Responsável: Constantino K. Riemma
 
08 de setembro de 2010
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Profissionalização: resposta ao Eduardo
 
 
Por
Constantino K. Riemma
 
    
    O tema da formação profissional do tarólogo, que mereceu a colaboração de vários estudiosos, foi colocado inicialmente por uma mensagem de Eduardo Santos encaminhada, em março de 2008, via Clube do Tarô.
A mensagem do Eduardo
    Bom dia,
    há algum tempo recebo e-mails do Clube do Tarô e sou muito grato. Acredito que o site é o mais completo que já tenha visto, meus parabéns.
    Desculpe a minha pergunta, mas sempre tive curiosidade sobre a profissão de Tarólogo. Há 2 anos eu estudo simbolismo, faço cursos e leituras para amigos, mas sempre senti vontade de trabalhar com isso e gostaria de tirar algumas dúvidas.
    Gostaria de saber como foi que o Sr. começou a trabalhar com o Tarô, se começou em casa, ou em alguma clínica holística, enfim como é trabalhar com o Tarô, se é difícil etc... o que devo ter em mente, etc...
    Como não conheço ninguém nessa área, antes de começar gostaria de um opinião ou um conselho a respeito.
    Enfim, muito obrigado por sua atenção.
    Abraços
    Eduardo   
Resposta ao Eduardo
    Conheci no correr dos anos os mais diferentes relatos sobre os trajetos pessoais de aproximação às cartas e sua utilização prática.
    É comum a história de moças que começam a brincar de cartomante com amigas na adolescência e depois estabelecem uma relação mais séria: ou estudam com profissionais mais experientes em cursos oferecidos para grupos ou recebem orientação direta e pessoal de alguma cartomante mais velha e experiente, não raro alguém da família, tias ou avós.
    Outro caminho de aproximação é o da curiosidade pelas mancias, por vezes instigada pelas consultas com cartomantes ou tarólogos.
    É muito comum a pessoa deparar-se com um intervalo ou um "abismo" entre o estudo dos significados das cartas e o começar a "tirar a sorte" ou "ler as cartas" para os outros. E aí pesa decisivamente os valores e as referências éticas de cada um. Já vi de tudo:
- gente que leva muito à serio a "magia" envolvida nas cartas e tem medo de consultar tanto para si próprio como para os amigos;
- mas há aqueles que têm uma certa naturalidade na relação com as cartas, com as mancias, e se exercitam de modo livre e lúdico para si mesmos e para os amigos;
-

outros consideram o atendimento como tarefa que exige preparação metódica e por isso buscam auto-conhecimento, formação psicológica e aconselhamento;

- e já deparamos com outros que vêem as cartas como caminho para ganhar dinheiro fácil e prestígio; fazem um marketing pessoal com todos os ingredientes de "propaganda enganosa".
    Tenho muitos amigos e conhecidos terapeutas, com formação em psicologia, pedagogia, que utilizam o tarô como linguagem simbólica, como instrumento de análise projetiva e de aconselhamento. São bons profissionais e professores, mas uma parte deles evita se expor publicamente quanto à utilização de linguagens simbólicas, seja por reserva, seja por cautela contra mal-entendidos.
Um breve relato
    Para não fugir às questões diretas e pessoais que você colocou, posso contar que durante a minha juventude até o final dos meus estudos universitários fui cético com relação às mancias; as raras experiências que tive com cartomantes e videntes foram inócuas.
    Minha atitude de incredulidade foi modificada quando, depois dos 30 anos descobri o I Ching, que provou funcionar maravilhosamente na prática e sem a menor necessidade de intermediários. A seguir, fui surpreendido por um período de dois anos de sensitividade em que "adivinhava" os signos das pessoas; essa vivência totalmente inesperada fez com que a astrologia, que parecia uma tolice de jornal, fosse validada na carne. Com essa prova e estímulo, passei a estudar os astros do ponto de vista simbólico.
    Perto dos 40 anos, com uma boa experiência pedagógica acumulada no trabalho profissional com grupos e com o aconselhamento individual, passei a recorrer ao I Ching como linguagem de apoio. Na seqüência, com o amadurecer da compreensão astrológica, dei um passo além das leituras de mapas e trânsitos que fazia gratuitamente aos amigos: iniciei, formando dupla com uma grande amiga, o atendimento remunerado. Só então me surgiram condições e estímulos para iniciar o estudo regular do Tarô. Com a parceria de uma outra grande amiga estudamos vários autores mais consistentes e abrangentes que poderiam transcender o receituário limitado de boa parte dos manuais de cartomancia. Montamos um grupo de estudo e convidávamos tarólogos para demonstrarem como trabalhavam com as cartas.
    Gradativamente comecei a incluir o Tarô no final das consultas astrológicas, depois de examinado o mapa natal e os trânsitos. A essa altura, o cliente não estava mais esperando um adivinho para revelar o futuro e podíamos utilizar o tarô como um instrumento para validar, em outra linguagem, o que já havia sido trabalhado com a astrologia. Foi então que as cartas revelaram para mim seu caráter operacional e uma série de nuances de significados consistentes, tanto para o aconselhamento como para os prognósticos. Ganhei confiança, por fim, após um longo percurso.
Em suma
    Se olhar impessoalmente para o momento em que vivemos posso dizer a você, Eduardo, que evidentemente não existe roteiro pré-determinado para trabalhar com o Tarô.
    Pelo que entendi de sua mensagem, você se encontram num bom rumo. Estuda o Tarô e pratica com os amigos. É o caminho que recomendo, pois dos amigos podemos ter um retorno ao ouvir seus comentários, acompanhar o resultado das leituras e corrigir nossos vieses de interpretação. A prática e a confrontação com a realidade são grandes recursos para amadurecer nossa experiência de utilização das linguagens simbólicas.
    Para um trabalho sério de prognósticos e aconselhamento estou convencido da importância de bases mais amplas, seja o estudo da psicologia, seja o dos ensinamentos tradicionais, que ajudam a ampliar nosso olhar além das identificações e banalidades em que nos perdemos no dia-a-dia. São pilares indispensáveis para dar consistência de apreciação, inclusive àqueles que têm dons paranormais ou que podem ser designados médiuns. Tais talentos inatos, quando dirigidos pela subjetividade, pela imaturidade, e temperados pelo orgulho podem dar resultados lamentáveis e equivocados.
    Sempre brinco com os meus amigos psicólogos que não dá para ser um bom terapeuta antes dos 40. E todos reconhecem que uma certa maturidade só se alcança com o tempo, com a sucessão de experiências.
    Como você poderá conferir com os depoimentos de outros tarólogos que estão respondendo indiretamente a você com os textos que reunimos nesta oportunidade, não existem regulamentações exteriores para o caminho a percorrer. As alternativas possíveis dependem de nossas disposições, dos valores que nos dirigem e da qualidade de nossas aspirações.
maio.08
Contato com a autor
Constantino - constantino@clubedotaro.com.br
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