Home page

15 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Profissionalização: resposta ao Eduardo
 
Constantino K. Riemma
 
    
O painel A Profissão do Tarólogo, que mereceu a colaboração de vários profissionais, foi provocado por uma mensagem de Eduardo Santos encaminhada em março de 2008.
A mensagem do Eduardo
Bom dia, há algum tempo recebo e-mails do Clube do Tarô e sou muito grato. Acredito que o site é o mais completo que já tenha visto, meus parabéns.
Desculpe a minha pergunta, mas sempre tive curiosidade sobre a profissão de Tarólogo. Há dois anos eu estudo simbolismo, faço cursos e leituras para amigos, mas sempre senti vontade de trabalhar com isso e gostaria de tirar algumas dúvidas.
Gostaria de saber como foi que o Sr. começou a trabalhar com o Tarô, se começou em casa, ou em alguma clínica holística, enfim como é trabalhar com o Tarô, se é difícil etc... o que devo ter em mente, etc...
Como não conheço ninguém nessa área, antes de começar gostaria de um opinião ou um conselho a respeito.
Enfim, muito obrigado por sua atenção.
Abraços do Eduardo  
Resposta
Ouvi no correr dos anos os mais diferentes relatos sobre os trajetos pessoais de aproximação às cartas e sua utilização prática.
É comum a história de moças que começam a brincar de cartomante com amigas na adolescência e depois estabelecem uma relação mais séria: ou estudam com profissionais mais experientes em cursos oferecidos para grupos ou recebem orientação direta e pessoal de alguma cartomante mais velha e experiente, não raro alguém da família, tias ou avós.
Outro caminho de aproximação é o da curiosidade pelas mancias, por vezes instigada pelas consultas com cartomantes ou tarólogos.
Nos cursos de iniciação ao tarô é muito frequente deparar-me com pessoas que se encontram num intervalo ou um "abismo" entre o estudo dos significados das cartas e a prática de "tirar a sorte" ou "ler as cartas" para os outros. E aí pesa decisivamente os valores e as referências éticas de cada um. Já vi de tudo:
- gente que leva muito à serio a "magia" envolvida nas cartas e tem medo de consultar tanto para si próprio como para os amigos;
- mas há aqueles que têm uma certa naturalidade na relação com as cartas, com as mancias, e se exercitam de modo livre e lúdico para si mesmos e para os amigos;
- outros consideram o atendimento como tarefa que exige preparação metódica e por isso buscam auto-conhecimento, formação psicológica e aconselhamento;
- e já deparamos com outros que vêem as cartas como caminho para ganhar dinheiro fácil e prestígio; fazem um marketing pessoal com todos os ingredientes de "propaganda enganosa".
Tenho muitos amigos e conhecidos terapeutas, com formação em psicologia, pedagogia, que utilizam o tarô como linguagem simbólica, como instrumento de análise projetiva e de aconselhamento. São bons profissionais e professores, mas uma parte deles evita se expor publicamente quanto à utilização de linguagens simbólicas, seja por reserva, seja por cautela contra mal-entendidos.
Um breve relato
Para não fugir às questões diretas e pessoais que você colocou, posso contar que durante a minha juventude até o final dos meus estudos universitários fui cético com relação às mancias; as raras experiências que tive com cartomantes e videntes foram inócuas ou decepcionantes.
Minha atitude de incredulidade foi modificada quando, depois de ter completado 30 anos descobri o I Ching, que provou funcionar maravilhosamente na prática e sem a menor necessidade de intermediários. A seguir, fui surpreendido por um período de dois anos de sensitividade em que "adivinhava" os signos das pessoas; essa vivência totalmente inesperada fez com que a astrologia, que parecia uma tolice de jornal, fosse validada na carne. Com essa prova e estímulo, passei a estudar os astros do ponto de vista simbólico.
Perto dos 40 anos, com uma boa experiência pedagógica acumulada no trabalho profissional com grupos e com o aconselhamento individual, passei a recorrer ao I Ching como linguagem de apoio. Na seqüência, com o amadurecer da compreensão astrológica, dei um passo além das leituras de mapas e trânsitos que fazia gratuitamente aos amigos: iniciei, formando dupla com uma grande amiga, o atendimento remunerado. Só então me surgiram condições e estímulos para iniciar o estudo regular do Tarô. Com a parceria de uma outra grande amiga estudamos vários autores mais consistentes e abrangentes que poderiam transcender o receituário limitado de boa parte dos manuais de cartomancia. Montamos um grupo de estudo e convidávamos tarólogos para demonstrarem como trabalhavam com as cartas.
Gradativamente comecei a incluir o Tarô no final das consultas astrológicas, depois de examinado o mapa natal e os trânsitos. A essa altura, o cliente não estava mais esperando um adivinho para revelar o futuro e podíamos utilizar o tarô como um instrumento para validar, em outra linguagem, o que já havia sido trabalhado com a astrologia. Foi então que as cartas revelaram para mim seu caráter operacional e uma série de nuances de significados consistentes, tanto para o aconselhamento como para os prognósticos. Ganhei confiança, por fim, após um longo percurso.
Em suma
Se olhar impessoalmente para o momento em que vivemos posso dizer a você, Eduardo, que evidentemente não existe roteiro pré-determinado para trabalhar com o Tarô.
Pelo que entendi de sua mensagem, você se encontra num bom rumo. Estuda o Tarô e pratica com os amigos. É o caminho que recomendo, pois dos amigos podemos ter um retorno ao ouvir seus comentários, acompanhar o resultado das leituras e corrigir nossos vieses de interpretação. A prática e a confrontação com a realidade são grandes recursos para amadurecer nossa experiência de utilização das linguagens simbólicas.
Para um trabalho sério de prognósticos e aconselhamento estou convencido da importância de bases mais amplas, seja o estudo da psicologia, seja o dos ensinamentos tradicionais, que ajudam a ampliar nosso olhar além das identificações e banalidades em que nos perdemos no dia-a-dia. São pilares indispensáveis para dar consistência de apreciação, inclusive àqueles que têm dons paranormais ou que podem ser designados médiuns. Tais talentos inatos, quando arrastados pela subjetividade, pela imaturidade, e temperados pelo orgulho podem dar resultados lamentáveis e equivocados.
Sempre brinco com os meus amigos psicólogos que não dá para ser um bom terapeuta antes dos 40. E todos reconhecem que uma certa maturidade só se alcança com o tempo, com a sucessão de experiências.
Confira os depoimentos de outros tarólogos que estão respondendo indiretamente a você com os textos que reunimos no painel sobre a Profissão do Tarólogos. Cartomancia, astrologia e atividades similares são consideradas ocupações informais e que, assim, não exigem regulamentações para a sua preparação e exercício. As alternativas possíveis dependem de nossas disposições, dos valores que nos dirigem e da qualidade de nossas aspirações.
maio.08
Contato com a autor
Constantino - contato-ct@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
Publicidade Google
 
Todos os direitos reservados © 2005-2018 por Constantino K. Riemma  -  São Paulo, Brasil