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20 de junho de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


O Tarot e a teoria do Karma
Jaime E. Cannes
 
É surpreendente o número de pessoas que se envolvem com a leitura do tarot sem ter a mínima noção de certos conceitos espirituais! O Karma vem a ser o mais desconhecido de todos! Cercado de todo o tipo de preconceito e de medo, oriundo desse preconceito.
Já escrevi sobre esse assunto no artigo O Tarot & o Karma, mas senti a necessidade me deter mais nesse tema para aprofundá-lo.
O signo de Libra por Josephine Wall
Karma, uma força de coesão universal
Representação do signo de Libra por Josephine Wall
Primeiramente há quatro princípios básicos sobre o Karma que você deve saber antes de seguir adiante:
1ª. O Karma não é sempre negativo, por isso não é uma punição, nem um prêmio caso seja um Karma positivo, é simplesmente o fruto de nossas ações voltando para nós mesmos!
2ª. Não se "pega" o Karma de ninguém, se você se envolveu no contexto kármico de um parceiro (a), amigo (a), marido/esposa etc., é porque você fazia parte dele! E há, portanto, coisas nessa vivência que servem ao seu crescimento interior.
3ª. O Karma tanto pode ser individual quanto coletivo. O que significa que tanto pode ser o resgate ou o aprendizado de uma só pessoa, quanto o resgate ou o aprendizado de um grupo de pessoas, família, ou nações e etnias inteiras!
4ª. A lei do Karma não deixa de acontecer porque você não acredita nela. A palavra Karma vem do sânscrito e quer dizer “Ação”, assim é uma lei que podemos definir como sendo também física, e muito parecida com a terceira lei do movimento de Isaac Newton que diz que: "Toda a ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário". Encaixa-se também muito bem nas teorias de Charles Darwin que diz que uma espécie se adapta e melhora seus genes para que a geração futura sobreviva e continue evoluindo. Nossa alma, ou consciência, melhora a si mesma para continuar sua evolução. Simples assim!
A semelhança do Karma com as teorias científicas fica muito bem explicada no axioma hermético conhecido como o Princípio da Correspondência que diz: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”. Por esse motivo o que ocorre no mundo físico ocorre no mundo espiritual. O que ocorre no, ou com, o planeta ocorre conosco. O que ocorre fora de nós também ocorre dentro, e assim por diante! Portanto, evoluir a nós mesmos através da auto-observação e da observação do que se apresenta diante de nós, bem como preservar as espécies para que continuem sua evolução é uma responsabilidade de todos!
Karma não é uma ideia religiosa, é um conceito espiritual cuja base é o retorno natural das nossas ações e reações a este mundo na interação que fazemos com ele e seus habitantes!
A quem se pergunta: “Evoluímos pra quê?” a resposta é: Evoluímos para nossa própria libertação da roda reencarnatória, que Buda chamou de Samsara. Ao rompermos com esse ciclo entramos num nível de consciência inimaginável de total ordem, paz e perfeição. Sem desejos e apegos, e por isso sem sofrimento de nenhuma espécie. Não é um paraíso prometido como nas escrituras das religiões judaico-cristãs, é um estado de consciência e espírito conquistados através do trabalho sobre si mesmo. No oriente essa consciência foi chamada de Nirvana.
 
Carol Nicholson
O tarot como um mapa da alma
No tarot os ciclos kármicos ruins são perfeitamente reconhecíveis quando um cliente apresenta o mesmo ciclo de vivências. Como quando sofremos os mesmos tipos de desilusões amorosas, profissionais, familiares, de amizade etc. Na verdade estamos repetindo essas vivências porque elas representam um aprendizado kármico não absorvido nesta ou em outras vidas, que se apresenta continuamente até que o padrão de consciência que criou o bloqueio seja absorvido! Fica aqui claro então que o que liberta o Karma é a conscientização do que está bloqueado e que serve como uma lição a ser absorvida no processo evolutivo da alma. E nesse aspecto o tarot funciona como um instrumento preciso de revelação desse bloqueio, oportunizando a possibilidade de libertação e evolução do Karma pessoal.
