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20 de setembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


A imagética dos Ases
Glória Marinho
 
 
“O autoconhecimento vem quando vocês se observam em seu relacionamento (...) com todas as pessoas à volta;
vem quando
observam o comportamento do outro, os gestos,
a maneira como se veste, como fala (...);
surge
quando vocês observam tudo em vocês, sobre vocês,
e quando veem a si mesmo ao enxergar
o próprio rosto no espelho.”
J. Krishnamurti
 
Na literatura do tarô vemos que as cartas apresentam correlações umas com as outras, conectando-se mutuamente e surgindo, assim, algo que precisa ser desenvolvido como se fosse um processo de reflexão.
As cartas do Tarô representam o caminho do autoconhecimento e, por isso mesmo, pode-se ler nas entrelinhas o desenvolvimento desse processo, que acontece com todos os Arcanos. Focalizando apenas os Ases no jogo, temos que seu papel seria o de iniciar o planejamento dos Arcanos Maiores. São os iniciadores dos eventos de uma jornada numa nítida conexão com o primeiro Arcano Maior: O Mago.  Assim, temos que os Arcanos Maiores nos falam das possibilidades e os Arcanos Menores do planejamento dessas possibilidades.
O Ás de Paus no Della Rocca Tarocchi
Ás de Paus
Della Rocca, 1810
 
As figuras da Corte, por sua vez, analisam e autorizam a sua execução. Sara Bartlett, em sua "Bíblia do Tarô", explica mais claramente a função das cartas numeradas: “Essas cartas representam acontecimentos e áreas de vida nas quais você vai viver experiências, descobrir e vivenciar a si mesmo, lugares e temas, nos quais descobrirá mais sobre quem você é de verdade. Elas incluem casos, atividades e preocupações que você mesmo encontrará no dia a dia.” As cartas do Tarô, como acontece nos sonhos, são representações mentais dos arquétipos e, como tal, essas imagens necessitam de respostas imaginativas, que deverão vir da imaginação, da inspiração e da intuição e não de explicações literais.
Para enfatizar o que foi dito acima acrescentaria resumidamente apenas uma simbolização de alguns números: 3 – 4 – 7 – 8. O número três possui o significado da Unidade na Diversidade, como acontece com o Louco. Ele passeia pelos Arcanos Maiores, enquanto os Ases permeiam as Cartas Numeradas. O número quatro, por sua vez, simboliza a completude e a totalidade das coisas. De todos eles, o mais conhecido e complexo é o número sete, representando sa soma da Divindade (3) com a Humanidade (4), na relação dos deuses com o mundo. Representa ainda o resultado da soma do masculino (3) e feminino (4).  Na Bíblia,  é  o número da totalidade e
da ambivalência. Quanto ao número oito, este é o número por excelência do elemento Terra, sendo o número dezoito o do elemento Ar.
A função dos Ases
Sendo os Ases os indicadores das realizações previstas e atentando para as mensagens dos Valetes ou Pajens, serão eles, os Ases, que darão o aval para que as cartas numeradas ponham em prática as escolhas feitas pelos Arcanos Maiores, utilizando para isso a reflexão e a ação propriamente ditas. Rose Gwain nos diz que: "(...) dos Ases aos Dez representam as oportunidades, situações e experiências que encontramos na vida. Elas representam a energia dos elementos à medida em que avançamos pelas espirais de crescimento.
Em sua relação com o autoconhecimento vemos que os Ases, sintetizando as energias dos respectivos naipes, facilitam a compreensão do mundo através das imagens plásticas. Nas palavras de Patricia Berry, citada por Gustavo Barcellos em seu livro "Psique e Imagem": “A imagem é uma complexidade de relações (...) justaposições e interconexões. Uma imagem não é apenas significado, nem apenas relações... (..) não são imagens, mas antes, maneiras de estruturar  imagens” . Atentamos também para o que diz o mestre G. O. Mebes, sobre os Ases: "... eles representam não apenas os seus naipes, mas todos os Arcanos Menores contidos neles em suas potencialidades."
Os Quatro Ases no estilo de Robert Place
Os quatro ases: Paus, Copas, Espadas e Ouros na representação de Robert Place
Se observarmos a Alquimia como parte da Mitologia Mundial vemos também que ela é a pedra fundamental da psicologia da individuação Junguiana. Nos textos alquímicos encontramos o casal real (rei e rainha) bem como o simbolismo da Lua e do Sol e assim por diante. O Dr. Thom Cavalli, em seu livro "Psicologia Alquímica" - Receitas Antigas Para Viver Num Mundo Novo)", acredita que a essência da sabedoria alquímica já está presente em nosso subconsciente e pode ser utilizada como uma aprendizagem para melhorar a nossa vida. Acrescenta ele: "O chumbo é relacionado com a depressão, a morte e o Inconsciente, e Mercúrio, o deus trapaceiro, nos faz avançar no processo de individuação."
O deus Mercúrio (trickster) é, algumas vezes, o nosso Louco, sem dúvida, mas deixemos para depois esta constatação, já que, no momento, estamos tratando dos Ases. Seguindo o raciocínio de E. Edinger, podemos interpretar os Ases de maneira alquímica. Eles apresentam um contexto de Unicidade quando determinam a essência que devem ser seguidas pelos respectivos naipes. Apresentam também o aspecto centralizador que é a relação direta com os quatro elementos. Encontramos ainda um paralelo com a sexta operação alquímica denominada Separatio. Nela, a descrição é feita como uma divisão em quatro. Diz Paracelso que: “Na criação do mundo, a primeira separação começa com os quatro elementos, quando a prima matéria do inicio era o Caos. Desse caos, Deus fez o Mundo Superior separando em quatro elementos: Fogo, Ar, Água, Terra.”
O Ás de Ouros no Della Rocca Tarocchi
Ás de Ouros
Della Rocca, 1851
 
