Home page

18 de agosto de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


As Espadas de Crowley
Um estudo das cartas numeradas do naipe de Espadas do Thoth Tarot
Emanuel J Santos
 
Após refletir sobre as cartas numeradas do naipe de Espadas dos baralhos clássicos e do Tarô de Waite, faltaria lidar com o baralho desenvolvido por Frieda Harris e Aleister Crowley. Esse baralho foi o que maiores questionamentos despertou, pela natureza da sua elaboração e pelo resultado final obtido pela iconografia proposta.
Capa do Livro de Thoth
 
Sabe-se, hoje, que não é necessário estudar astrologia, cabala ou ciências afins para desenvolver um trabalho adequado com o Tarô; contudo, deixar de lado essas disciplinas ao estudarmos esse baralho é empobrecer a leitura, já que o desenvolvimento dessas imagens observou claramente tais disciplinas. Diferenciemos, portanto, o estudo do Tarô, do estudo iconográfico. O primeiro dispõe a entender a proposta adivinhatória decorrente de um arranjo simbólico específico. A segunda visa o reconhecimento das intencionalidades do(s) autor(es) cujo resultado final é uma obra de arte. Proponho a segunda, tendo em vista a compreensão da primeira.
Já tendo escrito um estudo¹ sobre a natureza desse baralho e contando com excelentes resenhas no Clube do Tarô² não me estenderei nesses assuntos:
(1): www.conversascartomanticas.blogspot.com.br/2011/01/Taro_Thoth_Crowley_Harris
(2): Compilação de Constantino Riemma: O Tarô de Aleister Crowley
       e o texto de Cláudio Carvalho: Tarô de Crowley-Harris ou Tarô de Thoth.
 
O Tarô de Thoth pode ser adquirido na loja virtual especializada em
produtos esotéricos e parceira do Clube do Tarô: www.simbolika.com.br
 
Sugiro a leitura dos artigos supracitados para maior apreensão do presente texto. Da mesma forma, não me proponho a oferecer interpretações para as lâminas, já que dispus minhas interpretações pessoais no primeiro texto dessa trilogia: O Peso da Espada - Tarô Waite-Smith e Das Cimitarraa Bastardas - tarô clássico.
Para ler as imagens das Espadas do Thoth Tarot
Se, em relação aos baralhos clássicos, concentramo-nos na presença ou não das espadas bastardas dialogando com as cimitarras e, no tarô de Waite, observamos a presença das pontas,  no Thoth Tarot  deveríamos nos concentrar,  sobretudo, nas cores e formas.  Esses
Aleister Crowley   Frieda Harris
Aleister Crowley e Frieda Harris
in  www.oxygenee.com  e  www.tarokki.fi
 
