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14 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


As mulheres e os homens nas cartas
Os arcanos e suas expressões sexuais
Constantino K. Riemma
No mundo moderno, ao mencionarmos a palavra sexo, as associações imediatas são de prazer, transa, genitais, ou relativas aos conflitos entre entre os homens e as mulheres. Imaginando que seria esse, naturalmente, o pano de fundo das apresentações na Confraria do Tarô de 2019 — Sexo e Tarô — achei útil focar minha exposição nos aspectos instintivos e naturais das funções atribuidas aos sexos masculino e feminino. E, neste texto para o painel temático no site do Clube do Tarô, ampliei alguns pontos que mencionei no evento.
A mulheres e o poder feminino
Para começar, podemos fazer um levantamento de como os arcanos maiores representam cada sexo. Vejamos as cartas dos trunfos com presença exclusiva de personagens femininos.
A cartas exclusivas para as mulheres
Oito arcanos maiores estão reservados exclusivamente ao sexo feminino:
Papisa, Imperatriz e Justiça.   Força, Temperança, Estrela e Mundo.
Cartas do Tarô de Marselha restaurado por Camoin-Jodorowsky
Fica ressaltada, nas oito cartas com exclusiva presença do feminino, a qualidade de realeza nas três figuras assentadas no trono, com suas coroas e símbolos de poder: cetro, espadas e o livro de sabedoria.
As outras quatro figuras trazem marcas simbólicas da consciência: o chapeu em formato de infinito e as flores na altura do chacra coronário. É também forte a figuração de um eixo vertical na carta da Força, pelo seu aprumo e, igualmente, a conexão celeste evidenciada pelo anjo da Temperança, pela Estrela e pelo Mundo.
As mulheres, no conjunto, emanam firmeza, recolhimento, receptividade, elaboração criativa no mundo interior. As figuras despidas evidenciam total integração entre a natureza terrestre e a celeste, sem qualquer pompa ou artifício. São indicadores do poder feminino de acolher as forças de harmonização entre o masculino e o feminino.
Outro detalhe significativo nas imagens femininas desenhadas nos tarôs clássicos é que as mãos e o apoio dos objetos simbólicos se concentra na região ventral-sexual das personagens. Apenas na carta da Justiça uma das mãos, a que sustenta o eixo da balança, se encontra à altura do coração.
Para ressaltar mais ainda o valor atribuído ao feminino, a carta que encerra a sequência dos arcanos traz uma mulher ocupando o centro da mandorla. Além disso, está rodeada pelos símbolos dos quatro signos fixos do zodíaco, os quatro pilares do mundo manifestado. Trata-se da mesma posição ocupada pela imagem de Cristo em tímpanos de igrejas góticas.
A carta Mundo e o tímpano da Catedral de Chartres (França, século 13)
No arcano do Mundo a figura feminina (Anima Mundi) ocupa a mesma posição
do Cristo esculpido no tímpano da Catedral de Chartres (França, século 13).
Pelo que se evidencia nos arcanos maiores do tarô, toda valorização imaginável foi atribuida ao sexo feminino. Como se poderia dizer: melhor, impossível!
Os homens e o poder masculino
Para recorrer ao bom humor, poderíamos perguntar se o conjunto simbólico do tarô, originário de um período "remoto, medieval", não daria mais valor às cartas do sexo masculino, dos machos. Vamos conferir, então, como e quantas são as cartas exclusivas aos personagens masculinos.
As oito cartas do arcanos maiores com presença exclusiva de personagens masculinos
São oito as cartas dos arcanos maiores com presença exclusiva de figuras masculinas:
Imperador, Papa e Carro.   Louco, Prestidigitador (Mago), Eremita e Pendurado (Enforcado).
