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21 de abril de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Atribuições astrológicas e tarológicas: como proceder?
Emanuel J Santos
Desde o início do Conversas Cartomânticas, blog que mantenho desde 2009, tenho por meta trabalhar durante o ano sob influência do arcano do Tarô somado ao planeta regente, orientadores atribuídos ao ano pelos tarólogos e astrólogos. Entretanto – e abençoado seja! – esse norteamento vem caindo por terra nesses anos de estudo e eu estou tentando me adaptar a isso. Dessa forma, esse texto não tem o objetivo de ser um postulado, mas tão somente um registro do meu estudo de caso corrente.
Quando iniciei meus estudos com o Tarô, utilizei a fórmula que até hoje é a mais consensual para a atribuição da regência do ano: através da soma dos seus dígitos, como na numerologia. Dessa forma, o ano de 2016 seria regido pelo Eremita, o nono arcano do Tarô pela numeração convencional (2+0+1+6=9).
Entretanto, ao conhecer outros trabalhos, como os de Ivana Mihanovich e de Nivia Peggion, pude questionar essa regra. Em primeiro lugar, porque essa soma não permite que haja uma paridade entre o número de anos que teríamos para cada arcano dentro de um século. Teríamos notadamente muito mais anos entre os arcanos de I a IX. Por exemplo, o ano de 2009 foi a Força ou a Papisa (2+0+0+9= 11; 1+1=2)? Independente de qual seja a sua escolha, o ano seguinte obrigatoriamente seria o ano da Imperatriz (2+0+1+0=3). Em segundo lugar, porque a regência proposta por essa fórmula não correspondeu à experiência dos mais recentes anos.
Montagem de Emanuel

Cabeçalho de 2016 para o Ano VII do Conversas Cartomânticas.
Temos à esquerda o arcano XVI: a Torre, do Tarô Thoth Crowley-Harris.
À direita, o arcano IX: o Eremita, do Tarô Demeroticon.
Ao centro, na 'visica piscis', um detalhe da Criação de Adão, de Michelangelo.

Pela leitura de Ivana Mihanovich, estamos na etapa de evolução (espiritual e psiquicamente) correspondente ao Julgamento, do ano 2000 a 2099. Nesse intervalo, cada ano representa um Arcano, conforme a ordenação convencional: ano 2000 foi regido pelo Louco, 2001 pelo Mago e assim por diante (ela utiliza, como eu, o Marseille, ou seja: 2008 foi a Justiça e 2011 a Força. Caberá um parágrafo sobre isso mais a frente).
Da mesma forma, do ponto de vista da influência astrológica, pela tabela caldaica os anos seguem na seguinte ordem: Sol, Vênus, Mercúrio, Lua, Saturno, Júpiter e Marte – a mesma das horas planetárias. Entretanto, todos os profissionais de astrologia que consultei consideram essa forma de leitura insuficiente, por não alinhar-se ao céu do momento. A leitura dos trânsitos, para esta disciplina, mostra-se muito mais eficaz para a previsão das influências do ano que uma tabela pré-formulada. Ou seja, nesse ano eu me vi entre a cruz e a caldeirinha, ou entre a Torre e o Eremita; ou, ainda, entre os trânsitos de Netuno e Saturno em quadratura e o Sol, como preferir. Estudioso que sou, não me ative a nenhuma verdade predeterminada por uma ou outra vertente. Decidi manter-me observando.
Tendo iniciado meu questionamento no ano de 2015, não vi condições de associar os mais importantes eventos do ano à ideia do arcano VIII – no meu caso, a Justiça (acredito que a leitura pelo viés oferecido por Waite, que troca as posições dos Arcanos VIII e XI, mais atrapalha que ajuda, sobretudo pelo fato do autor não ter deixado um registro consistente de sua motivação para tal atitude temerária. Evidentemente, cabe àqueles que pesquisam e utilizam o baralho Waite-Smith a corroboração da eficácia dessa alteração. Até o momento, não li nada a respeito que me convencesse de que essa foi uma boa ideia).