Dos quatro elementos derivam as quatro funções da psicologia Junguiana: Pensamento, Intuição, Sentimento, Sensação. Diz E. Edinger: “O Pensamento determina os conceitos gerais em que os fatos podem ser situados. O Sentimento nos diz se gostamos ou não dos fatos. A Intuição sugere a possível origem dos fatos, aquilo a que possam levar-nos e os vínculos que podem ter com outras; ela apresenta possibilidades e não certezas”.
Levando para uma análise mais cuidadosa, vemos que o simbolismo da Separatio pode ser mais contundente no Ás de Espadas, representando o seu  simbolismo principal: dividir, cortar, nomear e diferenciar. No final, como meta da Individuação, deverá ocorrer a purificação que é, nada mais, nada menos, a reconciliação dos opostos, reconhecida na Coniunctio. Portanto, os Ases são os iniciadores propriamente ditos do caminho do autoconhecimento.
Na literatura do tarô encontramos que há uma conscientização, nas figuras das lâminas, de que a jornada da vida está retratada passo a passo, como se formassem uma estrutura sistêmica, permitindo assim que as imagens representativas dos arquétipos se entrelacem umas com as outras numa compreensão maior das atividades da psique.
Complementando, vejamos o pensamento das autoras Dicta e Françoise: “As lâminas do tarô pertencem às esferas, correspondendo à expressão das suas forças no cotidiano.  Os Ases
reúnem-se em Kether, que representa a unidade e a raiz de cada elemento”. Em outras palavras, são os Ases que representam a essência divina do ser humano e a quintessência dos naipes, que, com todas as suas energias inclusas na variedade dos trunfos, faz com que toda a pluralidade se radicalize na Unidade.
Entre as várias atribuições dos Ases ligadas aos naipes a que pertencem escolhemos algumas:
Ás de Paus – criatividade e espiritualidade e vontade para o crescimento do auto-conhecimento
Ás de Copas – sentimento e amor
Ás de Espadas – poder e força muitas vezes sobrepujando os sentimentos
Ás de Ouros - poder material e espiritual com ênfase no autoconhecimento
Iniciando com a carta do Ás de Paus surgido num jogo, tudo indicará que é chegada a hora de por em prática toda a criatividade do consulente, através de uma maior conscientização de seus atos.  O Ás de Paus traz ainda em seu bojo revelações que interessam à parte social. Ele afirma que os problemas que envolvem os outros também são importantes para a pessoa. A solidariedade nesse caso garantirá o sucesso almejado.
O Ás de Copas  no Della Rocca Tarocchi
Ás de Copas
Della Rocca, 1851
 