dois elementos, magistralmente empregados por Frieda Harris, sintetizam a proposta visual do idealizador, conforme apresentada em sua literatura, em especial no livro 777.
A proposta iconográfica do Thoth Tarot sintetiza as duas anteriormente apresentadas, no sentido em que voltamos a ter as quantidades como senhoras da cena (como nos baralhos clássicos), ainda que existam elementos e atributos que dialoguem diretamente com o significado proposto para a lâmina (como no Waite-Smith). Além disso, para cada uma das cartas numeradas duas atribuições tornam-se evidentes: um título para as cartas e uma atribuição astrológica, excetuando os Ases.
Comecemos, portanto, pelo diferencial dessas lâminas.
Algumas ressalvas se fazem importantes. O título, apesar de ser inicialmente um auxílio interpretativo importante, funcionando como uma palavra-chave, empobrece a leitura se não correlacionarmos o título à imagem em si. Da mesma forma, a atribuição astrológica proposta, relacionada a cada um dos decanatos do zodíaco e, nesse caso específico, dos signos de Ar (Libra, Aquário e Gêmeos),  pode empobrecer a leitura, se for considerada um atributo principal e não um auxílio ao entendimento da iconografia. Lembremo-nos que, em relação ao Tarô, a imagem é sempre soberana. Rearranjos são propostos, títulos são propostos, numerações, atribuições. Mas é a imagem que é identificadora da experiência do Arcano, sobremaneira.
As cartas numeradas do naipe de Espadas
A divisão das cartas numeradas segue o seguinte padrão: aos 2, 3 e 4 de cada naipe corresponde o signo cardeal do elemento correspondente. Nesse caso, o 2, o 3 e o 4 de Espadas são regidos por Libra. Aos 5, 6 e 7 correspondem os signos fixos, nesse caso a Aquário e aos 8 9 e 10 os signos mutáveis, sendo nesse caso Gêmeos. A cada carta corresponde uma regência planetária, dialogante com a natureza do decanato.
Ás de Espadas no Thoth Tarot de Crowley       Dois de Espadas no Thoth Tarot de Crowley       Três de Espadas no Thoth Tarot de Crowley
O Ás, o Dois e o Três de Espadas no Thoth Tarot de Aleister Crowley e Frieda Harris
Ás de Espadas. A Raiz dos Poderes do Ar.
Nessa carta, a proposta seria sintetizar, já que o Ás representa início e síntese, a essência do que representa essa triplicidade. Nuvens se abrem num amanhecer dourado e uma espada, em cuja lâmina está escrito Thelema (Vontade, em grego), atravessa uma coroa de 22 Raios, externamente prateados e internamente dourados.
Dois de Espadas. Paz. Lua em Libra.
Duas espadas prateadas, em cujas empunhaduras veem-se dois anjos ajoelhados em oração, cruzam-se atravessando uma rosácea azul. O fundo da lâmina é composto por um degradée que vai do amarelo ao verde.
Três de Espadas. Dor. Saturno em Libra.
Num fundo negro e agressivo como nuvens de tempestade, a espada presente no Ás e mais duas cimitarras de metal escuro tocam uma rosa que se despetala. Na espada correspondente àquela do Ás, contudo, não há nada escrito na lâmina. A escuridão da imagem é intensa.
Quatro de Espadas no Thoth Tarot de Crowley       Cinco de Espadas no Thoth Tarot de Crowley       Seis de Espadas no Thoth Tarot de Crowley
O Quatro, o Cinco e o Seis de Espadas no Thoth Tarot de Aleister Crowley e Frieda Harris
Quatro de Espadas. Trégua. Júpiter em Libra.
Uma rosácea violeta, de quarenta pétalas – 16 internas e 24 externas – é tocada em seu centro por quatro espadas de natureza semelhante e empunhadura diferente. A imagem é envolvida por uma estrutura cruciforme verde, de tom semelhante àquele utilizado para o fundo do Dois. O fundo dessa carta é azul e dourado.
Cinco de Espadas. Derrota. Vênus em Aquário.
Um pentagrama invertido é formado por cinco espadas, sendo quatro curvas e uma reta, que está aparentemente lascada em sua lâmina. Cada uma delas possui uma empunhadura curiosa: em sentido horário, partindo da espada inferior e reta, temos uma coroa, uma serpente, um peixe, uma rosa em botão, uma concha (ou chifre). As ligações entre os ângulos do pentagrama são formadas por pétalas de rosa. O fundo é formado por tons de magenta, azul e verde.
Seis de Espadas. Ciência. Mercúrio em Aquário.
Uma cruz dourada, formada por seis quadrados devidamente dispostos, possui em seu centro uma rosa vermelha de seis pétalas que é tocada por seis espadas de lâminas idênticas e empunhaduras razoavelmente semelhantes. De cima para baixo em sentido horário, temos uma empunhadura dourada, uma prateada, uma azulada, uma escurecida, uma avermelhada e uma de um tom mais profundo de azulado. Levando-se em consideração que as duas primeiras são de cores metálicas, supõe-se que as seguintes também representem metais específicos. O conjunto é envolvido por um círculo inserido em um quadrado. Tons de azul, cinza e amarelo compõem o fundo.
Sete de Espadas no Thoth Tarot de Crowley       Oito de Espadas no Thoth Tarot de Crowley       Nove de Espadas no Thoth Tarot de Crowley
O Sete, o Oito e o Nove de Espadas no Thoth Tarot de Aleister Crowley e Frieda Harris
Sete de Espadas. Futilidade. Lua em Aquário.
Num belíssimo fundo azul-celeste, uma espada ereta, em cuja empunhadura vemos o símbolo astrológico do sol, é partida em diversos pontos por outras seis espadas, cujas empunhaduras representam os demais seis planetas da astrologia tradicional (da esquerda para direita: Saturno, Vênus, Marte, Júpiter, Mercúrio e Lua). As espadas são de metal arroxeado.
Oito de Espadas.Interferência. Júpiter em Gêmeos.
Num fundo agressivo em roxo profundo e nuances de vermelho, duas espadas idênticas, apontando verticalmente para baixo, sobrepõe-se sobre outras seis em posição horizontal (de cima para baixo): “o Cris (Filipinas), o Kukri dos Gurkas do Nepal, o Scrama-sax de origem germânica, a Adaga, o Machete (facão latino-americano) e o Yatagan (sabre turco)” . Apesar de possuírem naturezas diferentes, o material das lâminas e das empunhaduras aparenta ser o mesmo.
Nove de Espadas.Crueldade. Marte em Gêmeos.
Num fundo metálico e escuro na base, nove espadas idênticas, de tamanhos diferentes, relativamente gastas pelo uso, gotejam sangue. Suas empunhaduras são vermelhas e brilhantes, destoando do estado das lâminas. Entre as espadas, gotas – que poderiam ser de suor ou lágrimas – compõem o cenário.
Dez de Espadas no Thoth Tarot de Crowley
Dez de Espadas
 