Na prática do tarot isso pode se evidenciar em sucessivas leituras, quando o cliente apresenta sempre os mesmos tipos de temática no seu processo pessoal. Outras vezes isso se revela numa mesma sessão, quando a própria leitura revela que ali está ocorrendo um processo kármico. Por fim há aquelas almas já em avançado grau de maturidade que, ao se depararem com um sofrimento procuram os arcanos para lhe fazer as perguntas mais produtivas, tais como: “Por que isso está acontecendo comigo?”, ou melhor, “O que tenho para aprender ou crescer com isso”? Possibilitando assim que o tema seja abordado!
A Luano Tarô de Marselha Camoin-Jodorowsky
A Lua no Tarô de Marselha
Edição Camoin-Jodoerowsky
 
O arcano XVIII, A Lua, é o que melhor representa os movimentos de complexos atávicos do inconsciente vindo à tona, causando desconforto, angústia, medo ou desorientação. Essas sensações desagradáveis são características de vivências kármicas pesadas e muito antigas para a alma. Na imagem desse arcano, dois lobos uivam (o chamado da matilha para resgatar membros desgarrados) e esse chamado sempre causou medo no Inconsciente Coletivo da humanidade. Das águas (símbolo da memória e do inconsciente, tanto coletivo quanto individual) emerge uma lagosta (um crustáceo, uma das formas de vida mais antigas do planeta), que parece que vai atacar os dois animais desavisados. A noite por si só é o arauto das coisas submersas, ocultas e misteriosas da vida. O espaço do dia que dá vazão às nossas mais variadas fantasias.
O arcano de A Lua simboliza os temas não resolvidos internamente e que oprimem a consciência. São temas com que não lidamos de modo livre e gratificante, ou seja, que “nos deixam no escuro”, desorientados e sem saber para onde ir. Criam o que os círculos esotéricos chamaram de a Noite Escura da Alma. Essas sensações são criadas porque intimamente nos sentimos de algum modo intimidados e incapacitados de lidar com o tema quando ele se apresenta. O sofrimento ou limitação que ele representa estão encravados em nós numa memória muito mais profunda do que a que dispomos conscientemente. Os Karmas negativos são isso.
É claro que o simples aparecimento deste arcano não prenuncia uma vivência kármica, outros fatores devem ser observados como a posição que ocupa no jogo e o aparecimento de muitos arcanos invertidos, por exemplo. As cartas invertidas indicam qualidades da psique com que não estamos conseguindo lidar livremente, e podem ter gerado, ou estão gerando, situações kármicas. Mas nada disto é uma regra! Com sempre sugiro o uso da intuição  e do feeling pessoal de cada leitor! Robert Wang, autor do livro O Tarot Cabalístico, diz que o aparecimento de muitos arcanos maiores numa leitura assinalam uma situação kármica na vida de quem se consulta. Entretanto ele considera que quando uma situação kármica ocorre não há muito que o livre arbítrio possa fazer, e eu sinceramente não concordo muito com essa perspectiva. O livre arbítrio pode interferir superando ou trazendo simplesmente serenidade diante do desafio. Contudo também acho válida essa percepção, mas outra vez sugiro o guia da Voz Interior do intérprete do tarot para validá-la.
O processo angustiante revelado pelo arcano de A Lua nos faz lembrar de que a intensidade de um Karma negativo pode ser avaliada pela intensidade do sofrimento que a situação está causando. Quanto mais sofrimento causa, mais antigo é o processo que gerou este sofrimento. Da mesma forma um Karma positivo pode ser avaliado pela intensidade de benefícios que ele gera. A intensidade também denuncia o tempo em que se vem desenvolvendo aquele estágio evolutivo. Quanto mais se sofre com um  mesmo tipo de envolvimento afetivo, por exemplo, mais o aprendizado requerido nesse tipo de relacionamento é antigo! O amor e o sofrimento (equilíbrio/desequilíbrio) são o peso e medida que caracterizam o Karma.
Outro aspecto importante de se entender é de que não é por ser kármico que é de vidas passadas! O que semeamos tende a voltar imediatamente para nós para ser equilibrado. O que acontece é que podemos demorar muito para resolver essa “pendência desarmonizadora”, e o resgate não cumpra o prazo de uma vida. Então aos morrermos o processo é suspenso para ser novamente retomado ao renascermos. Do mesmo modo que seja lá um Karma bom ou ruim, o fato é que temos de nos livrar dos dois e parar de gerar Karma! Essa é a verdadeira transmutação espiritual. A dualidade da consciência humana é que gera o Karma e nos mantém presos à roda do nascer, morrer, renascer.