O Ás de Copas indicará um inicio de relacionamentos envolvendo muita ação emocional. É importante prestar bastante atenção às mudanças de sentimentos. É preciso uma análise reflexiva para saber exatamente o que está acontecendo.
O Ás de Espadas transmite a mensagem de que os potenciais estão despertando. Anuncia também um ciclo de auto conquistas.
O Ás de Ouros chama atenção para um recomeço de vida onde o poder de criação e a estabilidade financeira estão em alta.
Não vamos esquecer que as mensagens dos Ases estarão diretamente vinculadas à mensagem primeira (I Ching) efetuada antes da leitura das cartas em busca da sincronicidade do momento vivido. Falando em sincronicidade, nos lembramos do simbolismo das imagens que vemos, por exemplo, com o teste de Rorschach (borrões de tinta), ou com o Teste de Apercepção Temática (desenhos inacabados), vistos, de certa forma, como descendentes do tarô moderno.
As imagens são o meio de explicitação das experiências humanas. No dizer do autor Gustavo Barcellos: "Em toda imagem há uma múltipla relação de significados, de disposições, de proposições presentes simultaneamente."
Na nossa visão, com o método de apresentação das cartas, na correlação do A.T.9 (teste dos nove arquétipos) teremos uma reinterpretação das cartas com a  presença dessa sincronicidade que pode ser vista claramente, como afirma [H. Hopeke em seu livro: “Uma sorte proposital e uma chance significativa”.]
Ainda falando de Sincronicidade há que se ver:
  • A questão da causalidade, chamada de mitos no sentido depreciativo.
  • O mito visto como uma realidade sagrada.
  • No sentido psicológico a Sincronicidade apresenta as conclusões que seguem: coincidências acontecem sempre e querem dizer alguma coisa e desde que elas sejam significativas e estruturem a vida numa narrativa coerente são consideradas sincronicidades.
  • Esses acontecimentos sincrônicos provocam no homem moderno uma maneira diferente e mais completa no pensar, sentir e estar presente no mundo. Assim acontece no Tarô em suas coincidências significativas.
    Pondo em destaque a “rede” de interpretações na tiragem das cartas, diria que o funcionamento se fará a partir de uma orientação do I Ching. Em primeiro lugar, antes da consulta propriamente dita, pois indicará o momento vivido pelo consulente em termos de
    O Ás de Espadas no Della Rocca Tarocchi
    Ás de Espadas
    Della Rocca, 1851
     
    coincidências significativas.  Por exemplo, com o hexagrama da Comunicação, ver-se-á a convergência dos eventos indicadores das cartas. Os Arcanos Maiores dirão das possibilidades dessa comunicação.
    Os Ases dirão das modalidades de atitudes para o Casal Real tomar as providências necessárias. Os Pajens ou Princesas serão os mensageiros para as cartas numeradas, cada uma no seu naipe, para a execução final dos eventos sobre o tema da Comunicação. Caberá ao consulente acatar ou não as suas decisões, por conta do livre arbítrio. As escolhas das palavras chaves estarão relacionadas ao tipo de tarô utilizado, já que há uma grande variedade delas, e às mensagens implícitas de cada carta, sem esquecer, todavia, o enfoque no autoconhecimento. Para um maior esclarecimento lembro aqui as palavras de James Hillman em seu livro "Ficções que Curam": "Nosso método, além do mais, não interpreta a imagem, mas fala com ela. Não pergunte o que a imagem significa, mas o que ela quer."
    Encerrando, diria que o importante para o tarólogo, na tiragem de cartas  nesta interpretação, é a conexão estabelecida entre a resposta de I Ching e o desenvolvimento dela no decorrer da consulta, não havendo necessidade de serem feitas perguntas no inicio da consulta. Só no final estas perguntas surgirão para uma maior explanação do assunto em questão.
    Já que os Ases foram vistos como uma espécie de elo de ligação entre os arcanos na explanação da interpretação do A.T.9,  vejamos o que nos diz o mestre G. O. Mebes em seu livro "Os Arcanos Menores do Tarô": "O Às de Ouros (..) representa a idéia que permeia as aquisições de Ouros , a luta e os sofrimentos das Espadas, a bem aventurança de Copas e a realização de Paus”. Em seguida: "O tema dos Ases é tão vasto que (...) temos de limitar-nos ao principal e, especialmente, à ideia de unicidade”.
    Com este artigo finalizo a reinterpretação das cartas do Tarô, iniciada com o primeiro artigo, Rastreamento dos Símbolos, citando um pensamento de Gilbert Durand, autor da Teoria do Imaginário: "Por isso, nós que acabamos de dar um lugar tão belo à imaginação, pedimos modestamente que se saiba dar lugar à cigarra ao lado do frágil triunfo da formiga." (Gilbert Durand- As Estruturas Antropológicas do Imaginário).
    Contato com a autora:
    Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
    Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
    Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
    Edição: ckr – julho.13
    Revisão: Ivana Mihanovich
      Baralho Cigano
      Tarô Egípcio
      Quatro pilares
      Orientação
      O Momento
      I Ching
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