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25 de junho de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Considerações sobre o uso do Tarô em análises políticas
Guilherme de Carli
O tarô, tal qual a astrologia e outras técnicas de predição, é usado não apenas para explorar questões pessoais como também para entender os problemas de grande alcance, especialmente os de ordem nacional. Isso acontece com frequência no final de um ano quando estamos prestes a iniciar um novo ciclo, mas também é recorrente nos momentos de crise. Surgem então as angústias dos problemas não resolvidos e as esperanças de renovação e continuidade daquilo que está indo bem. O tarólogo se vê diante de todas essas expectativas e, usando-se da técnica de tiragem que julga mais adequada para tal situação, recorre às cartas a fim de trazer alguma luz às nossas dúvidas. Mas será que o conhecimento do tarô é suficiente para uma interpretação desse nível?
Eu costumo sempre dizer que uma das qualidades mais importantes de qualquer tarólogo é a coragem, afinal, eles normalmente lidam com histórias desconhecidas e se dispõem a interpretar a mensagem combinada dos Arcanos para uma dada pergunta. Isso definitivamente não é simples, já que existe um universo de sentido em toda carta que se manifesta de maneiras diferentes para cada tiragem. Sujeitos ao seu contexto como qualquer outra pessoa, o tarólogo carrega consigo uma visão de mundo repleta de valores, utopias e preconceitos que devem ser gestados durante uma interpretação. Afastar-se dos nossos paradigmas é impossível, mas a partir do momento que nos autoconhecemos tornamo-nos capazes de desenvolver uma habilidade autocrítica e, assim, no caso dos tarólogos, eles podem aproximar suas leituras o mais perto possível do ideal de imparcialidade, sem nunca atingi-lo.
Imagem do Cristo Redentor - RJ
Exemplo simbólico de uma visão abrangente...
Por outro lado, quando lidam com questões mais coletivas como a política, o tarólogo precisa fazer um esforço extra devido ao grau de complexidade do fenômeno a ser analisado, além da grande influência de sua ideologia. Quando tratam de problemas individuais, é mais simples impedir que essa ideologia enviese o seu trabalho, mas quando os problemas abrangem toda(s) a(s) sociedade(s), o tarólogo deve entender que seus ideais são ponto-chave na análise, podendo levar a graves erros de predição. Por isso, se no exercício diário de um tarólogo deve-se aprimorar o autoconhecimento, faz-se igualmente necessário o estudo da conjuntura política e da história do país a ser avaliado aos que desejarem interpretar as cartas para questões desse porte.
Não é adequado conduzir uma interpretação que visa à política confiando apenas nos estudos do tarô, tampouco apoiá-la nos textos jornalísticos ou nos formadores de opinião. Acredito que a melhor maneira seria alternar fontes de informação, observando as múltiplas faces do prisma político (presente), e colocá-las em perspectivas históricas (passado) para então, através dos Arcanos, apontar os possíveis caminhos (futuro) da nação. Assim, a análise torna-se mais precisa e a credibilidade do tarólogo aumenta, mostrando sua consciência de que qualquer atividade espiritual não pode se desconectar do mundo.
Um exemplo prático
Tomemos o atual governo como um exemplo a ser problematizado antes de se iniciar uma análise através do Tarô. Primeiramente, cabe nos perguntar quais são as relações de poder envolvidas e de que forma elas definem as pautas e os rumos da política brasileira. Devemos nos levantar as seguintes questões se quisermos realizar uma boa interpretação: como se dão as negociações entre o PT e sua base aliada com a oposição? Qual a dinâmica que permeia o Executivo, o Legislativo e o Judiciário? Quais são os atuais grupos de pressão e pelo o que lutam? Quais são os interesses defendidos pela mídia que entrega nossas informações?