Dez de Espadas. Ruína. Sol em Gêmeos.
Num fundo avermelhado, dez espadas são dispostas na estrutura da Árvore da Vida cabalística. A espada central, representando Tiphareth, emana luz e está envolta num halo amarelo, possui como empunhadura um coração vermelho e é feita em pedaços pelas demais espadas, com exceção daquela representante de Malkuth. Tendo por referência as Sephiroth que compõem a Árvore da Vida, temos as seguintes empunhaduras:
Malkuth. A empunhadura é formada pelo signo de Gêmeos, uma lua crescente voltada para cima e um pentagrama com a ponta voltada para cima.
Yesod. Uma forma curiosa, difícil de descrever, formada por uma esfera cornuda.
Hod e Netzach. Estrelas de quatro pontas com esferas.
Geburah e Hod. Cruzes de braços iguais formadas por quadrados e círculos.
Kether. Uma balança, coroada pelo Sol.
Binah e Chockmah. Algo semelhante a compassos sobre ampulhetas.
Conclusão
Descrever as imagens, como proponho aqui, tem um efeito claramente provocativo. Observe seu baralho. Leia as imagens, não se preocupando com significados, imediatamente. Leia a imagem. Tente entender o porquê daquele título e daquela atribuição. Esse é um baralho cujos detalhes compõem o todo, e não o contrário; em que cada forma, cada cor, cada textura e cada atribuição foi cuidadosamente pensada para ser uma compilação de todo o conhecimento proposto para o Tarô até sua elaboração. Se a artista e o idealizador obtiveram seu intento, não sei; suponho, inclusive, não ser esse o cerne da questão. Quando nos dispomos a estudar o Tarô, temos como prerrogativa que não existe baralho superior ou inferior, desde que respeite os limites simbólicos propostos para cada uma das lâminas.
Sei, contudo, que esse é um baralho para ser estudado por uma vida, e a isso me proponho.
E não estou falando só da minha provocação em relação às dez cartas numeradas de Espadas.
 
Bibliografia consultada
HEYSS, Johann. O Tarô de Thoth: um guia para consultar o oráculo de Aleister Crowley. Rio de Janeiro: Record: Nova Era: 2000.
KAPLAN, Stuart. R. Tarô Clássico. Tradução de Maio Miranda. São Paulo: Pensamento, 2003.
RAMAD, Veet. Curso de Tarô e seu uso terapêutico. São Paulo: Madras, 2004.
ZIEGLER, Zerd. Tarô espelho da alma: manual para o tarô de Aleister Crowley. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, s/d.
 
maio.12
Emanuel J Santos - Historiador e Cartomante
Responsável pelo blog Conversas Cartomânticas:
www.conversascartomanticas.blogspot.com

Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
Publicidade Google
 
Todos os direitos reservados © 2005-2016 por Constantino K. Riemma  -  São Paulo, Brasil