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15 de junho de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


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Física quântica e espiritualidade
  Alexey Dodsworth Magnavita  
 
Nota do Editor: A propósito do anúncio de um curso intitulado O Universo Quântico dois participantes de um grupo de discussão da CNA – Central Nacional de Astrologia, trocaram opiniões sobre o tema, em agosto de 2009.
Aqui transcrevemos os comentários de Alexey Dodsworth Magnavita, astrólogo há mais de vinte anos, graduado em Filosofia, diretor técnico da Central Nacional de Astrologia.
Veja também o que escreveu Rodrigo Araês Caldas Farias, Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 
Dentre as obras interdisciplinares entre Física e espiritualidade, Goswami realmente se destaca, mas o livro dele contém algumas boas "forçações de barra" que qualquer estudante de Física aponta. O mesmo se dá com Capra em O Tao da Física, que não resiste a um olhar mais apurado. Laszlo é diferente, ele é realmente bom, e recomendo ídem.
Dentre os "saberes outros" que o meio astrológico costuma investigar, dois se destacam: a psicologia analítica de Carl Jung e a Física Quântica. Repito o que sempre digo: acho altamente interessante a busca pela interdisciplinaridade. Entretanto, considero que se alguém deseja fazer relações entre a Astrologia e a obra de Jung, então leia Jung. Digo isso porque conto nos dedos quem diz fazer inter-relações entre Astrologia e psicologia junguiana e que realmente leu Jung. Muita gente acha que ler comentadores de Jung é o mesmo que ler a obra do dito cujo. Ler comentadores é uma faca de dois gumes: ou você acerta, ou corre o risco de aprender tudo errado. O problema é que Jung é de difícil leitura, então muita gente corre pros comentadores. Mas se a pessoa não entendeu Jung e precisou de um comentador, então não se pode dizer que a pessoa faz relações entre Astrologia e psicologia junguiana.
"O Segredo"
Não se aprende física quântica
lendo "O Segredo"
 
Há uma professora da USJT, Regina Rebollo, que muito insistia neste ponto: ao procurar conhecer um autor, leia o autor, não pense que ler um comentador do autor lhe tornará conhecedor do mesmo. Ela deu como exemplos vários livros de Filosofia escritos por pessoas que pretendiam explicar Nietzsche ou Spinoza, e entenderam tudo errado. Um destes livros afirma que David Hume era ateu. Hume não era ateu! Ele inclusive diz com todas as letras que nunca conheceu alguém inteiramente ateu na vida. Hume também não acreditava em Deus conforme a crença cristã, mas daí pra "ser ateu" é um pulinho exagerado...
Em relação à Física Quântica, ocorre o mesmo: estudar Física Quântica não é, como pensam muitos, ler O Segredo ou Quem Somos Nós? A Física Quântica é um tema por demais complexo e profundo para ser aprendido através de um livro de auto-ajuda.
No que concerne aos abusos, eu mesmo tenho algumas opiniões sobre eles. Presenciei e presencio muitos abusos, e penso: quando tentamos fazer uma ponte interdisciplinar entre a Física Quântica e a Astrologia, o que nos norteia?
Se o interesse for um real desejo de interdisciplinaridade, tendo consciência de que a Astrologia não precisa da Física para "ser validada", ótimo.
Mas se for uma mera questão de querer usar termos científicos como modo de dar uma envernizada na Astrologia a fim de torná-la "mais aceitável", eu torço meu nariz sinceramente. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi as seguintes frases:
– A Física Quântica provou a existência de Deus [não, não provou]
– A Física Quântica provou a existência da alma [não, não provou]
– A Física Quântica prova a Astrologia [não, não provou]
Existe uma diferença enoooorme entre "tecer conjecturas" e "provar".
A última pérola foi a seguinte: "Astrólogos precisam estudar Física Quântica, pois através dela Albert Einstein provou que tudo é relativo".
Isso é o cúmulo da ignorância, uma vez que Einstein refutava a Física Quântica [e estava errado neste ponto]!!! É conhecidíssima a celeuma Einstein versus Bohr: determinismo físico versus indeterminismo quântico.
Acho o estudo da Física Quântica através de suas fontes diretas [e não de comentadores] importante, pois assim quem quiser fazer associações interdisciplinares com a Astrologia pelo menos o fará com conhecimento de causa, e não dirá coisas tolas [na maioria das vezes sem nenhuma má intenção, mas por ingenuidade mesmo].
Mas o pior é que existem os casos da má intenção. Todos os anos ocorre um evento em Campina Grande, o famoso "Encontro para a Nova Consciência". Entra ano, sai ano, eu e Waldemar Falcão somos convidados para falar sobre Astrologia.
No ano passado, ficamos todos empolgados com a presença de um suposto físico, PhD em Física Quântica, que ia falar sobre "espiritualidade quântica". Houve quem se deslocasse de Porto Alegre,  curioso com a palestra do cara,  pois – não
 
Relógio
© Espion – Lawrence Wee
sei se vocês sabem – contam-se nos dedos os PhDs em Física Quântica no Brasil.
Chegando na palestra, decepção: tratava-se de mera descrição do filme Quem Somos Nós? Fiz algumas perguntas básicas pro cara, e ele se enrolou. Descobrimos, tempos depois, que ele era um charlatão. Nem Física tinha estudado em canto algum. Tratava-se apenas de um auto-intitulado guru que, com a finalidade de emprestar autoridade às próprias palavras, se disse phD em Física Quântica.
Meses atrás, recebi por e-mail a propaganda de um curso intitulado "Sabre de luz quântico". Pensei imediatamente na espada Jedi do Luke Skywalker, mas fiquei tão curioso que liguei pro lugar. Falei diretamente com a ministrante do curso. O seguinte diálogo se deu:
– O que vem a ser um curso sobre o sabre de luz quântico?
– São técnicas de mentalização para que você possa dar uma salto quântico em sua vida.
– Mas o que é um salto quântico?
– É uma forma de melhorar a sua qualidade de vida.
– Entendi. Então, na verdade, é um curso de meditação para que a pessoa possa viver melhor, não é?
– Sim, é isso.
Este diálogo resume tudo o que penso sobre a massiva maioria das tentativas de usar o termo Física Quântica em coisas esotéricas: é apenas uma tentativa de impressionar o público usando o novo Deus do momento: a ciência.
Mas há, é claro, pessoas que fazem isso direito. São poucas, contudo. Laszlo é uma delas.
março.10
Contato com o autor:
Alexey Dodsworth alexey.dodsworth@gmail.com
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