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15 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


As mudanças: uma reflexão sobre destino e livre arbítrio.

Luiz Felipe Camargo Pinheiro,
 
psicólogo de orientação junguiana, especialista em
psicoterapia junguiana coligadaà trabalho corporal,
tarólogo e professor do simbolismo relacionado ao tarô
 
Começo o seguinte texto contando uma história ao leitor. Acredito que este texto tem sua origem pouco tempo depois da mesa redonda realizada na Livraria Cultura que abordou este assunto.
Confesso que apesar de sua origem ser antiga, ele levou um certo tempo para ser elaborado, ainda que o tema estivesse constantemente nas órbitas de minha mente. A idéia ficou guardada em minha cabeça, mas sem tomar forma.
 
God and Devil
Pintura de um autor não identificado
 
Um dia desses, em meio a uma leitura de tarô, surgiu a faísca que talvez faltasse. Percebi que tinha chegado à esperada hora de encarar novamente a questão destino-livre arbítrio. A centelha surgiu num jogo em forma de cruz e com três cartas como resposta, sendo uma a resposta principal e duas respostas auxiliares. No caso, não falarei sobre todas as cartas do jogo, abordarei somente as cartas de resposta, que são as seguintes:
Resposta principal – O Hierofante,
Respostas auxiliares – A Roda da Fortuna, A Torre.
Acredito que seja importante que o leitor saiba que se tratava de um jogo de relacionamento.
Vamos começar a tatear o assunto através de uma das repostas auxiliares. Mais especificamente, a Roda da Fortuna, que sugere que esta pessoa ainda passaria por muitas mudanças e por um período de grandes instabilidades. Percebemos que ela deveria estar preparada para um período de confusão e com dificuldades para recobrar seu centro. Ainda que houvesse períodos melhores, estes não seriam um porto seguro, ou o destino final, pelo menos por enquanto.
Agora vamos olhar para a outra resposta auxiliar, no caso A Torre. Este arcano também aponta para uma mudança repentina, brusca e nos faz pensar acerca de possíveis perdas daquilo que a pessoa realmente se importava ou almejava.
Ambas as cartas falam sobre mudanças e transformações profundas. Tais mudanças se apresentam de forma inesperada, muitas vezes vem do meio externo e obrigam uma conseqüente mudança interna em nós. Em minha reflexão me pergunto, será que as mudanças sugeridas por estas duas cartas não são semelhantes à idéia de destino? O destino, que muitas vezes nos obriga a mudanças inesperadas e profundas? Não é o destino que muitas vezes nos apresenta dados ou realidades novas e nos deixa sem chão, sem base e nos obriga a encontrar outras formas de viver?
Quando nos encontramos nestes momentos, parece que não existe nada a ser feito, tentamos nos proteger e nos segurar nas pequenas coisas que nos restaram (Roda da Fortuna), ou mesmo, por mais que seja uma idéia contrária, devemos simplesmente nos soltar, relaxar e deixar que as próprias mudanças nos conduzam (torre). Para mim, ambas as cartas trazem uma idéia de destino. Um destino que se apresenta com força e pedindo que eu seja capaz de empreender alguma mudança em minha personalidade.
Por outro lado o jogo que citei traz a carta do Hierofante como resposta principal. No meu entendimento é uma carta que também fala sobre mudanças. Porém estas mudanças são de uma ordem bem diferente das que foram tratadas até o presente momento. Trata-se de uma carta que sugere uma revisão de valores, onde a pessoa deve se conectar com aquilo que existe de mais numinoso, divino e sagrado dentro dela. É uma carta que nos lembra de uma grande força que todos nós carregamos internamente e que pode nos ajudar a nos transformarmos em uma pessoa melhor, ou pelo menos, mais em contato com o poder divino existente dentro de nós. Ora, se o homem é dotado da capacidade de reconhecer aquilo que é importante e elevado dentro de si mesmo e de alguma forma, é capaz de buscar e cultivar isto gerando mudanças, então podemos entender que somos dotados de livre arbítrio, não é mesmo?
A grande sacada deste jogo é a de perceber que as mudanças vão acontecer, quer queira ou não (idéia de destino), mas em meio a todas as mudanças que o jogo apresenta, ele confere a possibilidade de poder se orientar segundo os valores mais elevados e divinos que existem dentro de mim (idéia de livre arbítrio).
Em termos desta reflexão sobre destino e livre arbítrio diria que a grande sacada é ser capaz de enxergar os dois de forma que uma idéia não exclua a outra. Ou seja, precisamos entender que as duas forças existem e constantemente estamos em contato com elas. Talvez em alguns momentos sendo mais regidos pelo destino, talvez, em outros momentos, regendo pelo meu livre arbítrio. Mas sempre os dois se relacionam e a vida humana se dá justo no ponto de encontro dessas duas naturezas.
junho.11
Contato com o autor:
Luiz Felipe Camargo Pinheiro - lfpinheiro@yahoo.com.br
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