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01 de outubro de 2020

Responsável: Constantino K. Riemma


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O consulente quer atenção
Giancarlo Kind Schmid
  Muitas vezes quem nos procura, o faz inicialmente com o objetivo de buscar um conselho ou orientação diante de algum problema vivido. Certamente, a procura por um tarólogo também ocorre pela curiosidade, mas a grande maioria está a viver algum drama e busca o suporte necessário para vencer a situação. Mas, há também aqueles que nos procuram apenas para desabafar.  


Ao longo desses anos de atendimento, passei a notar que a carga emocional dos consulentes diante de alguns problemas era superior à dimensão destes. Ou seja, ao ouvir os relatos e analisar o quadro através do tarô, parecia-me um exagero a forma que o consulente estava a tratar a crise. Entendo que cada um encara de forma particular os desafios, atribuindo-lhes uma importância equivalente à capacidade de contornar as situações, mas por trás da aparente desejo do vencer o quadro, há muita carência e necessidade de proteção, mesmo que psicológica.

O consulente que chega falando, "abrindo o jogo", antes mesmo da  realização da consulta, é tipicamente o retrato do indivíduo carente de atenção. O ato de falar é um desabafo, naturalmente deve ser respeitado, mas limites devem ser impostos para que o trabalho não se perca dentro do tempo estabelecido para a consulta, e o consulente não dirija a leitura a partir de suas exposições e prolongadas explicações, pois o atendimento perde o seu propósito se levado dessa maneira.

É preciso esclarecer, antes do atendimento, que a abertura para perguntas ou observações será feito dentro de um dado momento (na hora certa), a não ser que o tarólogo sinta a necessidade de ouvir primeiro a história do consulente; ainda assim, creio que a introdução do consulente seja breve, sem entrar em muitos detalhes, pois cabe ao tarólogo aprofundar a análise e identificar o problema em sua raiz. Preocupo-me em demasia com bate papos longos antes do atendimento que possam conduzir a leitura de tarô. Quem nos chega, pode apenas estar defendendo seu ponto de vista, contando a sua versão da história, devemos ser perspicazes o suficiente para isentar-nos de opiniões e não realizarmos uma análise tendenciosa que agrade somente o consulente. Necessário nos lembrar que muitas vezes o consulente "mente" apenas para sair como “vítima” da situação.

Quem tem medo de dar um “puxão de orelha” em quem atende, certamente não conseguirá realizar um trabalho proveitoso. As pessoas não nos pagam para ouvir o que querem e sim, o que precisam. Enfeitar a leitura com falas bonitas, enaltecendo apenas as qualidades do consulente e seus feitos, é o mesmo que mantê-lo em estado de inconsciência, totalmente infantil. Ou seja, elogios feitos de forma inapropriada podem reforçar comportamentos equivocados e até o temperamento difícil de alguns. Oferecer saídas para determinadas situações sem participar o consulente dos seus esforços é o mesmo que oferecer segurança em algo que a responsabilidade pessoal deve falar mais alto. É preciso frisar que o problema continua sendo dele (e não nosso), cabe a nós apenas auxiliá-lo em sua superação.

O excesso de carência em ser ouvido torna o consulente alvo fácil de manipuladores. Um tarólogo pode ser considerado bom apenas porque percebeu a vulnerabilidade do outro e decidiu explorá-la, arrancando do consulente informações cruciais para desenvolver a consulta. Todo cuidado é pouco com tarólogos que perguntam mais do que respondem, pois estes certamente não se sentem seguros o suficiente para gerar um atendimento imparcial, apóiam-se no outro para chegar às suas próprias conclusões e fazerem revelações, na maioria das vezes, duvidosas. Surgem, então, os famosos tarólogos “tira dúvidas” que cobram pouco por alguns minutos de atendimento. Ou então, o tipo de profissional que apenas responde com seguidos “sim ou não” (e até talvez) para livrar-se logo do consulente.

O consulente quer atenção, antes de tudo. Acredita que o seu problema sempre é o maior de todos, ou o mais difícil, e ele é a pessoa mais sofrida naquele momento. Está ansioso para ver-se liberado de sua dor e será capaz de dizer qualquer coisa, mesmo o que não queira (e até mesmo fazer, quantos não caem em armadilhas ao pagar centenas de reais só para ter seu amado de volta ou para desfazer algum “trabalho espiritual”?) e muitos não se dão conta dos riscos dessa exposição. Ao procurar alguém que o auxilie, pode cair nas mãos de um estelionatário ou oportunista que “lhe oferecerá o paraíso”, tudo feito em nome do desespero. Ouvir o consulente é imprescindível, mas jamais devemos influenciá-lo com nossas opiniões ou interpretações superficiais do quadro, mesmo que já conheçamos parte do enredo; devemos acalmá-lo, deixá-lo à vontade e nunca dar a impressão que o problema que vive é superior às soluções possíveis, mesmo o mais grave e preocupante deles. Acima de tudo, precisamos saber ouvir imparcialmente para que as orientações cumpram seu objetivo com excelência.
 
