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17 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


O diabo do hífen e a torre de Babel!
Nei Naiff
 
No artigo anterior – Trusse um tarot pra nóis jogá – esbocei a importância do uso correto da gramática para um futuro promissor; contudo, se apenas compilamos com receio de não parecer integrado ao ambiente sociocultural, sofreremos sérias consequências, uma vez que esse mesmo grupo nem sempre nos acompanhará na jornada. Um exemplo disso é a série de (bons) livros que tem sido recusado pelas editoras por estarem recheados de erros ortográficos! Mas você deve ter pensado: não quero ser escritor... Pois, então, repense se possui um blog, um site, participa de grupos online e quiçá assinala as próprias apostilas! Não importa onde se escreva, pois não existem duas gramáticas, tampouco duas línguas. É melhor não confundirmos a língua diastrática (falas sociais múltiplas) com a linguagem escrita (única).
Letras
Ilustração em www.miriamsalles.info
 
Existem estruturas que já estão internalizadas, fazendo com que a pessoa não escreva ou articule erradamente. Caso típico: Eu trusse para mim fazer... (sic). Duvido que algum dos falantes não caçoe, revelando em alto e bom tom: Mim, índio! O correto é: eu trouxe para eu fazer...
Observe que detectamos facilmente qualquer equivoco de concordância verbal porque a repetimos diariamente; no entanto, o que se passa com palavras como: autoconhecimento ou auto-conhecimento? A sonoridade é idêntica e o hífen parece não fazer a menor diferença, pelo menos na fala. Nesse caso, ao escrever, sabe-se que uma das duas está errada, mas ninguém corrige achando que seja de pouca importância, mas não é.
Aliás, o diabo do hífen (esse rabinho que às vezes aparece entre palavras)  tem sido uma constante dor de
cabeça entre os revisores de texto, e internautas, é claro. Eu, particularmente, sempre estou revendo as normas. Mas para facilitar, vejamos algumas regras muito úteis para palavras comuns entre os tarólogos, astrólogos, terapeutas, entre tantos:
NÃO usamos hífen:
Em formação de palavras (prefixo + termo) na qual houver o encontro de duas vogais ou consoantes diferentes entre eles: autoconhecimento, autoajuda, autoestima, autocontrole, autodidata, antigoécia, antimagia, macrocosmo, microcosmo, semideus, ciberespaço, infraestrutura, pseudociência, antitérmico, antibacteriano, vasodilatador, vasoconstritor. Lembre-se, há exceções, estou organizando as mais comuns em nosso meio.
  Preste atenção: Quando o segundo termo inicia com r ou s, essas consoantes serão duplicadas: autossuficiente, antirreligioso, antisséptico, antirreumático, microssistema, pseudorrabino, ultrasson.  
USAMOS hífen:
Em formação de palavras (prefixo + termo) na qual houver o encontro de duas vogais ou consoantes iguais entre eles: auto-observação, anti-inflamatório, semi-interno, pseudo-opulência, anti-intruso, arqui-inimigo.
  O mesmo caso quando o segundo termo iniciar-se por h: anti-herói, super-herói, neo-helênico, sub-humano, hiper-hedonista.  
  Nas formações com os prefixos hiper-, inter- e super- quando associados com outro termo que é iniciado por r: hiper-resistente, inter-racial, super-racional.  
Em termos (substantivos e/ou adjetivos) que se unem para formam um novo significado: amor-próprio, bem-estar, sacerdotisa-mor, arco-íris, azul-escuro, conta-gotas, luso-brasileiro, segunda-feira.
Em palavras compostas por espécies botânicas e zoológicas: erva-doce, erva-do-chá, couve-flor, bem-te-vi, bem-me-quer.
No geral, as locuções não possuem hífen, mas algumas exceções continuam por já estarem consagradas pelo uso: cor-de-rosa, pôr-do-sol, mais-que-perfeito, pé-de-meia, água-de-colônia, deus-dará.
Além desse diabinho também nos deparamos com a torre de Babel, já tive meus dias de barbarismo (vício de linguagem) antes de escrever textos na internet ou publicar livros. Usava estrangeirismos desnecessários, aquelas palavras que possuem tradução clássica em nosso idioma, mas insistia em usá-la. Por exemplo, escrevia tarot ao invés de tarô ou deck para me referir a baralho (e quantas pessoas me perguntavam: o que era deck? Então, traduzia: baralho! E baralho comecei a escrever e nunca mais ninguém me perguntou nada). A língua é dinâmica e, podemos sim, usar estrangeirismos, mas desde que a concepção seja impossível (mesmo que deficitária) em nosso idioma.
Outro termo que também tem sido usado é spread, termo inglês para vários significados, inclusive o que denominados há décadas de jogo, tirada, método, forma de abertura entre
as diversas possibilidades de tradução. Essa palavra deve ser evitada, pois o VOLP já a classificou (há muitas décadas) como rubrica relacionada à economia: diferença vigente entre o menor dos preços de oferta e o maior dos preços de demanda de um bem ou ativo — isso é spread em língua portuguesa. Não é uma visão xenófoba, mas precisamos facilitar o proposto ao leitor. Layout também tem sido empregado para indicar a “forma/modelo” do método, essa, em particular, é uma das palavras estrangeiras que foi aprovada pela ABL. Então, está dentro da norma — tanto faz leiaute, lay-out, modelo, forma, é tudo a mesma coisa.
Detalhe: todo estrangeirismo, aprovado ou não, deve ser escrito em itálico, sempre.
 
Sopa de letras
Ilustração em www.teyalex.blogspot.com
Pode-se pensar que o simples uso ou insistência poderá levar uma palavra estrangeira ser aceito/modificada pelos filólogos. Não, não é assim. Um vocábulo demora anos para ser confirmado, é estudado à exaustão para não se chocar com a língua vigente; pois há estruturas existentes em outras línguas que não há correspondência em nosso idioma. Pode, sim, ao longo do tempo obter uma rubrica coloquial, informa ou regional, mas não alterará o sentido primeiro do vocábulo (gênero, classe, definição). Aqui, chamo atenção a uma palavra muito usada em nosso meio: cabala. Confesso que pelos idos de 1990 eu mesmo escrevia kabbalah e a pronunciava “kabaLÁ”, mas após conhecer melhor outros idiomas percebi que não havia razões para negar a minha própria língua.
Ora, em língua espanhola é um vocábulo proparoxítono (‘CA-ba-la) com a seguinte grafia oficial: cábala; na língua inglesa a tonicidade é paroxítona (kab-‘BA-lah) e se grafa assim: kabbalah; já em francês é uma palavra oxítona (ca-‘BA-L) — não se pronuncia a vogal final, e se registra: cabale.
E por aí vai. Cada país traduz de acordo com suas regras históricas e acadêmicas — lembram-se do caso da palavra tarô no artigo anterior? Temos o mesmo equivoco da famosa “tradição”. No Brasil, devemos grafar: cabala, sem acento algum, pois, toda palavra paroxítona (ca-‘BA-la) terminada com vogal a, não se acentua graficamente.
Tem dúvidas? Pesquise o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) ou acesse o site da ABL (Academia Brasileira de Letras - www.academia.org.br). Simples, sem a dor da Torre, somente com a esperança da Estrela que um dia possamos enobrecer nosso próprio idioma.
outubro.11
Contato com o autor:
Nei Naiff - www.neinaiff.com
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