elementos simbólicos, representados em algumas cartas do Tarot.
Costumo utilizar, na arrumação desses elementos, a tiragem das cartas na forma da Mandala Astrológica, para identificar a estruturação da personalidade do consulente. As demais cartas formarão o cenário das coisas vividas. Veremos então atitudes e possibilidades em um futuro próximo.
No caso da tiragem pela mandala astrológica, a 13ª carta representa a síntese e ocupará o centro.
Dependendo do surgimento do Cavaleiro, ou não, no jogo, poderá acontecer uma complementação de dados favoráveis ou não, dependendo das cartas escolhidas.
Existem quatro opções na apresentação das cartas nesta proposta:
1. o Cavaleiro surgirá numa das casas e será identificado (herói impuro etc.)
2. o Cavaleiro surgirá ao lado de outro Cavaleiro, numa indicação clara da necessidade de ajuda
3. vários Cavaleiros participarão do jogo, indicando a desorientação do consulente perante os fatos da vida
4. não surgirá nenhum Cavaleiro no jogo. Neste caso será preciso realizar o jogo do Cavaleiro Adormecido.
O jogo do Cavaleiro Adormecido encontra-se no livro de Rose Gwain, Descobrindo o seu eu interior através do tarô. Utilizaremos apenas três cartas dos Cavaleiros: presente, passado e futuro.
Os nove elementos
Continuando com a explicitação da nossa proposta no tocante aos 9 elementos que fazem parte do Teste AT-9, temos na sua concepção a simbologia que se segue:
1. Espadas, significando a força do homem
2. Água, energia criadora
3. Elemento cíclico, a natureza imutável
4. Queda, o destino da morte
5. Fogo, energia latente
6. Monstro, o pouco conhecido
7. Refúgio, a segurança
8. Animal, a fidelidade
9. Personagem, o gosto pela vida (herói).
 
Utilizando uma correlação com os nove elementos do teste A. T, 9, poderemos adaptar a sua simbologia para algumas cartas do Tarot. O referido teste consta do desenho dos nove elementos compondo ou não uma história, No jogo do Tarot poderemos considerar a disposição das cartas como parte da história vivida pelo consulente.
1. Espadas – a Força do homem
2. Água – a Lua (reflexão)
3. Elemento Cíclico – Roda da Fortuna
4. Queda – a Torre (libertação)
5. Fogo - o Sol ( iluminação)
6. Monstro – a Morte (renovação)
7. Refúgio – o Mundo (individuação)
8. Animal – o Louco com o seu cão
9. Personagens – Cavaleiros do Tarot
No semântica da vida, isto é, no entendimento das coisas vividas, destacam-se os seguintes símbolos: espada, refúgio, personagem, água, e o animal.
Na semântica da Morte destacam-se a queda e o monstro, dependendo sempre da conexão entre as cartas anteriores e posteriores.
A escolha do Louco com o simbolismo do animal nos fala da fidelidade, da proteção ou do perigo; um antigo trunfo do Tarot francês nos mostra além do cão, o galo e o jacaré.
A Roda da Fortuna simboliza a liberação de energias em direção à consciência, A Torre representa uma prisão existencial e a Lua, o renascimento após uma travessia, enquanto o Sol traz a vida transcendente através da iluminação.
O Mundo
Morgan-Greer Tarot
 
Resumindo, o Mundo é o protótipo da Mandorla união das duas metades de uma elipse ligada pelos pontos focais, simbolizando com a dançarina, a arte da criação, reunião dos opostos.
As articulações na apresentação das cartas representam os elementos de estímulos e os arcos das conexões entre eles, no modelo existencial (simbolizando a vida e a morte) e actancial (conteúdo dramático), ou seja, da ação, formarão o cenário do momento vivido pelo consulente.
Os Arcanos Maiores preconizam a função existencial, os Arcanos Menores agilizam a dramaticidade com a função actancial.
O desejo de resolver a ansiedade diante da vida forma o eixo do modelo analisando a organização em torno do personagem em sua situação existencial, O dinamismo das figuras será considerado como a mensagem a ser decodificada, no conjunto dos naipes.
As demais cartas serão vistas como a ambientação cultural onde se insere a pessoa, em seus relacionamentos pessoais e interpessoais, manifestando-se de forma inconsciente nas introvisões das imagens escolhidas na interpretação das cartas.
A visão do futuro em si, não é nossa prioridade neste esquema, a não ser numa ação imediata, O futuro como previsão é cheio de possibilidades e sabendo que muitas vezes projetamos muito de nós mesmo nas pessoas, fica difícil determinar o que vai acontecer a não ser, por pura vidência.
Sabendo que o Tarot é o relicário do Imaginário e nele podemos depositar toda a nossa criatividade e intuição através do seu simbolismo, resgatando o pensamento dos antigos e direcionando para a evolução espiritual dos humanos, faço minhas as palavras de Mary Steiner: “Ao observarmos os desenhos das cartas, com freqüência nos interrogamos se determinadas idéias estão associadas a essas fantásticas figuras, se não existe realmente uma correspondência nessas formas surpreendentes, constituindo um meio para que um simbolismo mais profundo possa manifestar-se.”
Em suma
A nossa proposta não pretende criar um novo simbolismo para as cartas do tarot, mas, sim, uma reinterpretação do símbolo do Cavaleiro em seu posicionamento no jogo, utilizando, para isso, a Teoria do Imaginário que vai além do folclore, pois lida com os arquétipos universais, podendo expressar-se tanto no exotérico quanto no esotérico.
Isso posto, diríamos que, em resumo, o tripé abaixo servirá para resumir a apresentação da proposta:
1. o Tarot de Marselha completo será utilizado no jogo.
2. o cerne principal da proposta é a reinterpretação dos Cavaleiros do Tarot incorporando o arquétipo do Herói universal, apresentando as três estruturas: heroica, mistica e sintética.
3. na prática, a apresentação das cartas será realizada através da forma da mandala astrológica. Esessência, segurança, comunicação, emoção, rotina, relacionamentos, transcendência, sabedoria, objetivos e carma, serão os nove elementos práticos da proposta.
 
Livros consultados:
Durand, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário.
Durand, Yves. Elements d’utilisation pratique et theórique du test AT-9
Jung, Carl. O homem e seus símbolos.
Nichols, Sallie. Jung e o tarô.
Gwain, Rose. Descobrindo o seu interior através do tarô.
 
março.11
Contato com a autora:
Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
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  O Momento
  I Ching
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