10/05/2010 16:45:06

Comentários

Zoe de Camaris - 15/05/2010 12:27:36
Excelente texto, Gian! Penso exatamente da mesma forma. Grande abraço, Zoe.

Giancarlo Kind Schmid - 16/05/2010 00:38:42
Oi querida Zoe,
Que bom ter ler por aqui. Fiquei muito feliz com os seus comentários. Obrigado pelo feedback!

Ivana Mihanovich - 21/05/2010 13:43:44
Gostei mto do texto, mto claro e tranquilo na exposição. Penso assim tb.
Eu não sou vidente, trabalho com a intuição, então às vezes preciso, sim, de alguma diretriz breve do cliente, mas realmente, qdo eles são do tipo "só procurando um colo", desabam a falar e, na verdade, me atrapalham muito a concentração. Resolvo isso apenas pedindo que não falem mais ou vão me confundir - e funciona.
Abraços
Ivana

Giancarlo Kind Schmid - 23/05/2010 15:30:02
Oi Ivana, agradeço seus comentários e elogios. Eu penso que, independente da vidência ou não, o tarô é capaz de nos mostrar o "tema chave" do consulente (a questão que mais o incomoda ou preocupa). Tudo dependerá da técnica e método utilizado (por exemplo, Mandala), proporcionando uma visão acurada do momento da pessoa. O falar é útil quando é necessário elucidar uma situação, cujos detalhes podem clarear a interpretação. Mas, sempre devemos ter o cuidado de levar em consideração qualquer explicação onde o "eu" é quem está determinando o quadro. A isenção é primordial para evitarmos qualquer tipo de julgamento precipitado.
Abraços!

KARAHAYARA - 09/06/2010 16:26:32
MUITO INTERESSANTE SUAS OBSERVAÇÕES SOBRE ESTA QUESTÃO TÃO DELICADA ,PERCEBO QUE O CONSULENTE DE UMA FORMA GERAL CHEGA MUITO ANSIOSO DISPOSTO A ACREDITAR EM QUALQUER COISA QUE TORNE A VIDA DELE MENOS DIFICIL OU ESPERA QUE REFERENDEMOS SUAS OPINIÕES . QUER QUE ALGUEM LHE DIGA O QUE FAZER UMA VEZ QUE NÃO TEM CORAGEM DE TOMAR SUAS PRÓPRIAS DECISÕES . PERCEBO QUE QUANDO AS CARTAS NÃO DIZEM EXATAMENTE O QUE QUEREM OUVIR MUITOS FICAM CONTRA CONTRARIADOS ,MAS EU SEMPRE ACREDITEI QUE O TARÔ É UMA EXCELENTE FERRANTE DE APOIO E A FUNÇÃO DO TARÓLOGO E FUGIR DO LUGAR COMUM .

Giancarlo Kind Schmid - 10/06/2010 19:16:02
Oi Karahayara,
Obrigado por seus comentários e visita.
Uma vez que ficamos estigmatizados como "gurus ou mestres espirituais", muitas pessoas nos atribuem "poderes especiais" como fôssemos capazes de milagrosamente resolver os problemas de quem quer que seja. Mas, a culpa é toda nossa, se prestássemos mais a informar como opera o trabalho com o tarô, deixaríamos de ocupar a posição de "magos dos mistérios impenetráveis" e seríamos capazes de despertar no outro a responsabilidade de assumir a própria vida. Enquanto forem atribuídos poderes tanto ao tarô como ao tarólogo, cada consulente desinformado acreditará que não precisará assumir sua parcela de compromisso em mudar, destinando a nós a procura pela chave da tal felicidade. Afinal de contas, pagando, a cobrança é deveras maior (já que para alguns, deveríamos estar praticando a caridade, atendendo gratuitamente por aí). Diante de tais fatos, urge cada vez mais a necessidade de preparação emocional e psicológica para lidarmos com tais situações, pois interagir com o próximo requer sensibilidade, bom senso e discernimento para não nos tornamos "guia para cegos" e sim, capacitarmos o consulente a enxergar a sua realidade, compreendê-la e transformá-la. A mudança é parte de um processo de conscientização; sem ela, é impossível haver melhorias, pois estaremos interminavelmente fadados a repetir padrões que exemplificam os mesmos resultados fracassados.
Abraços!