Para surpresa de muitos, as cartas com exclusividade masculina segue o mesmo padrão e distribuição das cartas femininas: três homens coroados, poderosos, e quatro personagens rodando pelo mundo. Os três homens com autoridade trazem em suas mãos o cetros representativos do poder viril e paternal. Já os quatro outros homens se mostram, talvez, menos "empoderados" que as mulheres: um é andarilho tresloucado, outro está pendurado, enquanto o velho se veste austeramente e se desloca devagar...!
A nudez em duas figuras femininas parece encontrar uma relativa correspondência no despojamento e parcimônia nos trajes do Eremita e do Pendurado.
No conjunto temos mais traços de movimento entre os homens, se comparados às cartas femininas. Sugerem a força ativa da polaridade masculina, em contraponto à receptividade da polaridade feminina. As mãos se distibuem entre a altura do hara e do peito e da cabeça.
Sete notas musicais em duas oitavas
A equanimidade entre as cartas femininas e masculinas nos arcanos maiores, permite refletirmos e nos nos aproximarmos dos ensinamentos tradicionais que enunciam a profunda correspondência entre os dois sexos. Eles, em harmonia, reproduzem na Terra a força criativa, reprodutora, proveniente do Cosmo.
Algumas referências a um nível simbólico mais alto, que podemos encontar nos arcanos, foram feitas com apoio na ilutração abaixo em um painel anterior, A sexualidade e sua representação nas cartas: Uma breve apresentação das polaridades.
O Mágico O Imperador O Papa O Carro O Eremita O Pendurado O Louco
1. O Mágico   4. O Imperador     5. O Papa     7. O Carro      9. O Eremita    12. Pendurado    O Louco
A Papisa A Imperatriz A Justiça A Força A Temperança A Estrela O Mundo
2. A Papisa    3. A Imperatriz    8. A Justiça   11. A Força   14. Temperança  17. A Estrela   21. O Mundo.
Cartas do Tarot de Jean Noblet (1650)
Podemos estudar, na disposição acima, os pares verticais em sua intercomplementaridade ativo-receptivo, masculino-feminino. Em certa medida podem ser considerados como notas musicais similares — do e do, ré e re, mi e mi, e assim por diante — em duas escalas energéticas: uma masculina e outra feminina.
Pares e trios interativos. Figuras ambíguas e animais.
Resta, agora, considerar como aparece a questão da polaridade sexual nas oito cartas restantes do arranjo que fizermos até aqui com os arcanos.
Pares e trios integrativos. Figuras ambíguas e animais.
Dois personagens na Casa de Deus (Torre) e Sol.   Três personagens nos Enamorados e Julgamento.
Sexos não definidos na Morte e no Diabo.   Figuras animais na Roda da Fortuna e na Lua.
Nas duas cartas em que aparecem pares de figurantes — a Torre e o Sol — não há indícios significativos de polaridades sexuais: podem ser masculinas ou femininas ou casais. Já nos trios — Os Enamorados e o Julgamento — a primeira carta tem duas mulheres e um homem e, a segunda, sugere dois homens e uma mulher. Novamente se revela a equanimidade entre o ativo e o receptivo no conjunto das cartas.
As últimas quatro cartas consideradas têm peculiaridades marcantes. O Diabo, como não podia deixar de ser, é ambíguo e exibe adereços artificiais referentes aos dois sexos. A Morte, por sua vez, sem indicação de seu próprio sexo, ceifa tanto homens como mulheres. Esses dois arcanos também podem ser traduzidos pelos desejos sexuais: o Diabo representa a atração pelos prazeres sem considerar a responsabilidade geradora, e, a Morte (Plutão, regente de Escorpião) traz a conotação astrológica para o encontro sexual e o orgasmo.
As duas cartas restantes — A Roda da Fortuna e a Lua — são as únicas que trazem figuras exclusivamente animais, o que devemos entender, não como "primitivas" ou "inferiores" mas, sim, como símbolos das forças orgânicas, de manifestão da vida, em todos os níveis da natureza. Elas também sugerem os ciclos que conduzem toda a Criação. A Roda de Fortuna, uma roda animal, zodiacal, evoca os ciclos diários e anuais definidos pelo movimento aparente do Sol. Já a Lua traduz o ciclo das águas, da fertilidade feminina, sua ancestralidade orgânica que partilha o dom a gestação com todas as formas de vida.
Os casais, os pais e as polaridades
Quais cartas podem representar o casal, o par que gera e sustenta seus descendentes? A escolha dentre os arcanos é bem fácil: a Imperatriz e o Imperador. É evidente que, pelas funções que ocupam, eles transam e geram descendentes. "Patroa" e patrão, lá estão eles lado a lado, face a face, para dar conta de gerar e criar seus herdeiros.
O casal, mãe e pai, e os pares.
A Imperatriz e o Imperador representam a mãe e o pai.
Outros pares também expressam polaridade e equilíbrio de forças: Papisa-Papa e Lua-Sol.
A Papisa (a coordenadora do convento, a Madre Superiora) guarda força e presença comparáveis às do Papa (o superior religioso). Cada um deles desempenha o papel diretor em sua área. Considerado o voto de castidade associado aos religiosos, eles não transam sexualmente e, portanto, não geram descendentes carnais. Papisa e Papa não se encaram, tal como mostram as imagens acima; cada um cuida de sua área específica. A dinâmica nesse caso é diferente da Imperatriz e do Imperador. Papa e Papisa formam o par que cuida de seus próprios filhos espirituais.
Se o par Imperador-Imperatriz representa os pais no mundo físico e, o Papa-Papisa, os cuidados com a educação espiritual, os arcanos da Lua e do Sol expressam literal e simbolicamente a polaridade criativa no plano astral, celeste. O Sol é a fonte do calor, das forças irradiantes e fecundantes. A Lua é a senhora das águas, dos fluidos germinadores. Os dois astros se encontram e se fundem na Lua Nova e, por outro lado, se defrontam na Lua Cheia, sugerindo os ciclos anímicos que permeiam a relação masculino-feminino.
O foco uterino e sugestões genitais
Podemos agora exercitar um olhar aberto, criativo ou mesmo recreativo com as cartas e suas ressonâncias sexuais e genitais.
Os tarôs clássicos não retratam os orgãos genitais. A polaridades sexuais são indicadas pelo traçado das feições, cabelo e vestimentas (saias para as mulheres e calças para os homens). Apenas em duas cartas, os seios são expostos como marcas evidentes do feminino; no entanto, os genitais são velados ou pelo jarro, na Estrela, ou pelo veu, no Mundo.
Os seios nas cartas femininas nuas
Seios à mostra e genitais velados nas mulheres despidas: A Estrela e O Mundo
Os seios da mulher estão super-focados no mundo atual como fator adicional do prazer sexual e dotes da beleza física. No contexto ancentral, porém, são ressaltados como fonte do aleitamento, dos ingredientes indispensáveis para que o ser dado à luz cresça de modo forte e natural. Essa função se evidencia na Estrela, onde a mulher conta com a proteção celeste, mas é retratada ajoelhada sobre a terra, no cenário mais orgânico dentre todas as demais cartas, com a inclusão de árvores e pássaro. Nada mais instintivo do que abrir mão de suas energias acumuladas, tal como faz a mãe que amamenta.
Curiosamente, nos deparamos com um panejamento peculiar nas vestes femininas dos tarôs clássicos, que indicariam alusões vaginais, em particular na Papisa e na Justiça. Talvez fique mais plausível considerar no panejamento das pernas afastadas da Justiça como analogia à mandorla (também nomeada algumas vezes como "vagina da Mãe do Mundo") que tem um papel central na carta do Mundo.
Alusões ao genital feminino
Marcamos com orla branca os detalhes de panejamento exclusivo às cartas femininas.
Cartas do Tarô de Marselha restaurado por Camoin-Jodorowsky
Em suma, do ponto de vista ancestral, a grande força do feminino está em sua receptividade,  fecundidade, e em seu poder de aleitar e de prestar cuidados. São virtudes que tornam compreensíveis os traços dos desenhos que dão foco ao ventre, à região uterina, à região sexual e aos seios desnudos.
O namoro
No campo sem fim das interações homem-mulher e nos aspectos incontáveis de suas trocas, os arcanos maiores podem ressoar os mais diferentes e surpreeendentes significados. Quando deixamos de lado os receituários fechados, dispomos de um cenário simbólico em aberto para traduzir os arcanos. Nesse caso, podemos nos surpreender com associações inesperadas entre as cartas e as questões que estão sendo examinadas numa tiragem.
Como sugestões e provocações vamos imaginar algumas situações que poderiam ser traduzidas com as cartas. Vamos começar pelo namoro.
O namoro e suas alternativas
O Sol e o Diabo no namoro.   O Eremita e a Força como referências aos limites.
A carta do Sol representa a aproximação carinhosa, afetiva, entre os jóvens. Caso os desejos e a luxúria, representados pelo Diabo, tomem conta, os dois ficarão presos ao nível carnal da relação. Por esse motivo, nos contextos culturais anteriores ao momento social em que nos encontramos, era normal estabelecer limites às trocas entre os namorados: é o que justifica o muro que cerca o lugar em que os jóvens se tocam na carta do Sol.
Quando o encontro dos namorados se fazia em lugares públicos, havia a garantia de um comportamento que não extrapolasse os limites. Aliás, mesmo hoje, em que o sexo está livre, não pega bem transar em locais movimentados... Isso pode até dar cadeia!
Se o encontro se fazia na casa de um dos namorados, com a presença dos pais, também os limites ficavam claramente definidos: ninguém teria jeito de "abusar". No caso de os mais velhos não estarem presentes, era recrutado um mais jóvem da família para ficar na sala de visita "segurando a vela". Para representar essa situação de respeito aos limites, ninguém melhor que o Eremita, o homem da lanterna...
Já a Força é um bom exemplo de harmonização, de alinhamento dos impulsos sexuais (a boca do leão, totalmente domado, na altura do genital da mulher) com os sentimentos e pensamentos (chapéu com o formato da leminiscata, um símbolo do infinito). Ela não precisa ser vigiada, pois sua presença é de total integridade e responsabilidade.
O casamento
E a cerimônia de casamento, como poderia ser retratada?
Enamorados e a cerimônia de casamento
Os Enamorados na cerimônia de casamento, ladeados pelo Papa e pela Carruagem.
Estamos diante de uma enigmática sequência numérica das cartas do tarô (5, 6 e 7).
Os dois Namorados (carta VI) estão diante do celebrante, que interroga ritualmente se o compromisso é assumido de "livre e espontânea vontade". O caráter sacramental do casamento é claramente indicado pela figura do Papa que, na sequência numeral dos arcanos maiores, antecede os Namorados. Já o arcano 7. O Carro pode ser imaginado como a carruagem nupcial que transporta o par após a cerimônia religiosa ou, melhor ainda, como o atrelamento das forças animais-instintivas do homem e da mulher em um só veículo.
Em todas as culturas, o encontro homem-mulher não é gratuito ou acidental. Ele sempre evoca um sentido mais alto, associado à responsabilidade pelo fruto do matrimônio: os filhos.
Para reforçar esse caráter transpessoal, no contexto cristão o matrimônio é um dos sete sacramentos e, curiosamente, é o único em que a sua plena realização depende dos envolvidos e não da cerimônia religiosa. Após o ato sacerdotal é indispensável ocorrer a "consumação". Caso o encontro sexual não se faça, o rito, o sacramento, não é validado.
O encontro sexual
Não há, entre os 22 arcanos maiores, algum que represente literalmente a transa, a cópula, o encontro sexual. Em casos assim, estamos convidados a fazer o exercício lúdico de olhar as cartas e imaginar possíveis referências.
O primeiro encontro sexual
A Torre cabe como representação fálica. A mandorla no arcano do Mundo expõe a vagina.
A tradução da Torre como o falo que ejacula, surgiu em cursos de introdução aos arcanos, que promovo em pequenos grupos. Também foi associada literalmente à explosão que ocorre ao abrirmos uma garrafa de champanhe... Daí a liberdade imaginativa para montarmos a Torre e o Mundo — com sua mandorla-vagina — representando o encontro dos genitais masculino e feminino.
A carta da Morte pode ser adicionada na sequência, como significadora da passagem para uma nova etapa na vida dos envolvidos. Esse passagem era ainda mais profunda e significativa nos tempos em que a norma era manter a virgindade até o casamento. Nesse ato ocorre para o feminino uma provação orgânica — o rompimento do hímen — que faz correr sangue. Tal prova evoca o arcano do ceifador, que simboliza não só a morte, mas também os ritos de passagem. Para fortalecer essa alusão, vale lembrar que o signo de Escorpião e seu regente Plutão significam sexo, orgasmo e morte...
A gravidez e o parto
O passo seguinte, após o encontro sexual, é o da gestação e do trabalho de dar à luz.
A gravidez e o parto
A Imperatriz, a grávida por excelência.   O Pendurado e a Morte como decorrências.
A Imperatriz, a mulher casada com o Imperador, com o cetro apoiado no útero, também protegido pelo escudo, indica claramente seu ponto forte como mãe, matriarca, senhora do espaço interior, seja seu próprio corpo ou o seu lar. Ela tem o dom de engravidar.
Descobrimos, nas incontáveis interações em pequenos grupos para traduzir os símbolos dos arcanos, que podemos entender o Enforcado como o ser em gestação. De fato, quando estamos no ventre materno ficamos encaixados de cabeça para baixo, amarrados ao cordão umbilical... O Pendurado é um personagem calmo, na dele, com paciência e confiança para esperar que se cumpram os nove meses necessários até estar no ponto certo para aparecer no mundo exterior.
A Morte, mais uma vez indica o processo radical de mudança de condições, neste caso decorrentes do parto. Mãe e filho, até então unidos em forte comunhão, serão separados pelo trabalho de dar à luz, acompanhado de dores e sangramento. O maravilhoso resultado dessa passagem oferece ao mundo um novo ser em sua total dependência, inocência e abertura.
A sequência numeral das cartas 12. Pendurado e 13. Morte/Renascimento reforça mais ainda a analogia que acabamos de fazer.
Amamentação e cuidados maternos
Finalmente, na história do sexo e sua função reprodutiva, nos deparamos com os filhos e seus cuidados imediatos, a cargo das mulheres
Filhos e os seus cuidados de amamentar e proteger
Os filhos (Sol) necessitam de cuidados e proteção: Estrela, Temperança e Imperador
A carta do Sol representa perfeitamente os filhos, não apenas por colocar crianças em cena, mas também porque, na Astrologia, o Sol é o regente do signo de Leão, que traduz a criatividade, o namoro e, igualmente a apreciação das realizações, das maravilhas oferecidas ao mundo: as obras de arte, os filhos...!
Nada melhor para representar a amamentação que a carta da Estrela, a mulher nua, integrada na natureza, que oferece tranquilamente suas energias vitais. As forças celestes alimentam seu dom inesgotável de provisão.
Outra figura com cântaros em suas mãos, a Temperança, pode ser vista como os cuidados infindáveis da vocação maternal e a busca do justo equilíbrio entre os estímulos oferecidos na educação dos filhos. Podemos brincar que ela está temperando a mamadeira do filhote...
Arquetipicamente, a mulher com filho pequeno coloca nele o seu foco de vida, seus cuidados e afazeres. O lar, o espaço doméstico, passa a ser seu território exclusivo. Cabe, então, ao homem, representado pelo Imperador, cumprir seu papel paterno, ativo, de cuidar das provisões exteriores e proteger seu núcleo familiar.
