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24 de maio de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


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O simbolismo do Tarô
2. A literatura dedicada ao Tarô
P. D. Ouspensky
    
    A literatura dedicada ao Tarô consiste, na sua maior parte, de uma interpretação das ilustrações simbólicas das 22 cartas. Muitos autores de livros místicos modelaram suas obras seguindo o plano do Tarô. Seus leitores, no entanto, muitas vezes nem suspeitam disso, uma vez que nem sempre o Tarô é mencionado.
    Já me referi ao livro do "Filósofo Desconhecido", Saint Martin, Tableau Naturel des Rapports qui existent entre Dieu, l'Homme et l'Univers. "É justamente no Tarô, diz um dos modernos seguidores de Saint Martin, que o Filósofo Desconhecido encontrou o misterioso elo que liga Deus, o Homem e o Universo."
    O Dogma e ritual da alta magia, de Éliphas Lévi (1853), é escrito também obedecendo ao plano do Tarô. A cada uma das 22 cartas Éliphas Lévi dedicou dois capítulos, um na primeira parte e outro na segunda. Éliphas Lévi refere-se ao Tarô em seus outros livros História da magia, A chave dos grandes mistérios, O grande arcano, e outros.
    Os comentadores do Tarô sempre se referem à História da magia, de Paul Christian (pseudônimo de Jean Baptiste Pitois, Historie de la Magie, 1870). Esse livro dá uma interpretação astrológica das 56 cartas.
    Há, além disso, livros de Guaïta com estranhos títulos alegóricos: Au seuil du mystère, Le temple de Satan, e La clef de la magie noire. O primeiro desses livros é uma introdução, o segundo é dedicado às primeiras sete cartas de 1 a 7 (das 22), o terceiro às segundas sete cartas, enquanto o quarto, que deveria ter completado esse comentário pormenorizado do Tarô, não apareceu.
    As obras de Oswald Wirth, que restaurou as cartas do Tarô e publicou, além disso, vários livros dedicados ao simbolismo hermético e maçônico, oferecem um material interessante para o estudo do Tarô.
    Em inglês há livros de A. Waite, que oferecem breves comentários sobre o Tarô tal como foi impresso na Inglaterra e fornece uma pequena bibliografia de obras sobre ele. Também se encontra algum material para o estudo do Tarô nos trabalhos de Bourgeat, Decrespe, Pickard e do tradutor inglês da Cabala, Macgregor Mathers.
    O ocultista francês, "Dr. Papus", tem dois livros especialmente dedicados ao Tarô (Tarot des bohémiens e Tarot divinaitoire). E em seus outros livros, também há numerosas referências e indicações sobre o Tarô, embora elas sejam obscurecidas por uma grande quantidade de fantasia vulgar e de pseudomisticismo.
    Naturalmente essa lista não inclui toda a literatura relacionada com o Tarô. Deve-se levar em conta também que a bibliografia do Tarô nunca pode ser completa, uma vez que a informação mais valiosa e as chaves para a compreensão do Tarô devem encontrar-se nas obras sobre Alquimia, Astrologia e Misticismo em geral, cujos autores possivelmente nem sequer pensaram no Tarô ou tampouco o mencionaram. Assim, por exemplo, para a compreensão do quadro do homem, como é apresentado pelo Tarô, a Theosophia Practica, de Gichtel século XVII) e sobretudo os desenhos desse livro, oferecem muito material. O livro de Albert Poisson, Théories et Symboles des alchimistes (1891), é útil para a compreensão dos quatro símbolos do Tarô.
    Há referências ao Tarô, nos livros de H. P. Blavatsky, tanto em A doutrina secreta* como em Isis Unveiled, e há razões para crer que Blavatsky atribuía grande importância ao Tarô. Na publicação teosófica que apareceu durante a vida de Blavatsky (Theosophical Siftings) havia dois artigos anônimos sobre o Tarô, num dos quais se dava muita ênfase ao elemento fálico contido no Tarô.
    Mas, falando de modo geral sobre a literatura a respeito do Tarô, o seu conhecimento decepciona, do mesmo modo que o conhecimento da literatura oculta e, especialmente, da teosófica, porque toda essa literatura promete demais em comparação com o que dá.