Como sabemos, Dilma Rousseff foi reeleita no segundo turno com ampla base popular, defendendo os programas sociais e os direitos dos trabalhadores. Entretanto, nomeou os maiores representantes dos interesses contrários aos dos seus eleitores para os cargos ministeriais, cortou direitos trabalhistas e investimentos sociais por meio do “ajuste fiscal”. Por outro lado, o mercado ainda está inseguro, o dólar anda escasso no país e o CPMF, imposto extinto em 2007, ameaça retornar. Os únicos que saem ganhando nessa crise com lucros absurdos são os bancários e os latifundiários. Encontramo-nos então em um momento histórico cujo governo não é capaz de agradar nem os setores da esquerda nem os da direita. Isso representa a falência do nosso “presidencialismo de coalizão”, sistema no qual o Executivo deve formar alianças com a oposição para poder governar, dificultando a implementação da pauta que o elegeu (assim, é válido dizer que quem realmente dirige o país é o PMDB).
Quanto à oposição, ela se divide basicamente em três nichos maiores: uma oposição de esquerda, que se posiciona contra o ajuste fiscal e defende os direitos dos trabalhadores e minorias; uma oposição de direita, favorável às medidas liberais e à meritocracia, e finalmente outra oposição de direita, porém reacionária e fundamentalista, que traz a pauta do impeachment sob a bandeira da moral e da ética mesmo estando imersa em escândalos de corrupção e quebra de decoro. O nosso maior exemplo é o Presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB), figura que além de ser investigada pela PF pratica manobras golpistas e ameaça a laicidade do Estado. Cunha e o PMDB, apoiados por partidos menores, claramente almejam chegar a Presidência da República por meios não democráticos. É necessário entender que um governo ruim se resolve pela participação popular e pelas urnas, sendo o impeachment um mecanismo usado apenas contra crimes de responsabilidade, que, conforme a Associação Brasileira de Cientistas Políticos (ABCP), não se aplica à Dilma Rousseff.
Predições para a Presidente da República em 2016
Após essa tentativa de resumir os principais pontos da atual conjuntura, proponho-me a fazer algumas breves predições para a Presidente da República em 2016. Esta leitura será rápida, pois tem como propósito principal apenas ilustrar alguns exemplos de como nossas predisposições internas podem gerar diferentes análises.
Ao embaralhar os Arcanos maiores e menores separadamente, retirei uma carta de cada monte: A Justiça e o Rei de Paus.
O arcano da Justiça e o Rei de Paus
8. A Justiça e o Rei de Paus
Tarô de Marselha - restauração de Camoin Jodorowsky
Vejamos diferentes tipos de leitura dessas duas cartas de acordo com as predispoções do tarólogo:
Exemplo 1: Ótimos presságios à Dilma Rousseff. A Justiça anula a possibilidade de um impeachment ilegítimo e recompõe a estabilidade do governo, além de tornar claro ao povo o que a Polícia Federal vem concluindo há tempos: o seu não envolvimento com a corrupção da Petrobrás. O Rei de Paus representa um aliado que lhe confere energia, autoridade e proteção para enfrentar os adversários e para finalmente colocar em prática o que foi prometido durante as últimas eleições.
Exemplo 2: A Justiça é certeira. Dilma perderá seu mandato como forma de punição pelas impropriedades de seu governo e o PT se desmoralizará definitivamente frente ao Brasil. O Rei de Paus indica a participação de um homem influente nesse processo ou a subida de alguém com punhos de ferro ao poder.
Exemplo 3: Dilma Rousseff perde injustamente seu mandato em 2016. O Rei de Paus representa um político (ou um homem envolvido na política) influente, porém antiético, que se vale de manobras golpistas para atingir seus objetivos e desviar o foco de si. Através do impeachment, um mecanismo jurídico, este homem retira a então presidente de seu cargo.
Exemplo 4: Dilma Rousseff prossegue no seu cargo presidencial em 2016, porém as investigações e suspeitas sobre sua honra continuam a desafiá-la. Entretanto, o Rei de Paus indica uma maior habilidade para lidar com os adversários, força para enfrentar a crise e recuperação da confiança do povo através de realizações políticas.
Enfim, as possibilidades são muitas devido às várias faces do prisma. Eu particularmente prefiro uma abordagem que mostre as possibilidades que passaram pelo filtro da compreensão crítica do contexto. Desta forma, não seríamos tão enviesados e nem tão amplos a ponto de ser incapaz de prever, algo que para não acontecer deve ser equilibrado explorando riqueza que os Arcanos nos oferecem.
Guilherme de Carli é tarólogo, astrólogo e cientista social
www.nodonorte.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 31/03/2016
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