E o Amor?
Onde o sentimento amoroso entra nessa história toda? Inúmeras respostas podem ser dadas a partir dos diferentes ângulos e níveis considerados para tratar desse profundo sentimento. No nível mais alto que podemos imaginar, o amor não pode ser traduzido por imagens.
O amor divino está claramente associado ao mistério da Santíssima Trindade, no qual o Pai representa o princípio ativo, o Filho o princípio receptivo e o Espírito Santo o princípio da união. Poderíamos, em certa medida, entender o Espírito Santo, a força suprema de conciliação dos opostos, como expressão do amor celestial. Os ensinamento antigos, porém, ressaltam que os princípios unificados na Santíssima Trindade, são dinâmicos, interativos, transmutáveis entre si. Assim sendo, os três princípios podem expressar diferentes ressonâncias para a expressão amorosa.
Por analogia fica em aberto, para quem trabalha com as figuras simbólicas, considerar cada um dos arcanos, sejam eles ativos (masculinos) ou receptivos (femininos) como portadores da terceira força: amor ao próximo, afetividade, carinho, cuidados. Sim, cada um a seu modo! E aplicáveis a todos os setores de vida: amor ao próximo, amor aos pais, amor aos amigos, amor a todas as manifestações de vida na natureza visível e no mundo invisível.
Considerando o nosso tema, Tarô e Sexo, quais cartas escolheríamos para traduzir a força amorosa que coloca homens e mulheres em busca recíproca?
Amor entre o homem e a mulher - Cupido e os filhos
Namorados e Sol expressam amor e carinho
Cupido, na mitologia grega, é o deus do amor, representado com asas e, às vezes, de olhos vendados; está provido de arco e flechas, para acertar os corações dos homens e mulheres. Muitas vezes seu comportamento é travesso e provoca paixões intensas e incontroláveis. E quem, senão ele, está no alto da carta seis, indicando os Enamorados como o alvo de suas flechas certeiras!
Se o amor é a força que ativa e excita o masculino e o feminino para o encontro íntimo, sexual, ele também pode ser vivido como amor aos filhos — o Sol — que une e amadurece a relação dos casais. Nos velhos tempos, o casal era levado a ralar suas diferenças e encontrar uma harmonização dos conflitos em nome de suas responsabilidades, maternas e paternas, para garantir o lar aprazível para os seus filhos.
Em resumo...
No mundo contemporâneo, com seus diferentes grupos raciais e sócio-culturais em conflito, com classes e valores antagônicos, qualquer abordagem da questão sexual será vista como incompleta ou parcial aos olhares específicos. Existe, além disso, um mundo oculto que ultrapassa o sentido da linguagem simbólica do Tarô.
Não tratamos nesta exposição, por exemplo, dos bilhões de dólares anuais dispendidos com produtos e prestação de serviços ligados à excitação das energias sexuais: cosméticos e cirurgias plásticas, bonecos e aparelhos destinados a provocar o orgasmo solitário, anticoncepcionais e drogas excitantes, bebidas, ritos de encantamento e possessão, etc, etc...
Também não tocamos aqui nas sombras decorrentes da energia sexual: desvios, patologias e violências, tanto no espaço doméstico quanto as praticadas pelas organizações criminosas e escravizadoras, que fazem fortunas com a prostituição feminina.
O que está ao nosso alcance é compreender a diversidade e seus desafios, sem abdicar, porém, dos valores que têm todo sentido para nós. Foi o que tentamos, na questão Tarô & Sexo, ao dar relevo, não aos diferentes níveis de desejos e prazeres ou às variadas interrogações subjetivas que os consulentes da cartomancia desejam esclarecer, mas simplesmente relembrar o mistério da polaridade feminino-masculino, presente em todos os níveis de manifestação da vida.
Constantino K. Riemma,
responsável pelo Clube do Tarô.
ckr@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô : Autores
Edição: CKR – 22/09/2019
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