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13 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


  Lygia e Tarot - tópicos : Arcanos maiores | Naipe de Paus | Copas | Ouros | Espadas  
Lygia Fagundes Telles e os Caminhos do Tarot
O Naipe de Ouros
Cláudia Ferrari
Ás de Ouros no Universal Waite Tarot
 
Ás de Ouros - Recompensa
A medalha. O Ás de Ouros é a carta da compensação e da gratificação. Geralmente é representada por uma moeda, uma medalha dourada. No conto A Medalha, na noite anterior ao seu casamento, Adriana chega tarde em casa e é surpreendida por sua mãe que a chama de anã de pescoço curto, que enxovalha a família de seu pai e diz que tem pena do noivo com quem ela irá se casar. Depois, presenteia a filha com uma medalha que foi de sua avó dizendo que espera que a medalha não enegreça em seu pescoço. Como recompensa a essas palavras, Adriana amarra a medalha no pescoço do gato para mostrar à mãe que palavras cortantes também tem o poder de cortar os laços familiares. A lição da medalha e da moeda é a lei do retorno, seja ele positivo ou não. Tudo que vai, volta.
<-- Ás de Ouros no Universal Waite Tarot
Dois de Ouros - Mudança
Uma noite a Fernanda virou um cartão-postal. O Dois de Ouros é a carta da metamorfose, da transmutação. Sua energia é representa por duas moedas de pesos diferentes que, em algum momento, trarão desequilíbrio a uma situação. No conto Eu Era Mudo e Só, o narrador Manuel é casado com a espetacular Fernanda, uma mulher primorosa em todos os sentidos. Ao longo de doze anos, Manuel vai se “apoltronando” neste casamento e se deixando conduzir, a ponto de perder até mesmo o prazer de ter um pensamento autônomo, pois a mulher antecipadamente a tudo compreendia e adivinhava. No decorrer da trama, Manuel toma as rédeas de seus pensamentos, se imagina num navio indo embora pra bem longe e levando a esposa no bolso, na forma de um cartão-postal que pode ser rasgado e atirado ao mar, pois nada é tão livre como o vento do mar! A lição deste conto e desta carta é o poder transformador que possuímos. Para dar um passo adiante e se desvencilhar de uma situação indesejada, é só uma questão de se mexer.
Três de Ouros - Parceria
Aninha. O Três de Ouros é a carta da sociedade representada por três moedas douradas. No conto Tigrela, Aninha é a empregada, velha e feia, que Tigrela, a tigresa que vive com Romana, aceita para trabalhar no apartamento. A tigresa permitia, inclusive, que Aninha lhe aparasse as unhas. Tigrela e Aninha guardavam uma certa distância, mas se respeitavam. Romana é a dona da casa e a narradora da história e mantém com a empregada uma relação de parceria no que diz respeito à tigresa, ainda que tivesse tido um pouquinho de trabalho para convencer Aninha de que Tigrela era apenas um tigre desenvolvido. Aninha sabia exatamente tudo que se passava na casa, mas a ela não foi dada a voz narrativa para nos contar. Assim, neste lindo apartamento branco, estilo mediterrâneo, Tigrela, Romana e Aninha são as três moedas douradas e a lição aqui é dar as mãos. União acima de tudo. E silêncio quando necessário.
Cartas de 2 a 5 do naipe de Ouros no Universal Waite Tarot
Cartas 2 a 5 no Naipe de Ouros do Universal Waite Tarot
Quatro de Ouros - Possessividade
Luisiana. O Quatro de Ouros tem energia de absolutismo e geralmente representa alguém que quer ser o centro das atenções e que está escondendo muitos tesouros sem querer dividi-los. Luisiana, no conto Apenas Um Saxofone, é uma mulher de meia idade que gosta de beber e que juntou muito dinheiro. Seu desejo de querer comprar tudo dá a impressão de que, se Ana Clara do romance As Meninas tivesse alcançado a idade madura e enriquecido, seria a própria Luisiana em outro corpo. Esse desejo de posse, entretanto, não supre em Luisiana o mais importante, que era a companhia de Xenofonte, o amante saxofonista que vivia com ela num quartinho com tapete de juta e gravuras de Fra Angélico. A lição deste conto e desta carta é não deixar que se vá, em meio ao deslumbramento, o que nos é mais caro e não deixar que os bens materiais sejam mais importantes que nossa alma.
Cinco de Ouros - Ansiedade
Tatisa. O Cinco de Ouros é uma carta que possui uma energia difícil. Geralmente é representada por figuras tentando realizar algo ansiosamente, mas também enfrentando muita dificuldade. Antes do Baile Verde, é um conto que possui esta energia de dificuldade e ansiedade. Tatisa está com a empregada em seu quarto, atrasada para o Baile Verde, com a fantasia de lantejoulas pela metade por terminar, porejando de suor e com o pai morrendo no quarto ao lado. A condição aqui é atravessar rapidamente esta morte e a ansiedade de sair correndo para não presenciar o fato, como se isso amenizasse a situação. Aqui faço um paralelo com o conto Nada de Novo na Frente Ocidental, pois enquanto Tatisa, no Baile Verde, quer avançar o tempo para não presenciar a morte de seu pai, a narradora do outro conto quer atrasar o tempo para não vivenciar a mesma situação. Enquanto uma quer esticar o tempo para a frente e a outra quer puxá-lo para trás, a lição aqui é a coragem e saber enfrentar de cabeça erguida aquelas situações das quais não há como escapar. Se a gente corre, as lantejoulas da fantasia correm atrás.
Seis de Ouros - Generosidade
Cordélia. A energia do Seis de Ouros é representada por um nobre dando esmolas a um pobre. Cordélia é a filha mais jovem que, na peça Rei Lear de William Shakespeare, recusa-se a vender elogios ao seu pai porque seus sentimentos profundos e verdadeiros por ele valiam mais do que as terras que ela herdaria em troca de suas adulações. Cordélia de Lygia, no romance As Horas Nuas, faz paralelo tanto à Cordélia de Shakespeare quanto à proposta do seis de ouros. Numa obra em que a sede da mocidade faz o mais velho sempre sugar o mais novo na ânsia de alguns anos de seiva, como Lygia expressa no romance Verão no Aquário, numa obra em que os velhos e os jovens se estranham, competem e se afrontam de maneira cruel, Cordélia é a personagem que dá esmolas. Ela é nobre, jovem e generosa e gosta da companhia dos velhos. O toque de aspereza neste caso é dado por Rosa Ambrósio, a mãe de Cordélia que narra a história e abomina o envolvimento da filha com esses velhos. A generosidade é a lição desta personagem e desta carta. E, levando em consideração a obra inteira da autora, esse compartilhar da mocidade é um ato supremo de bondade. Cordélia, tanto a de Shakespeare quanto a de Lygia, é “personagem-coração” - como seu próprio nome sugere.
Cartas de 6 a 9 do naipe de Ouros no Universal Waite Tarot
Cartas 6 a 9 no Naipe de Ouros do Universal Waite Tarot
Sete de Ouros - Frustração
Gaby. A energia do Sete de Ouros é de frustração. Esta carta é representada por um agricultor diante de uma colheita mal sucedida. No conto Gaby, Gabriel é um jovem pintor que vive à custa de uma senhora idosa. Com a mesma aridez de um solo impróprio para o plantio, Gabriel se esquiva o tempo todo da companhia desta velha e nunca consegue terminar nenhum dos quadros que começa a pintar, sempre sobre o mesmo tema: natureza-morta. Em sua alma de agreste, misturam-se lembranças do lar desestruturado de seus pais, da importância que teve a sua babá, da jovem que eventualmente um dia ele amou e dos desejos de derreter com ácido a sua velha patrocinadora. Caberia numa caixinha de fósforos mas ficaria o rombo na banheira, fazer o que? A lição deste arcano e deste conto é de ponto morto: a pausa e o recuo que em certos momentos são fundamentais para que a alma e o solo possam ser fertilizados e encontrem uma nova direção.
