Home page

12 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


O Abismo
Mauro Franco
 
Vamos tratar agora de Daath, o Conhecimento. Daath é considerada como a décima-primeira Sefira da Árvore da Vida. Existe como uma necessidade para que o raio Divino desça de Kether até Malkhut. Ela interliga Binah e Chesed.
´SArvore da Vida
Mas o que seria esta esfera? Do ponto de vista do Mapa Estático, Daath não existe, é um espaço vazio entre os Arcanos 12 (o Enforcado) e 13 (a Morte). Seu título “O Abismo” advém justamente desta estranha posição, antes da Morte, um ponto de passagem chegar à Tríade Superior ou desta para o Microcosmo inferior. Simboliza o Vazio, na linguagem oculta seria o Pleroma.
O local onde ela aparece de forma implícita seria um centro virtual em um hexagrama no Arcano 18, formado pelas Duas Torres com o Lagostim (triângulo descendente) e pela Lua e os Dois Cães (triângulo ascendente).
A Lua no G.O.Mebes Tarot
A Lua no tarô de G. O. Mebes
Ilustração de
Yeremyan-Ayvazian
 
Pela filosofia oriental ela é um chacra oculto localizado um pouco abaixo do plexo cardíaco que uma vez ativado transforma este plexo fazendo com que ele passe de 12 pétalas para 14 pétalas. Alguns textos a chamam de “A Árvore dos Desejos”. Seu desenho nestas tradições é de uma poltrona vazia.
Para a filosofia ocidental é o Olho do Furação, de Horus ou de Ra, o centro do Turbilhão Universal. Um centro onde duas forças agem, mas nunca se tocam. O local entre uma pessoa e sua imagem num espelho. O espaço (ou o Meio) entre cada ser humano e seu semelhante.
Pela sua definição ela “deveria” estar no conjunto, mas não está. Ela existe e não existe. Alan Moore a considera como “o que deveria estar lá, mas não está”. Seria o décimo-primeiro planeta entre Marte e Júpiter (que nunca se formou ou que foi destruído), seria a ponte invisível sobre o abismo, Atlântida ou Shambalah, um mistério, um segredo, tudo o que falta para tornar o Todo completo.
Poderia ser vista como a confluência de tudo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, de todos que poderiam existir, mas não existem, etc. Em si, seria um Buraco-Negro, a caixa onde se encontra o gato de Scroediguer, todas as possibilidades excluídas.
Vale observar,  como curiosidade, que o nome da projeção do
Arcano 16 sobre o Mundo Arquetípico é justamente “Eliminatio Logica”. Para Jung seria a “Sombra”, arquétipo que congrega todas as coisas que não existem em nós, mas que poderiam existir, todas nossas potencialidades. Potencial, Potência, Potestades, Poder.
Esta “passagem”, para os cabalistas, leva ao mundo dos Qliphoth, o inverso dos Sephiroth, um mundo negativo. O que seria este Negativo? Todas as emoções negativas, ódio, destruição. Todos os pensamentos negativos, possibilidades impensadas.
É realmente um local espantoso. Mas há uma forma de ser atravessado em segurança. Se observarmos o desenho do Arcano 22 (ou 00), poderemos ver que o Louco se dirige para um Abismo e que o cão, o instinto, procura lhe chamar a atenção. O Louco não se importa. Tudo que se escreveu até hoje sobre esta estranha situação, repentinamente se esclarece. Só um ser que não tenha mais nada a perder (ou que não se importe com perdas), que leve consigo apenas o que necessita (em um pequeno saco sobre os ombros), sem destino predeterminado, que não se importa com a própria morte (Arcano 13), que não dá ouvidos ao instinto (mesmo ao instinto de sobrevivência), solitário, Bobo, Louco. Apenas este ser consegue fazer a travessia! Para ele a ponte surge, e ele atravessa o Abismo. Uma grama a mais de peso e a ponte se rompe e ele cai dentro da boca do monstro
A segunda possibilidade é mais perigosa: ele cair e ser engolido pelo monstro. Todas as possibilidades escondidas lhe são apresentadas. Todos as vidas não vividas, todas as oportunidades, todas as dualidades ao mesmo tempo. Loucura! Mas, se ele conhecer a si mesmo, tem um ponto de referência. Como Jonas ele pode esperar pacientemente e a Baleia, o monstro que o engoliu, será obrigado a lhe restituir a liberdade. Como Jó, se ele se mantiver firme em sua fé, receberá de volta tudo que perdeu.
 