Para finalizar apresento as conclusões sobre o Karma de um grande estudioso do tarot, do simbolismo e da espiritualidade, Veet Vivarta, em seu excelente livro O Caminho do Mago – Uma Visão Contemporânea do Tarot. Fiz em cada passagem um comentário explicativo, para o caso dos termos empregados serem desconhecidos de quem não tem familiaridade com os textos espiritualistas.
A Roda do Samsara
A Roda do Samsara
Representação de origem hindu
1º. Karma é o conjunto ou somatório de conceitos, crenças, julgamentos, interpretações, valores, atitudes, hábitos, emoções, desejos ou comportamentos que de alguma maneira deformam a realidade maior impedindo-nos de reconhecê-la como ela é.
Distanciados da realidade de que somos todos parte de uma consciência divina abarcante, começamos a produzir Karma. Os indianos dizem que Deus brincou de esconder consigo mesmo, o Deva Lilah (Divina Brincadeira), e lançou suas partes pelo universo, deu-lhes consciência própria e arbítrio e agora aguarda o seu retorno. Tornarmo-nos conscientes disso é o retorno à casa do pai de que falam as escrituras sagradas.
2º. Karma é tudo aquilo em nosso universo interior que nos mantém preso à ilusão ou maya, tudo o que nos afasta da Essência, tudo o que nos faz esquecer nossa origem divina e o caminho de volta ao lar.
Maya são as ilusões que criamos com nossa mente. Criamos o dinheiro, por exemplo, depois acreditamos que não vivemos sem ele. Criamos as religiões, depois passamos a acreditar que nossa religião é a única verdade sobre Deus, e matamos e morremos por isso! Mas como nos lembrou bem Mahatma Gandhi, “Deus não tem religião”.
3º. Karma é realmente ação como diz a tradução literal do sânscrito. E, como ação, também é fruto do nosso dom de vice-regentes, ou livre arbítrio. E como toda ação gera reações – ou consequências – a ela.
O livre arbítrio interfere tanto positiva quanto negativamente no Karma, o que pode modificá-lo, melhorando-o ou piorando-o conforme cada caso.
4º. Uma ação kármica pode acontecer em qualquer um dos quatro primeiros corpos, na forma de pensamentos, sentimentos, impulsos e concretizações. Mas sempre será uma ação desconectada do Eu Superior.
Não há muito que explicar aqui, tudo o que pensamos, sentimos, fazemos (no sentido de atuar) ou concretizamos gera Karma.
5º. O material kármico se manifesta em nosso cotidiano quase sempre de forma inconsciente. Ou seja, atuamos os padrões definidos em outras vidas sem perceber como e porque o fazemos.
Justamente o trabalho com a linguagem simbólica como no caso do tarot, da astrologia etc., é que podem auxiliar a tornar isso consciente dando a possibilidade, como já mencionei, de transformar o Karma com a aplicação do livre-arbítrio.
6º. O Karma é o que serve de matriz para o próprio ego. E o somatório do material acumulado por egos de várias vidas constitui o Karma.
Tudo o que somos hoje, tanto física quanto psicologicamente, foi moldado pelos Karmas de vidas anteriores. Inclusive traços bem específicos como maneirismos e características físicas, como cor dos olhos, formato do nariz etc.
7º. O Karma também está sempre conectado com a projeção inconsciente; ou seja, o não reconhecimento de que a realidade ao nosso redor atua como um espelho. Karmicamente falando, a responsabilidade que atribuímos às pessoas ou os fatos externos que afetam nossas vidas nada mais é, na verdade, do que nossa própria responsabilidade não assumida conscientemente. Somos, sempre, totalmente responsáveis pela manifestação dos acontecimentos que nos afetam.
Toda a vez que negamos que as raízes dos nossos problemas estão na verdade em nós mesmos, estamos gerando cada vez mais Karma tanto para essa vida, como para existências futuras! Esse tipo de negação nos impede de obter a conscientização que nos liberta do Karma no processo de auto-observação e autoconhecimento. 
Contato com o autor:
Jaime E. Cannes, professor e consultor de tarô desde 1988,
é astrólogo, numerólogo, mestre e terapeuta Reiki.
www.jaimeecannes.com e www.tarotzenreiki.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
Edição: CKR – 22/11/2013
  Baralho Cigano
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