Voltando ao tema, não vi em 2015 nada que pudesse associar de forma direta à Justiça. Entretanto, é possível enumerar, não só no Brasil como no mundo, uma série de eventos ligados à influência do Arcano XV ou sua regência direta: Charles Hebdo. As ocupações escolares em São Paulo e a reação do governo vigente. A tragédia de Mariana. Os atentados em Paris. A crise no senado. Todos esses momentos de rompimento da estabilidade e do status quo não tem associação direta com nada que corresponda à Justiça. Mas, notadamente, temos uma figura de poder controversa por trás de cada um deles – algo diretamente associado ao Arcano XV.
Portanto, ao produzir o cabeçalho do blog este ano, além de destacar o seu símbolo – a Vesica Piscis – busquei em ambos os arcanos atribuídos ao ano a referenciação para minha leitura. Nesse ano, tanto Eremita quanto Torre estarão norteando-me na leitura dos fatos. Confira a ilustação acima.
O ano já começa com referências claras aos atributos da Torre: a bomba H e a morte surpreendente de David Bowie. Embora tenhamos um arcano muito mais adequado para falarmos da morte, por ser-lhe homônimo ou inominável, David Bowie desenvolve sua obra-prima de uma forma velada, deixando em suspenso seus admiradores, para, logo após o lançamento e seu aniversário, falecer – e trazer à tona a surpreendente notícia de que Black Star era seu réquiem.
Percebo também em relação à intimidade de pessoas próximas muito mais referências à Torre que ao Eremita. Ainda que os efeitos da Torre acabem por causar um clima taciturno e distante, silencioso e arredio, muito próximos da experiência do Eremita, a sensação que a Torre oferece, de quebra de paradigmas, é inconfundível. E estamos no começo do ano, ainda.
Não posso, porém, ser pueril e não buscar referências pregressas que possam corroborar essa hipótese. Elias Mendes usou uma frase para explicar um trânsito celeste que se tornou diretriz para mim: “Tudo que acontece sob Saturno em Escorpião serve para entender Saturno em Escorpião”. Da mesma forma, tudo o que ocorrer sobre a influência da Torre serve para entender a Torre, assim como seria com qualquer outro Arcano. Nesse sentido, por ora, do ano 1016 ao ano 1916 faltam-me informações que me permitam ter a certeza de poder interpretar, empiricamente, o padrão norteador da influência do arcano em minha leitura dos eventos. Esse é o primeiro trabalho a ser feito: a reunião de informações sobre o padrão descoberto. Entretanto, nunca vi nenhum trabalho voltado para a corroboração da atribuição dos anos aos arcanos do Tarô pela soma e nem por isso essa fórmula deixou de ser considerada correta, algo que credito ao fato de muitos tarólogos serem, também, estudiosos de Numerologia, cujas técnicas foram adaptadas para o Tarô (e cuja funcionalidade, reitero, não foi questionada, embora não se mostre sempre eficaz).
Em relação à Astrologia, mesmo caso, técnica diferente. Os trânsitos estão ocorrendo conforme o previsto, mas nenhuma referência atributiva ao Sol pode ser mencionada. Todavia, o que os estudiosos da Astrologia (mãe de todos os oráculos sistematizados) fazem é acumular informações para as gerações futuras, a partir dos estudos de caso de cada um dos mapas que levantam. Assim, um Sol em Capricórnio pode ser entendido não só porque existe um conceito pertinente a esse respeito, mas também porque existem inúmeros estudos de caso documentados e devidamente analisados que nos permitem chegar à mesma conclusão. Reiterando a fala de Elias Mendes: o momento educa para olhar o futuro e entender o passado através de padrões mensuráveis.