O Louco no Tarô de G.O.Mebes
O Louco no tarô de G. O. Mebes
Ilustração de
Yeremyan-Ayvazian
Os cabalistas chamam a este “local” de Pardes. Um Pomar. É dito que o homem que adentra o Pomar e sai pode sair de três formas: Herege, Louco, Morrer ou Ileso. O Pomar é um sistema de múltiplas interpretações sobre um mesmo fato. Simbolicamente há letras, um primeiro significado dado pela leitura literal das palavras, um segundo ditado pela causalidade, um terceiro pela interpretação simbólica de toda a situação e, finalmente um segredo que é o motivo pelo qual a situação foi apresentada. Quem vê apenas as três primeiras informações não consegue sair ileso mas quem vê o motivo, a origem da emanação, consegue sair ileso. É um estado de consciência bem elevado que permite uma leitura da realidade em vários níveis simultaneamente.
Este é o abismo, uma porta para realidades impossíveis, um ponto de convergência, algo fora (ou no centro) de tudo.
E, se observarmos a Roda, o Arcano 10, veremos este centro. E veremos a esfinge e entenderemos o porquê dela estar na posição em que se encontra. “Abandona todas tuas esperanças tu que adentrais este espaço”.
A Roda da Fortuna no tarô de G. O. Mebes
A Roda da Fortuna
Ilustração do tarô Mebes
por Yeremyan-Ayvazian
 
Sim, o Abismo é o Inferno! Ou Hades. O Submundo. Tudo isto, então, é um Paradoxo.
Para o raio que desce não há muitos problemas, ele passa o abismo de cima para baixo, ele é luz e para ele é fácil, ele ainda não se materializou dentro da matéria dual e grosseira.
Mas, na subida, o processo é mais complicado. Há que considerar todas as diferenciações e particularizações, todas as individualidades construídas. Voltar a ser algo Geral, Total, combinar tudo de volta, é como reconstruir Osiris. Eis então o Mito. Precisamos de Isis. E Quem é Isis? Ela é a Morte. É o Arcano 13. Sem vaidades, com todas as auto-importâncias decapitadas, sem nada de valor além de nossa alma, tudo se reagrupa e somos completos novamente.
O Arcano 13, A Morte, para a Cabala, é a letra hebraica Mem que significa Mulher. Que seria isto? Mulher, aqui, tem o sentido de Receptivo, o lado esquerdo. Receber significa estar centrado na parte Receptiva, na sensibilidade, na fragilidade, no lado emocional, com a parte ativa em segundo plano como o lado reativo. É a segunda parte da viagem do peregrino. Primeiro ele utilizou a parte masculino, Ativa, agora irá utilizar a parte Receptiva. O Mago é Homem, a Morte é Mulher.
Receptividade implica em Isis receber de volta os atributos que foram  desconsiderados,  mortos, eliminados pela Lógica.
Eis o porquê da grande dificuldade desta segunda etapa. Poderíamos pensar em Carma, pagar por tudo que fizemos, receber de volta. Ou podemos pensar em vivenciar o “outro lado” de todas nossas ações. Se antes, Ativos, chutamos o gato, agora teremos de vivenciar a parte em que o gato nos chuta. Não é um castigo! É a outra metade da vivência que tivemos antes.
Eis porque é tão complicado entender esta parte e porque criamos tantas “regras” cármicas sobre este acontecimento. Vivemos a parte “cara” da moeda e agora vamos viver a parte “coroa” dela. Jung chama esta passagem de crise da meia-idade, considera que nos voltamos para nossa parte espiritual porque estamos nos aproximando do ponto final da vida física. É a mesma coisa, apenas entendimentos, interpretações diferentes. Podemos verificar isto se considerarmos as pessoas que vivenciam a parte espiritual na primeira metade da vida e então usufruem da vida material na segunda metade. Não há uma regra quanto a isto, tudo depende do ambiente onde crescemos e como somos, qual o tipo de nossa alma e o quanto já acumulamos de vivências anteriores.
Na situação estática, no entanto, o Abismo nos leva ao plano dos Deuses, diretamente dentro da tríade superior, do chacra coronário, Kether, do mundo de onde tudo emana, do Macroposopo. Esta é nossa chance de brincar de Deus. Não Ele, por assim dizer, mas com sua capacidade plena em nós. Ocupamos aquele “assento”, o cardíaco cresce, e os milagres acontecem. Sintonizamos Brahma que sobe (Ki), Rudra que desce (Rei) e nos tornamos a Presença, