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05 de junho de 2020

Responsável: Constantino K. Riemma


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Adivinhação é pecado?
Constantino K. Riemma

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Flávio Siqueira - 26/4/2010 17:56:40
"Queria que você esclarecesse uma questão que tem estado em minha cabeça há algumas semanas. Como lidar com o tarô e com algumas idéias cristãs? Por exemplo, há diversas passagens bíblicas (Deuteronômio, Levítico) que condenam a prática adivinhatória e tal e coisa. Acho que você já ouviu muito acerca disso. Bom, creio que seja importante saber como lidar com tal questão, pois sou muito criticado por minha família acerca disso."

Constantino: O tarô não é condenado pelos cristãos. Ele aparece no mundo católico, no século XV, utilizado nas cortes e nos mais diferentes lugares, com finalidade lúdica, sem qualquer interdição religiosa. Mais ainda, na tradição judaico-cristã os prognósticos não são condenados. Muito pelo contrário, os profetas sempre foram valorizados. Portanto, a questão fundamental é compreender o que de fato pretendem os orientadores religiosos quando condenam a adivinhação. Seria mera implicância ou preconceito? Sim, pode ocorrer que muitos religiosos sejam simplesmente pessoas fechadas. Mas será só por isso? Talvez valha a pena refletirmos um pouco mais.

Uma imagem que utilizo para examinar essa questão é a seguinte. Se alguém passar por você em excesso de velocidade, em direção a um paredão, será possível prever que dentro de 5 segundos ele se arrebentará num impacto fatal. Você será elogiado e valorizado por suas aptidões de previsão. Se ao invés de confirmar a trombada você der um grito e alertar o distraído para brecar, talvez o impacto seja bem menor ou até mesmo possa ser evitado. Nesse caso, o seu gesto talvez não seja tão valorizado e todos acreditarão que você simplesmente fez o que deveria fazer pelo seu semelhante.

[Ao lado: "Fortune Teller" em www.aescott.net
Ilustração abaixo: Ramana in www. bhagavanramana.blogspot.com]


Outra imagem pode nos ajudar a refletir sobre o problema que você coloca. Um médico de diagnósticos pega uma radiografia e faz sua previsão ao paciente : "Você só tem três meses de vida". Já um médico curador vai olhar a mesma chapa e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para superar ou, pelo menos, contornar a gravidade da situação. O paciente poderá viver ainda muitos anos, contrariando assim os diagnósticos iniciais. Ou seja, não é pecado fazer diagnósticos. O problema todo está na capacitação do profissional para utilizar os prognósticos de modo terapêutico e não para agravar o sentido negativo de um quadro muitas vezes bem difícil.

Em muitas questões humanas, nas quais predomina a mecanicidade dos  acontecimentos, o adivinho poderá prever como a pessoa sofrerá com a situação. E ao verbalizar sua previsão poder correr o grave risco de reforçar, na mente e no coração do consulente, a mecanicidade dos fatos, agravando assim os problemas que enfrenta. Caso esse mesmo consulente tivesse buscado um terapeuta competente ou um orientador espiritual talvez pudesse ganhar um novo discernimento, uma nova compreensão do processo, e tomar medidas e direções que evitassem equívocos e a piora da situação em que vive. Mais ainda, poderia até mesmo reverter tendências negativas e ganhar novos rumos de crescimento.

Com esses exemplos cabe a questão. Como lidar com as possíveis previsões? Qual é o grau de saber necessário para utilização terapêutica dos prognósticos? Como ganhar a qualificação para lidar evolutivamente com as questões humanas?

Desde sempre as artes divinatórias tiveram forte presença na vida humana; basta ver a enorme lista de mancias até hoje praticadas em todas as classes sociais (confira em: http://www.clubedotaro.com.br/site/r68_0_mancias.asp). São muitos, porém, os buscadores espirituais que contrapõem o livre-arbítrio ao determinismo das adivinhações. Apesar de, no plano coletivo, predominar a busca de previsões factuais de "sim ou não?", "vai ou não vai dar certo", e de também serem muito procuradas as técnicas mágicas e "trabalhos" de manipulação da vontade alheia, estamos frente a outra bela questão para considerarmos.