Em 2003, quando Sedna foi descoberto e nomeado, os astrólogos que eu conhecia voltaram-se para os mapas, fazendo cálculos que permitissem a leitura dos possíveis eventos influenciados pelo planetoide até então (e, portanto, permitindo a abertura à atribuição futura das suas influências). Porém, Sedna não se mostrou marcante e atualmente não tem sequer o status de planeta. Ainda assim, a pesquisa se mostrou frutífera.
Acredito ser um bom momento para os tarólogos aprenderem com a metodologia dos astrólogos. Antes de afirmar – ou não – sobre métodos, seria mais adequado que buscassem referências históricas que corroborem suas afirmações ou negativas. Muitos têm se preocupado com a natureza dos Arcanos e poucos com sua funcionalidade como alegorias do devir. E, nesse ponto, acho ingênuo pensar que um texto de começo de ano tenha a função de ser apenas entretenimento. Os registros produzidos por nós, agora, têm como função corroborar – ou não – os questionamentos da geração seguinte sobre a ferramenta que utilizamos, bem como responder minimamente aos questionamentos da geração anterior. Para a geração imediatamente anterior à minha, os Arcanos Menores eram dispensáveis, pela dificuldade em entender suas referências na mesa. Atualmente, vemos o cenário mudando para o uso dos mesmos. Podemos creditar isso ao número de baralhos inspirados no Waite-Smith a que temos acesso. Em contrapartida, vemos baralhos como o Marseille e o Adivinhatório sendo preteridos por serem considerados “feios” e “pouco funcionais” – o que para mim beira o sacrilégio (se as cartas fossem sagradas per se).
Sem o registro da experiência, chegará um momento em que não teremos mais que palavras-chave e livros para iniciantes, num eterno loop. Sem o registro da experiência, manteremos discussões híbridas que mostrarão apenas quem leu mais e não quem viveu (ou vivenciou) mais. Sem o registro da experiência, a próxima geração vai ter que começar do zero, em vez de poder dar continuidade ao que estamos lutando para manter vivo: a história e a memória dos sucessos no uso adivinhatório do Tarô.
Por isso, não considero inocente e nem pouco relevante a discussão sobre a melhor forma de atribuir o Arcano Regente do ano. É uma leitura alegórica que permite que vejamos no cotidiano a atuação dos conceitos absorvidos nos livros didáticos do tema. Entretanto, um bom cartomante se faz nos estudos de caso que realiza com êxito, não no número de livros que lê sobre o assunto, posto que absorver conteúdo não é, absolutamente, garantia de alcançar efetividade. E este é um bom teste, numa duração razoável de tempo.
Assim, convido você, leitor, a refletir sobre os anos mais recentes da sua vida. O ano de 2015, para você, teve mais aspectos de Justiça ou de Diabo? Em 2014, você percebeu a aceleração da Carruagem ou a morosidade da Temperança? Em 2013, o acalanto dos Enamorados ou o pesar da Morte?
Enquanto isso, eu sigo lendo livros de história (Geral e do Brasil) e buscando parâmetros comparativos para um e outro método na sociedade. Nada garante o sucesso da empreitada. Entretanto, é melhor termos certeza da eficácia (ou ineficácia) de um método do que reproduzi-lo conforme os manuais didáticos (que, por sua natureza e resultado, são reproduções de outros manuais didáticos, aos quais raramente o compilador aplica ou agrega uma reflexão considerável).
Temos muito que aprender com a escrita dos astrólogos. Os estudos de caso de um cartomante, ou seu diário de jogos, está pari passu ao levantamento de mapas de um astrólogo, como método de estudo. Espero que esse ano produzamos mais estudos de caso e menos, bem menos, conceitos arcaicos  (e, diria, “arcânicos”) pretensamente calcados em pedra (pomes).
Aonde não existe clareza, falta efetividade.
Emanuel J Santos - Historiador e Cartomante
Responsável pelo blog Conversas Cartomânticas:
www.conversascartomanticas.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
Edição: CKR – 31/01/2016
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