    Cada um dos livros citados contém algo interessante sobre o Tarô. Mas, ao lado do material valioso e interessante, há uma grande quantidade de tolices, que é característica de toda a literatura "oculta" em geral, isto é, há, em primeiro lugar, uma pesquisa puramente escolástica do significado da letra; em segundo lugar, conclusões demasiadamente precipitadas, encobrindo com palavras o que o próprio autor não compreendeu. passando por altos problemas difíceis, especulações incompletas, e, finalmente, uma complexidade desnecessária e construções assimétricas. Os livros do "Dr. Papus", que era, no seu tempo. o comentador mais popular do Tarô, são especialmente ricos em tudo isso.
    No entanto, o próprio Papus diz que toda a complexidade indica a imperfeição de um sistema. Afirma: "A Natureza é muito sintética nas suas manifestações, e a simplicidade se encontra na base de seus fenômenos exteriormente mais complicados". Isso é, sem dúvida, inteiramente correto, mas justamente essa simplicidade é a que falta em todas as explicações do sistema do Tarô.
    Por essa razão, mesmo um estudo suficientemente cuidadoso de todas essas obras não leva o leitor muito longe na compreensão do sistema e do simbolismo do Tarô, e não dá nenhuma indicação sobre a aplicação prática do Tarô como uma chave da Metafísica ou da Psicologia. Todos os autores que escreveram sobre o Tarô exaltaram esse sistema e o chamaram a Chave Universal, mas não ensinaram como se deve utilizar essa chave.
    Apresentarei aqui alguns extratos das obras dos autores que tentaram explicar e interpretar o Tarô e sua idéia.
     Éliphas Lévi diz, na sua obra mencionada anteriormente, Dogma e Ritual (Transcendental Magic, its Doctrin and Ritual, traduzida, anotada e com uma introdução por Arthur Edward Waite, Londres, 1923, págs. 462,479,480):
    "A chave universal das obras mágicas é a de todos os antigos dogmas religiosos, a chave da Cabala e da Bíblia, a Pequena Chave de Salomão.
    Agora, essa pequena chave, tida como perdida por séculos, foi recuperada por nós, e pudemos abrir os sepulcros do mundo antigo para fazer falar os mortos, contemplar os monumentos do passado em todo seu esplendor, compreender os enigmas de cada esfinge e penetrar em todos os santuários.
    Entre os antigos, o uso dessa chave não era permitido a não ser aos altos sacerdotes, e mesmo assim seu segredo estava reservado à nata dos iniciados...
    Agora essa era a chave em questão: um alfabeto hieroglífico e numérico, que expressava através de caracteres e números uma série de idéias universais e absolutas...
    A tétrade simbólica, representada nos Mistérios de Mênfis e Tebas pelas quatro formas da esfinge — homem, águia, leão e touro — correspondia aos quatro elementos do mundo antigo (água, ar, fogo e terra)...
    Agora esses quatro signos, com todas as suas analogias, explicam a palavra única oculta em todos os santuários... Além disso, a palavra sagrada não era pronunciada: era escrita e expressa em quatro palavras, que são as quatro palavras sagradas — Yod, He, Vau, He.
    O Tarô é uma máquina verdadeiramente filosófica, que impede que a mente vagueie, deixando, em compensação, que ela fique livre e com iniciativa: é a matemática aplicada ao Absoluto, a aliança do positivo com o ideal, uma loteria de pensamentos tão exatos como os números, talvez a concepção mais simples e grandiosa do gênio humano.
    Uma pessoa encarcerada, que não tivesse outro livro a não ser o Tarô, se soubesse como usá-lo, poderia. em poucos anos, adquirir um conhecimento universal e poderia falar de todos os assuntos com inigualável sabedoria e inesgotável eloquência."
    Paul Christian, em sua História da magia, (Histoire de la magie du monde surnaturel et de la fatalité à travers les tempo et les peuples, de P. Christian, págs. 112-113 (Paris, Fume, Jouvet & Cie., editores) descreve (referindo-se a Jâmblico) o ritual de iniciação aos Mistérios Egípcios, em que quadros semelhantes aos 22 Arcanos do Tarô representavam um papel.
    "O iniciado vê uma extensa galeria, sustentada por cariátides na forma de vinte e quatro esfinges, doze de cada lado. Em cada trecho de parede entre duas esfinges há pinturas em afresco, representando figuras e símbolos místicos. Esses vinte e dois quadros estão de frente um para o outro aos pares....
