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21 de abril de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


“E vamos lá, outra vez”
Ponderações sobre a Roda da Fortuna e o ano de 2017
Giancarlo Kind Schmid
Da última vez que o arcano 10 (Roda da Fortuna) ocupou nosso calendário anual ocidental (2008), atravessamos um ciclo de muitos contratempos econômicos, reflexo da falência de instituições financeiras, nos EUA e Europa, envolvendo um estouro da “bolha imobiliária” e quebradeira de bancos. De lá para cá, o mundo parece não ter se recuperado de todo do impacto, alguns países do bloco europeu permanecem endividados e a economia mundial vem patinando, tentando equilibrar-se, ainda que, de forma precária. Países emergentes obtiveram lucratividade, cresceram, como no caso do Brasil. Mas, a Roda gira, tudo é impermanente, nada fica no lugar. O que aprendemos desde então?
O arcano 10 é apresentado nos primeiros baralhos de tarô por quatro figuras (até mesmo cinco), opondo-se, agarradas (ou amarradas) a uma grande roda, às vezes girada pela deusa romana Fortuna (do fado e da sorte), cantada no primeiro ato da peça profana musicada por Carl Orff, “Carmina Burana” (Fortuna Imperatrix Mundi). Nos giros da engenhoca, Fortuna nos apresenta a incerteza da existência, e única coisa factível é que “tudo que sobe, desce”. Normalmente duas figuras fazem o contraponto, evocam a ideia de ascensão e queda, conquistas e fracassos.
A Roda da Fortuna
A Roda da Fortuna no 'Medieval Tarot' e no 'Medieval Enchantment Tarot'
A enantiodromia¹, termo que trata das ações compensatórias em sentidos opostos, nos serve como base para a compreensão simbólica e imagética do arcano. Originalmente uma quadra de personagens se apresentava no arcano (tradicionalmente uma tríade); nos baralhos mais antigos o topo é ocupado por um rei com orelhas de asno (substituído posteriormente por uma esfinge nos baralhos ocultistas), uma alusão ao rei Midas.
O monarca no alto nos sugere que, embora possamos eventualmente ocupar o trono ou topo da roda (vida), pouco aprenderemos com o significado de tal posição. A expressão “ouro de tolo” cabe muito bem aqui: nem tudo que reluz é ouro, nem toda vitória é uma conquista sobre si mesmo.
A Roda traz consigo um ‘revival’ de situações e experiências. Ela nos dá a oportunidade de corrigirmos as faltas que deixamos pelo caminho, uma chance para (re)visarmos, (re)vermos, (re)aprendermos, (re)tomarmos, (re)significarmos. Na dimensão simbólica envolvendo a dualidade do universo, se multiplicarmos 10 por 2 teremos 20 (o Julgamento). Muitas vezes é somente nessa estação arcana que é possível resgatarmos certas situações ou condições, pois a Roda é Samsara, o fluxo incessante das reencarnações segundo o hinduísmo e budismo, só temos condições de nos livrar de tal ‘penitência espiritual” a partir do arcano 20, onde nos libertamos do processo ‘ad infinitum’. Ou seja, nesse mesmo século estamos, pela segunda vez, com a oportunidade de acertarmos nossos passos e tirarmos lições dos erros de outrora, e calibrarmos nossas vidas. Mas, como se aplica o arcano para o ano e que ‘efeitos’ isso trará?
Quando tomamos um arcano como referência para o milhar do ano, jamais devemos analisá-lo como um agente dominante. Devo lembrar que, como cada um de nós aniversaria numa data do ano, esse será o arcano dominante pessoal (adquirido pela soma dos algarismos do dia, mês de nascimento e ano vigente). Assim também serve para um país, estado, cidade, empresa, animal, etc. O arcano regente do ano é uma espécie de “bandeira simbólica” do período. Ele não dita o que ocorre no ano, ele propõe as ações a serem tomadas e os  desdobramento delas. O erro mais comum entre tarólogos é colocar o regente do ano como um agente individual. Não! Tratando-se de nosso calendário gregoriano (sim, os mulçumanos e judeus adotam outros calendários), a soma do milhar é um axioma coletivo. Ou seja, o arcano dá o tom de como a coletividade deveria se comportar ou pelo menos seguir (o Eremita para 2016 nos sugeriu irmos com calma, prudentemente, sabiamente, um pé de cada vez), ao passo que 2017 com a Roda nos sugere que é um bom momento de vermos o “outro lado da moeda” nas situações mundiais.