Se tivermos a possibilidade de realizar escolhas como devemos estudar para tomar as melhores decisões? Onde buscar orientação? Se, caso contrário, estivermos diante de situações inelutáveis, como fazer para descobrir a melhor atitude?

Quem poderia ser nosso guia e orientador? Em nossas crises e incertezas, procuramos por um cartomante, por um tarólogo, ou por um mestre e orientador espiritual? Será possível combinar essas alternativas?

E aí?

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Flávio Siqueira - 4/5/2010 17:10:49 
"Oi Constantino. Agradeço demais sua resposta. Alías, ela me fez pesquisar várias coisas interessantes. Entrei no Google e joguei o seguinte: "Tarô e cristianismo". Qual não foi minha surpresa encontrar o link   para o próprio  Clube do Tarô, onde você escreveu  sobre o livro "Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores". Minha surpresa foi maior ainda ao verificar que a Editora é a Paulus. Daí segui um dos links que mostram o saudoso Papa João Paulo II sentado à sua mesa com esse tal livro, presente de um de seus Cardeais, fala o texto. Fiquei espantado ao pensar que talvez ser cristão e ao mesmo tempo fazer uso do tarô não seja algo tão antagônico.
De qualquer forma, quero pesquisar mais sobre as passagens bíblicas do Levítico e Deuteronômio que fazem referência ao assunto, pois quero saber por que usam tais passagens para condenar o tarô. Penso que manipulam ou manipularam o texto como forma de concentração de poder religioso, ou coisa parecida."

    [Foto: O Papa João Paulo II e, em sua mesa de trabalho, o tratado de Valentim Tomberg sobre o Tarô]

Resposta do Constantino: :
Flávio, foi muito bom você lembrar que um dos mais importantes tratados sobre os arcanos maiores é de autoria de um cristão, católico! Para registrar o link a outros visitantes, o texto que você menciona está na seção "Serviços / Livros e Autores / Estudos -> Valentim Tomberg". Ou para chegar até ele basta apenas clicar: http://www.clubedotaro.com.br/site/z94_Tomberg-bio.asp

 
03/05/2010 22:27:59

Comentários

Flávio - 20/05/2010 08:25:05
Olá Bete. Obrigado pelas dicas. O meu intuito é estudar o tarô para o autoconhecimento e conselhos, e não para advinhar algo. Gostei do seu esclarecimento, deverão ser bastante úteis.

Tudo de bom!!

Ana Cláudia - 20/05/2010 18:10:22
Solicito indicação de um excelente tarólogo(a) em Belo Horizonte - MG

Att,
Ana Cláudia

Bete Torii - 20/05/2010 23:33:13
Flávio, fico muito contente. Tudo de bom para você também!

Flávio - 21/05/2010 10:11:17
Olá Bete.

Li o texto "Iconografia Medieval"para complementar a leitura do outro que vc. indicou. Não é coincidência tanta semelhança. Parece-me que o tarô ou oqe viria aser tarô estava arraigado na cultura da época, e na cultura cristã. Agora onde houve essa ruptura é outra história.

