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21 de abril de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


 
Estudos multidisciplinares: Tarô e Linguística
 
 

Um tarólogo no departamento da Lingüística

Alessandra Fonseca
    
    Todo mundo que estuda/trabalha com o Tarô, de certa forma, já absorveu a idéia de que ele constitui um Alfabeto Simbólico – terminologia presente em praticamente toda literatura atual sobre o assunto, seja os livros, seja as páginas digitais. No entanto, quando pensamos em "alfabetos", vem-nos à mente as letras que formam as palavras que formam as frases que formam os textos/discursos e, por aí vai até que haja uma língua formada. Daí, comecei a pensar se não seria o Tarô também uma língua e fui atrás de algumas respostas para esta inquietação, tanto pelos caminhos do Tarô quanto pelos caminhos das áreas de conhecimento que têm as línguas como objeto de estudo. E, como a Alice, desci pelo buraco do coelho até o reino da Semiótica.
   

    A Semiótica é a ciência geral que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Quer dizer, no reino da Semiótica, tudo tem um significado, uma representação.
    Fiquei bem feliz até aqui porque, nas cartas do Tarô, até o matinho nascendo lá no fundo tem significado! Então, conclui que o Tarô poderia estar lá, no reino da Semiótica também. Mas, como eu já tinha lido, ouvido – e até falado! – que o Tarô é um alfabeto simbólico, novamente me ocorreu a idéia das letras que formam as palavras que formam as frases... isso vocês já sabem!
    Comecei a passear pelo reino da Semiótica até chegar ao ‘departamento’ que cuida especificamente dos signos lingüísticos. Neste departamento, olha-se as letras que formam palavras que formam frases que formam textos/discursos mais de perto. Eu já me encontrava, então, no departamento de Lingüística.

    É a Lingüística que se ocupa do estudo das línguas naturais, que são a forma de comunicação mais altamente desenvolvidas (e eu estava pensando se o Tarô não poderia ser considerado uma língua!). Sua atividade é uma atividade simbólica (igual ao Tarô!), o que significa que as palavras criam conceitos e esses conceitos ordenam a realidade, categorizam o mundo.
    Aqui, eu encontrei um probleminha: O Tarô não se faz compreensível apenas através do nome dos arcanos – as palavras presentes nele.

    Na verdade, o conjunto simbólico do Tarô abrange os desenhos, o número e o nome presentes em cada arcano e todos esses elementos o representam.
    Então, fui procurar saber mais sobre Símbolos antes de continuar. Fui procurar e encontrei assim no dicionário:
    “O termo símbolo, com origem no grego súmbolon, designa um elemento representativo que está (realidade visível) em lugar de algo (realidade invisível) que tanto pode ser um objeto como um conceito ou idéia, determinada quantidade ou qualidade.