Oito de Ouros - Construção
Vera e Kalina. O oito de ouros possui energia de elaboração e edificação. Esta energia é representada por um grupo construindo uma fortaleza. No conto Negra Jogada Amarela, Vera é a menina frágil com quem Kalina brinca de amarelinha. Na idade adulta Vera percebe que as regras daquele jogo servem também para os jogos afetivos. Observa-se então que a sagacidade para conseguir se virar na vida é construída a partir das normas de um jogo infantil. A lição do conto e da carta é observar que, para não ruírem, os projetos devem ser elaborados desde a base.
Nove de Ouros - Abundância
O círculo social e o círculo dos perguntadores. Com energia de opulência e fatura, o Nove de Ouros geralmente é representado por um burguês contando suas moedas. No conto A Chave, a autora menciona um círculo social que deveria haver no inferno, um bando de engravatados condenados a dizer e ouvir besteiras por toda a eternidade. No conto A Sauna, ela menciona um outro círculo que também deveria existir no inferno. O círculo dos perguntadores. “Seu nome? Sua idade? Massagem ou ducha? Fogueira ou forca?” Um sistema de entrevistas. Perguntas. Esta abundância de futilidade mencionada nos dois contos nos mostra que tudo que é demais e superficial enjoa. Esta é a lição deste arcano e destes dois profusos grupos sociais.
Dez de Ouros - Proteção
O fio dental. A energia do Dez de Ouros está associada à ajuda, ao amparo, ao apoio, e esta carta é representada por dez moedas de ouro. No conto Noturno Amarelo, presenciamos Laurinha e Fernando com o carro parado à noite, sem gasolina. Enquanto ele repõe a gasolina, ela faz um balanço de sua vida e do erro de cálculo ao ter trocado Rodrigo, seu grande amor, por Fernando, o atual companheiro. A falsa ideia de segurança neste contexto é representada pela imagem de um fio dental. “Se ao menos ele não fizesse aquela voz para perguntar se por acaso alguém tinha levado a sua caneta. Se por acaso alguém tinha pensado em comprar um novo fio dental, este estava no fim. Não está, respondi, é que ele se enredou lá dentro, se a gente tirar esta plaqueta (tentei levantar a plaqueta) a gente vê que o rolo está inteiro mas enredado e quando o fio se enreda desse jeito, nunca mais!, melhor jogar fora e começar outro rolo. Não joguei. Anos e anos tentando desenredar o fio impossível, medo da solidão? Medo de me encontrar quando tão ardentemente me buscava?” A lição da carta e do conto é que a segurança e a proteção que buscamos nos outros, devemos encontrar em nós mesmos, porque esta é a única que é verdadeira.
 
Carta 10 do naipe de Ouros no Universal Waite Tarot
Dez de Ouros
Universal Waite Tarot
Pajem/Princesa de Ouros - Praticidade
Lorena. A princesa de ouro é uma jovem prática. Esta é a Lorena, uma das três narradoras do romance As Meninas. Pertencente a uma família tradicional, esta jovem tem gosto artístico apurado, ama secretamente um homem casado, mas permanece virgem. O extremo de sua praticidade ocorre no momento em que decide, junto com Lião, a melhor maneira de dar fim ao corpo de Ana Clara, para não envolver num escândalo nem a elas, nem às freiras do pensionato onde vivem. A lição da carta e da personagem é a economia, a acepção e a maturidade infantil de se livrar rápido dos problemas.