O ‘efeito Roda’ costuma trazer consigo algum tipo de revés porque não estamos dispostos a mudar nossas condutas. Sim, o aprendizado em 2008 nos revelou que o sistema capitalista já deu no formato que hoje se encontra e que é a hora de mexermos nisso. Mas, não fizemos o que era necessário. A Roda nos ensina que, toda vez que se altera algo no mundo globalizado de hoje, o efeito dominó é uma consequência natural. Na Roda, o paradigma mais conhecido é do “mudar: ganhar ou perder”, mas encerra um sentido muito maior do que esse – nos sinaliza sobre a dificuldade de olharmos o que cai, ao invés de apenas nos atermos ao que sobe.
Desde o ‘final’ da Guerra Fria com a queda do Muro de Berlin, a humanidade não tem encontrado honestamente sua medida humana e insiste nos mesmos tropeços de éons. Resultado: 2017 traz as mesmas questões apresentadas em 2008 – erros que trazem crises. A Roda é a recuperação na matéria que tivemos dificuldade de dar conta. Existe todo um esboço se delineando e que se efetuará drasticamente caso não aprendamos que nada nesse mundo é unilateral. Primeiro, temos a saída da Inglaterra da economia europeia, fenômeno esse chamado de Brexit (British Exit) que pode influenciar diversos países europeus a também deixarem o bloco; temos Trump nos EUA, país com a maior economia mundial, predisposto a fechar as portas para o mundo economicamente, prejudicando ao final o próprio EUA; o elevado processo de imigração que tende a se fortalecer trazendo consequências para a organização mundial (se não definirem regras imigratórias, podemos também trazer para o ocidente a espada por parte de alguns fanáticos); temos Putin disposto a bombardear o Estado Islâmico ceifando milhares de vidas inocentes; temos ainda o Brasil, como um cachorro a correr atrás do próprio rabo, com ações paliativas e desgastes políticos e econômicos ainda maiores (tudo como dantes no quartel de Abrantes). Lembre-se da máxima: tudo que sobe, desce.
A Roda está associada a máquinas, motores, equipamentos, e esses também têm um papel simbólico no ano. É possível que o Colisor de Hádrons (LHC) nos traga boas novas quanto a importantes descobertas no campo da Física e novas tecnologias ajudem ainda mais na mobilidade de paraplégicos.
A Roda é um arcano que funciona como um redemoinho, logo, a imagem também nos sugere o aumento de ciclones, tornados e furacões (pesquise sobre a quantidade deles que ocorreram em 2008). Por outro lado, o arcano representa uma espiral ou mesmo um ralo: nos pede “jogo de cintura” para nos adaptarmos ao fluir dos acontecimentos. Propostas alternativas ao fluxo de veículos, mudanças de mão, regras pontuais que se estabelecerão para o setor automobilístico. Jogos de azar como cassinos podem entrar na pauta. A ideia da Roda é fazer circular, imprimir movimento, alternar forças, nunca estacionar. Toda tentativa de brecarmos a vida num ciclo Roda costuma ser desastroso.
Enfim, o que podemos realmente esperar de 2017 através da Roda? Uma grande movimentação pelo mundo em busca de alternativas para os problemas de sempre. Será cobrado da humanidade objetividade, consciência dos efeitos de cada decisão e escolha assumidas e, mesmo com rumores de guerra, a Roda sempre nos dá a chance de revertermos qualquer problema, basta que entendamos que usar dos mesmos meios para resolver crises/problemas nos levará sempre aos mesmos resultados.
 
Nota (1): Enantiodromia (do grego ἐνάντιος, enantios, oposto + δρόμος, dromos, pista de corrida) é um termo criado pelo filósofo Heráclito para o conceito de que uma grande força em uma direção gera uma força no sentido oposto. Foi reformulado pelo psicólogo Carl Jung para ser aplicado ao inconsciente quando em conflito com os desejos da mente consciente. Platão, também defende o mesmo princípio em sua obra Phaedo ao escrever que: "tudo surge desse modo, opostos criando opostos".
Giancarlo Kind Schmid
é tarólogo, astrólogo, numerólogo e terapeuta.
www.taroterapia.com.br  e  www.facebook.com/taroeterapia
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – dez.2016
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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