    Enquanto passa pelos vinte e dois quadros da galeria, o iniciado recebe instruções do sacerdote...
    Cada arcanum, que cada um desses quadros torna visível e tangível, é uma fórmula da lei da atividade humana em sua relação com as forças espirituais e materiais, cuja combinação produz os fenômenos da vida."
    A propósito disso, devo salientar que, no simbolismo egípcio acessível ao estudo, não há realmente qualquer vestígio das 22 cartas do Tarô. Desse modo, temos que aceitar em confiança a afirmação de Christian e admitir que, como ele diz, isso se refere às "criptas secretas no templo de Osíris", das quais não permaneceu absolutamente nenhum traço e com as quais esses monumentos egípcios que foram preservados têm pouco em comum.
    Podemos dizer o mesmo a respeito da Índia. Não há nenhum vestígio das 22 cartas do Tarô, isto é, do Arcano Maior, nas pinturas ou esculturas hindus.
    Oswald Wirth, em seu livro O simbolismo hermético,  (Le symbolisme hermétique, de O. Wirth, págs. 3840 e 83 -Publications initiatiques)  fala da linguagem dos símbolos de maneira muito interessante:
    "Sempre podemos estudar um símbolo de um número infinito de pontos de vista; e cada pensador tem o direito de descobrir no símbolo um novo significado correspondente à lógica de suas próprias concepções.
    O fato é que os símbolos se destinam justamente a despertar idéias adormecidas em nossa consciência. Eles suscitam um pensamento por meio de sugestão e, desse modo, fazem com que a verdade que permanece oculta nas profundezas de nosso espírito se manifeste.
    Para que os símbolos possam falar, é essencial termos em nós os germes das idéias, cuja revelação constitui a missão dos símbolos. Mas nenhuma revelação é possível, se a mente está vazia, estéril e inerte.
    Por essa razão, os símbolos não atraem qualquer pessoa, não falam a qualquer um. Eles frustram especialmente as mentes que pretendem ser positivas e que baseiam seu raciocínio em fórmulas científicas e dogmáticas inertes. A utilidade prática dessas fórmulas não pode ser contestada, mas, do ponto de vista filosófico, representam apenas um pensamento frio, artificialmente limitado, tomado inalterável em tal extensão que parece morto em comparação com o pensamento vivo, ilimitado, complexo e móvel, refletido nos símbolos.
    E perfeitamente claro que os símbolos não são criados para explicar o que chamamos verdades científicas.
    Pela própria natureza, os símbolos devem se manter elásticos, vagos e ambíguos, como os ditos de um oráculo. Seu papel é desvendar mistérios, deixando à mente toda a sua liberdade.
    Ao contrário das ortodoxias despóticas, um símbolo favorece a independência. Só um símbolo pode libertar o homem da escravidão das palavras e fórmulas e permitir que ele alcance a possibilidade de pensar livremente. E impossível evitar o uso de símbolos, se desejamos penetrar nos segredos (mistérios), vale dizer, naquelas verdades que podem muito facilmente ser transformadas em desilusões monstruosas, logo que as pessoas tentem expressá-las em linguagem direta, sem o auxílio de alegorias simbólicas. O silêncio imposto aos iniciados encontra nisso sua justificativa. Os segredos ocultos exigem, para sua compreensão, um esforço do intelecto; eles podem iluminá-lo interiormente, mas não podem servir de tema para argumentos retóricos. O conhecimento oculto não pode ser transmitido nem oralmente, nem por escrito. Ele só pode ser adquirido através de meditação profunda. É necessário penetrar profundamente em si mesmo a fim de descobri-lo. E aqueles que o procuram fora de si mesmos estão no caminho errado. E nesse sentido que devemos compreender as palavras de Sócrates 'Conhece-te a ti mesmo'.
    Na esfera do simbolismo não devemos tentar ser demasiadamente exatos. Os símbolos cor­respondem a idéias que, por sua própria natureza, são difíceis de abarcar, e que são completa­mente impossíveis de reduzir a definições escolásticas.
    Em última análise, a escolástica só conduz a palavras, quer dizer, a algo inteiramente artificial. Por sua própria natureza, uma palavra é um instrumento de paradoxo. Qualquer assunto pode ser defendido por meio de argumentação. Isso se passa porque nenhuma disciplina se ocupa de realidades que alcancem nossa consciência por si mesmas, mas apenas de suas representações orais, das fantasias de nosso espírito que às vezes se permite ser iludido por essa falsa moeda do nosso pensamento.
    A filosofia hermética se distingue por sua capacidade de se afastar das palavras e mergulhar na contemplação das coisas em si mesmas, em sua própria essência.
    E não há nada surpreendente no fato de que, sob essas condições. a filosofia se dividiu em duas correntes. Uma se originou na lógica de Aristóteles e manteve a possibilidade de chegar à ver­dade pelo caminho do raciocínio baseado em premissas consideradas incontestáveis.
    Essa era a filosofia oficial, ensinada nas escolas (comuns), daí o termo 'escolástica'.
    A outra filosofia seguia outra direção, sempre mais ou menos oculta, no sentido de que era sempre disfarçada em mistério e transmitida em seus ensinamentos somente sob a capa de enigmas, alegorias e símbolos. Através de Platão e Pitágoras, essa filosofia sustentava ser proveniente dos Hierofantes Egípcios e do verdadeiro fundador da ciência deles, Hermes Trismegistos, daí ser chamada 'hermética'.
    O discípulo de Hermes era silencioso, nunca discutia nem tentava convencer ninguém de coisa alguma. Fechado em si mesmo, absorvia-se na meditação profunda e, finalmente, por esse meio, penetrava nos segredos da Natureza. Ele ganhava a confiança de Ísis e entrava em relação com os verdadeiros iniciados. A gnose abria-lhe os princípios das sagradas ciências antigas, das quais se formaram gradativamente a Astrologia, a Magia e a Cabala.
    Essas ciências, oficialmente denominadas 'mortas', referem-se todas ao mesmo assunto, à descoberta das leis ocultas que governam o Universo. E diferem da ciência oficial dos processos físicos por seu caráter mais misterioso e transcendental. Essas ciências constituem a filosofia hermética.
    Essa filosofia se distingue, além disso, por nunca se ter contentado em ser puramente especulativa (teórica). Na verdade, sempre seguiu um objetivo prático, buscando resultados concretos; seu problema sempre dizia respeito ao que se chama Realização da Grande Obra."
    No livro já mencionado (A imposição das mãos, págs. 140-1), Oswald Wirth escreve sobre o mesmo assunto:
    "Uma razão especial explica por que teorias tão famosas na Idade Média e no final do século XVIII perderam o crédito aos nossos olhos. Perdemos a chave da linguagem em que essas teorias foram expressas. Temos uma forma completamente diferente de falar. No passado, as pessoas não fingiam admitir que usavam termos estritamente exatos a respeito de tudo. Elas consideravam que as aproximações eram inteiramente suficientes, porque a verdade pura era fatalmente inexprimível. A verdade ideal não se permitia ser reduzida a qualquer fórmula. Resulta disso que, num certo sentido, toda palavra é uma mentira. O lado interior do pensamento, seu espírito fundamental, nos escapa. Isso é a Divindade, que se revela continuamente e que, apesar disso, só se permite ser vista em seus reflexos. Por essa razão Moisés não pôde ver a face de Jeová.
    Disso resulta que, quando é necessário expressar idéias transcendentais, somos forçados a recorrer à linguagem figurada. E impossível fazê-lo sem alegorias e símbolos. Não é, de modo algum, uma questão de escolha; muito freqüentemente não há outro meio de nos fazermos compreender.
    Por esse motivo o Hermetismo se dirige aos pensadores que são compelidos por uma voz interior a irem ao fundo de todas as coisas e se mantêm incompreensível para aqueles que se detêm no significado externo das palavras.
    S. Guaïta diz em seu livro No limiar do mistério:
    "Encerrar toda a verdade na linguagem falada, expressar os mais altos mistérios ocultos num estilo abstrato, seria não só inútil, perigoso e sacrílego, mas impossível. Há verdades de ordem sutil, sintética e divina, que a linguagem humana é incapaz de traduzir em toda a sua inviolável perfeição. Só a música pode algumas vezes fazer a alma senti-las, só o êxtase pode mostrá-las numa visão absoluta, e só o simbolismo esotérico pode revelá-las ao espírito de maneira concreta."  (Au seud du mystère, de Stanislas de Guaïta, Georges Carré, editor, Paris, 1890, págs. 176-177).
    
fev.09
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