   
    O símbolo é um elemento essencial no processo de comunicação, encontrando-se difundido pelo cotidiano e pelas mais variadas vertentes do saber humano. Embora existam símbolos que são reconhecidos internacionalmente, outros só são compreendidos dentro de um determinado grupo ou contexto (religioso, cultural, etc.).
    A representação específica para cada símbolo pode surgir como resultado de um processo natural ou pode ser convencionada de modo a que o receptor (uma pessoa ou grupo específico de pessoas) consiga fazer a interpretação do seu significado implícito e atribuir-lhe determinada conotação. Pode também estar mais ou menos relacionada fisicamente com o objeto ou idéia que representa, podendo não só ter uma representação gráfica ou tridimensional como também sonora ou mesmo gestual”.
    Então, conclui que se a atividade lingüística é simbólica e que símbolos podem ser gráficos, sonoros ou gestuais, melhor era eu não parar por enquanto. Quem sabe, eu encontraria alguma outra similitude entre o Tarô e as línguas naturais para embasar meu ‘impulso pesquisador’? Conheci uma pessoa que me pareceu ‘organizadora’ da minha dúvida, mas que me trouxe outro questionamento por não falar a minha língua. Mas, vamos primeiro à organização!
    Ferdinand de Saussure, (1857-1913), era um estudioso suíço que falava alemão. Para ele, a língua constituía um sistema de signos, ou seja, um conjunto de unidades que se relacionam organizadamente dentro de um todo. Ao seu estudo foi atribuído o nome de estruturalismo ou análise estruturalista. Em suas palavras, a Língua é “um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotada pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos.    
    Por isso, ele dizia que a Língua não pode ser modificada pelo falante e obedece às leis do contrato social estabelecido pelos membros da comunidade.
    Eu pensei no Tarô que também é Estruturalista, já que a disposição das cartas não é aleatória. Existe uma relação entre cada uma delas, as precedentes e as sucessoras e devem ter seus símbolos aprendidos em sua seqüência linear, não isoladamente, mas como um todo. Também, o Tarô não pode ser modificado pelo tarólogo ou aspirante no que tange ao significado dos símbolos de seus arcanos, tampouco por designers e ilustradores em sua incansável tentativa de levar ao mercado o que chamam de um ‘novo Tarô’; que, diga-se de passagem, logo saem de circulação.
    Até aí, estaria tudo organizado não fosse o fato de Saussure falar alemão e eu, português. Duas línguas distintas, cada uma organizada dentro de seus padrões individuais. Tudo bem perguntar que língua é falada na Escandinávia, por exemplo. Mas não estaria nada bem perguntássemos uns aos outros que Tarô nós jogamos, qual Tarô a gente acha mais fácil ou o que significa ‘O Imperador’ no Marselha, no Rider-Waite, no Crowley, no Mitológico.
    No "estruturalismo tarológico", o Tarô não pode ser modificado. Caso contrário, se perderá com o tempo, deixará de existir. Os símbolos existentes em um conjunto de cartas nada serão em outros, cada um trará um significado diferente, com um ‘toque pessoal’ diferente e, quando abrirmos os olhos, veremos que o Tarô Clássico se tornou uma Língua Morta restrita a historiadores. Por enquanto, amigos, (e por toda a Eternidade, se Deus quiser!) quem joga o tarô clássico, joga todos os outros existentes cuja a cadeia de símbolos seja a mesma.
        Se houver modificação na estrutura, seja a simbologia ou o número de cartas, aí já não teremos mais o Tarô e, conseqüentemente, os tarólogos para jogá-lo.
    Com este pensamento, concluí que o Tarô não pode ser completamente análogo a uma língua natural porque o fato de eu falar o português não me credencia a falar alemão ou francês. Então, fui procurar descobrir o que credencia o tarólogo do clássico ser o mesmo do moderno, por exemplo. Comecei a pensar por que e como o Tarô, em todos os séculos de sua existência, conseguiu manter-se vivo até hoje.
    O Tarô passou por seus processos transformativos ao longo do tempo. E, se pensarmos que antigamente ele era um conjunto de cartas lúdicas utilizadas para fins de divertimento da corte na Idade Média e que agora é possível ensaiar estudos inter-relacionando-o com algumas ciências tais como as neurociências, a física quântica, a psicologia, a filosofia e a lingüística – como eu estou fazendo – veremos quão grande foi este processo de transformação! No entanto, além de análogo a uma língua natural, é também análogo a uma Tradição.
    Tradição é uma transmissão oral de lendas, de narrativas ou de valores espirituais de geração à geração. Uma crença de um povo, algo que é seguido conservadoramente e com respeito através das gerações. Uma recordação, memória ou costume. Tem-se por tradição, no sentido amplo, tudo aquilo que uma geração herda das suas precedentes e lega às seguintes.
    Por isso, o Tarô atravessou séculos e ainda vive. Por ter sido passado de geração à geração em sua estrutura intacta. Qualquer alteração de seus símbolos tradicionais ocasionará o princípio do processo de sua morte – bem como a migração e transformação de signos lingüísticos relegou à História línguas como o latim, o copta e o sânscrito.
    É bem verdade que tais línguas continuam a existir de certa forma, pois têm sua gramática ainda conhecida e documentos nelas escritos. Porém, não acredito que seja este o futuro que nós, tarólogos, queremos que nosso instrumento de estudo e trabalho tenha: tornar-se apenas um tratado, historicamente documentado e aposentado de sua função de abrir as mentes e plantar sementes nos indivíduos que, como nós, tiverem sorte de cruzar com ele.
    Longe de ser frustrante, o fim de toda essa pesquisa esclareceu que não adianta que minha mente racional sinta inveja de minha mente abstrata: o Tarô só poderá ser amplamente explicado e entendido através de si mesmo. Qualquer apelação a outras áreas de conhecimento possibilitará apenas algumas analogias que servirão de chão para minha mente racional densa pisar. Mas, daqui para frente, todas as vezes em que eu for explicar sucintamente o que é o Tarô, vou ter que sorrir e dizer: “ – Ah, o Tarô? É um Alfabeto Simbólico Tradicional”.

Contato com a autora
Alessandra Fonseca
- ale.fonseca28@hotmail.com
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