Cavaleiro de Ouros - Confiança
O velho cão na esquina. O Cavaleiro de Ouros é o símbolo da entrega e sua energia é representada por um jovem montado num cavalo segurando uma moeda de ouro. Num dos fragmentos do livro A Disciplina do Amor, um jovem vai para a guerra e não retorna. Sua noiva casa-se com outro e todos o esquecem. Porém, o cão fiel confia que um dia o dono retornará e todos os dias à mesma hora para na esquina para esperá-lo. A lição deste fragmento e desta carta é a esperança e a credibilidade.
Valete
Valete, Cavaleiros, Rainha e Rei no Naipe de Ouros do Universal Waite Tarot
Rei de Ouros - Eficiência
Xenofonte. O Rei de Ouros é um empreendedor que toma medidas eficazes. Sua figura é representada por um homem maduro sentado em um trono e segurando uma moeda de ouro. Xenofonte, no conto Apenas um Saxofone, carrega as características do Rei de Ouros. Eficiente ao extremo em realizar todos os desejos de Luisiana, sua capacidade de produzir grandes efeitos atinge o ápice quando ela, por não saber lidar com um amor assim tão devoto, pede a ele que se mate. Nunca mais Luisiana tem notícias e se Xenofonte se matou ou não fica em aberto. A lição desta carta e deste conto é estabelecer limites, pois a eficiência levada ao extremo acaba sendo ineficiente e insatisfatória.
Rainha de Ouros - Boa Sorte
O silêncio e a voz de Capitu. À Capitu não foi dada voz, mas, mesmo assim, ela conquistou seu espaço e superou o seu criador, Machado de Assis. Lygia na juventude: “Não traiu.” Lygia na maturidade: “Traiu.” Lygia na idade da razão: “Agora não sei.” Em Capitu, roteiro escrito em parceria com Paulo Emílio Sales Gomes, Lygia deu plástica e movimento a esta personagem e, a partir daí, Capitu também passou a ser sua. Pitágoras, que foi um grande gênio da matemática e também um grande místico, dizia que a unidade está na multiplicidade e vice-versa. No centro de sua ciência, Pitágoras dizia que todas as relações poderiam ser reduzidas a associações numéricas e que todas as coisas eram de fato números. Para ele, o número um é o número da unidade absoluta, do imutável que deu origem a todos os outros números. “Um” é o símbolo da mente universal e da sabedoria. O número dois representa a dualidade e a polaridade, é o estado da tensão primordial. Num conceito metafísico de opostos irreconciliáveis, o número dois evoca o conceito do bem e do mal, da luz e da escuridão, do princípio e do fim e de todos os outros opostos. Opostos que são distintos, mas que se atraem. Porque eles são a mesma energia em graus inversos, apenas as suas direções são contrárias. Deste modo, a dualidade também é uma representação da unidade. E as  metades opostas, a energia da culpa e da inocência, juntas, é que formam a unidade da personagem Capitu. Ao dizermos “traiu” ou “não traiu” perdemos a personagem, porque a energia para formar a sua completude está exatamente nessa duplicidade da dúvida e da certeza. Lygia entendeu isso e portanto a energia do sim e do não são mescladas neste roteiro brilhante. A Rainha de Ouros está associada à boa sorte, ao mundo físico e às conquistas materiais. Esta é a Capitu de Lygia, a personagem machadiana que conquistou, que transcendeu, que passou a pertencer a todos e que abarca no “uno” tanto os opostos quanto a multiplicidade energética.
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Contato com a autora:
Cláudia Ferrari é licenciada em Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira pela USP.
É autora do romance American Bar publicado pela Ed. América Literária, em 2006.
Entre vários escritos, tem a peça Take Me With You, escrita em parceria com o
dramaturgo italiano Mario Fratti, publicada nos EUA pela S.S.Literary Agency em 2011.
Para mais informações, consultas, cursos, palestras e eventos:
www.clauferrari2003.wix.com/clauferrari#!gallery
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Revisão: Ivana Mihanovich
Edição: CKR – 30/06/2015
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