Giancarlo Kind Schmid - 23/05/2010 16:05:19
Flávio, se me permite, quero tecer alguns comentários. O termo "pecado" vem do latim clássico "pecatus" (posteriormente peccatum) que significava "o tropeço que o boi dava no arado". Pois bem, a ideia de culpa e punição proveniente de "padrões desviados de conduta, avessos à boa postura cristã" surgiu de várias proibições, muitas delas originadas na própria Idade Média. O grande problema religioso está na literalidade dos "textos sagrados" e uma interpretação muitas vezes equivocada, proveniente até de más traduções, já que a Bíblia já atravessou três grande idiomas(aramaico, grego e latim). Me preocupa a forma que as pessoas encaram as coisas, e chego à conclusão que a problemática do pecado está na cabeça de cada um - ou seja, como as pessoas encaram a situação. Eu penso que, realmente, a parte que cabe ao tarô do ponto de vista divinatório esbarra exatamente no aspecto religioso-filosófico, por isso defendo cada vez mais o uso do tarô para o autoconhecimento do que para previsões. Mas, não adentrando em tal assunto, penso que você apenas deveria rever para que fim pretendia (ou pretende) usar o tarô. Creio que, se é para o bem comum e melhoria humana, não vejo problemas em seu uso. O que não é legal é usar o tarô para manipular ou controlar a vida alheia. De todo modo, eu acho que existem tantas outras coisas importantes que TODO cristão deveria se preocupar (como exercer o "amai o próximo como a ti mesmo") que se preocupar com a adivinhação é o menor dos males. Além disso, se Deus estivesse tão preocupado com tal coisa, teria criado um 11º Mandamento do tipo "não consultará adivinhos e videntes e nem tomará suas palavras como verdadeiras". O que eu li no Velho Testamento, é que os antigos cristãos execravam a necromancia ou similar (que envolvia adivinhações através dos mortos). Ao meu ver, esse seu mal estar é oriundo de uma culpa muito maior, superior, de repente, às palavras bíblicas, e pode nascer na própria educação.

Giancarlo Kind Schmid - 23/05/2010 16:11:01
Não estou aqui para te convencer e sim, para te fazer pensar. A faca na mão de um cozinheiro é exímio instrumento de trabalho; na mão de um assassino, uma arma. Tudo, no universo, tem a sua contraparte. Afirmar veementemente que o tarô é condenável porque está "qualificado como adivinhação" é o mesmo que dizer que um bisturi é essencialmente um arma branca. Vai da maneira que você usa e o fim a que destina. Minha preocupação ainda recai sobre a precária capacidade de alguns religiosos refletirem sobre determinadas situações, já que o padre ou pastor afirmou "isso ou aquilo", quando não a interpretação superficial das escrituras. Para não se tornar mais um dentre tantos, coloque a cabeça para funcionar. O que determina o mal é a intenção principalmente.
Abraço!

bruno freitas - 24/05/2010 13:34:45
não sei se estou errado, mas nunca consegui ver o tarot como algo externo ao ser.. um oráculo mágico, e sim como apenas um instrumento, uma forma de manifestar uma propriedade latente em nós mesmos


Flávio - 25/05/2010 17:07:36
Giancarlo, agradeço seus comentários e reflexões tão bem colocados e tenha a certeza de que estão me fazendo refletir bastante. Aliás, todas as dicas, pensamentos e textos que tenho lido aqui no Clube do Tarô e em outras fontes têm me levado a uma profunda ponderação acerca do tarô e seu uso. Tenho absoluta convicção de que o tarô, quando usado para ajudar as pessoas a superarem suas dificuldades, é um instrumento preciossísimo. Obrigado mais uma vez pela sua valiosa contribuição.

Tudo de bom.

Margareth - 02/08/2010 18:00:13
Olá Constantino,
Gostei muito da sua explicação dando exemplo do médico,porém o que fazer quando uma pessoa não tem noção da realidade, como podemos ajuda-ló se ainda não está amadurecido o suficiente para conhecer seu destino, não se deve deixar a pessoa como dizer A DEUS DARÁ, a própria sorte.Acretido que muitas vezes os orientadores encontram-se entre a CRUZ E A ESPADA.
Agradecida.

Constantino K. Riemma - 11/08/2010 11:43:20
Margareth, concordo com você. Seu comentário mostra que uma coisa é a leitura pura e simples da carta para fazer previsões e outra, completamente diferente, a orientação para lidar com a vida, para despertar a consciência de um nível mais alto da existência, para crescer interiormente.
Aqui, portanto, entra em cena a formação sutil que se encontra muito acima da simples habilidade de lidar com as cartas. É por isso que muitas vezes afirmo que os tarólogos ideais seriam os terapeutas e os orientadores experientes que acumularam um saber para trabalhar a obscuridade psíquica e suas contradições.
A compreensão para educar e orientar está muito além da simples cartomancia.

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