TEREZINHA ALVES LOPES - 01/07/2010 22:16:21
TEREZINHA ALVES LOPES - 01/07/2010
Gostei do seu texto Giancarlo penso e ajo desta forma.Parabéns.




Giancarlo Kind Schmid - 02/07/2010 13:13:21
Oi Terezinha,
Fiquei feliz com sua visita e o apoio à minha opinião. Obrigado.
Abraços!

Elaine Costa - 14/07/2010 01:05:21
Quero parabenizá-lo pela clareza e objetividade de seus textos.
Mantenho um distanciamento respeitoso em relação a este universo tão complexo e que permeia a história do próprio homem.Precisamos de rituais , entender o mistério ainda que através do próprio mistério que se transmuta em cartas,signos,enfim.
Prefiro crer no que diz o poeta:"Caminhante , o caminho faz-se ao caminhar."
Entretanto muitos procuram por vocês , porque estão perplexos,perdidos,fragilizados e exponencialmente mais expostos e suscetíveis de emaranhar-se ainda mais em seus medos .Cabe ao profissional sério dominar com maestria aquilo que pretende executar(em qualquer área profissional)a técnica precede o exercício , assim como a experiência facilita alguns diagnósticos.
A partir daí cabe a todo o ser humano ter a humildade para reconhecer seus limites, a tolerância para com o outro, e principalmente agir eticamente.
Em geral os que estão do "lado de cá" sejam médicos,tarólogos,juizes , ou aqueles que de certa forma são os portadores "de um saber" que o leigo desconhece, não raras vezes preferem apostar mais no "achismo"do que admitir que para aquela situação falta-lhes mais sensibilidade ,talvez até mais conhecimento ,ou simplesmente perceber que não estão " em um bom dia".
Entendermos nossa humanidade e falibilidade é um ato de boa fé e de respeito ao outro.
Infelizmente as raríssimas vezes que tive contato com esses insondáveis mistérios , só fez aumentar meu pragmatismo.
Convenhamos :lucidez,raciocínio,argumentação e coerência , certamente não são imprescíndiveis aos sábios , pelo simples fato de já serem sábios;para mim que estou bem distante da sabedoria , ainda contam muitos pontos.
Infelizmente meu lado racional ainda clama:
Convença-me!
Um grande abraço.Parabens!
Elaine

Giancarlo Kind Schmid - 17/07/2010 00:10:18
Oi Elaine,
Gostei muito de sua exposição consciente, sincera e pertinente diante de um assunto tão delicado que é o da orientação dos seres humanos. Se todos pensassem como você, certamente grande parte dos charlatões e curiosos não teriam espaço no mercado para realizar incursões perigosas, expondo a vida de quem quer que venha consultá-los. Não tiro a sua razão, quando defende-se racionalmente ao afirmar que necessita ser convencida. Talvez não seja eu a pessoa que realize o seu propósito, já houve uma época em que me preocupava imensamente em fazer as pessoas acreditarem no meu trabalho. Hoje, depois de 23 anos de atividades, me contento em ver consulentes saindo melhor do que entraram, e isso é o que verdadeiramente importa. É mais ou menos como comparar com o discurso médico - muitos afirmam categoricamente que os florais, assim como a homeopatia, trata-se de placebo. Mas, se cada paciente sair curado, isso não é o que realmente importa? Se foi a essência fitoterápica ou a cabeça do sujeito, não faz diferença. Não é o mesmo o que ocorre com as religiões? Deus ou apenas a fé do indivíduo que leva à sua melhoria? Pouco importa.
O fato é que, ao encontrarmos no tarô mais um recurso para fazer o bem e realizar o bem, isso se torna mais um ponto a favor da qualidade de vida. Sim, existem os charlatões, os pseudo gurus, os curiosos, mas não é assim também nas outras profissões? Até mesmo os profissionais que detém diplomas de doutor estão deixando a desejar.
Não devemos no preocupar com os meios, mas com o fim. Por isso apregoo cada vez mais a utilização do tarô (e outros oráculos)para fins de autoconhecimento (porque previsão, até moluscos são capazes de fazer hoje - vide o polvo alemão Paul). Não é conveniente (e sem salutar) empurrar o futuro a alguém "goela abaixo". Penso na capacitação e despertar de cada um - se isso tem algo de mágico para uns, ou de místico para outros, não faz diferença. O objetivo final é tornar alguém consciente e saudável.
Abraço!

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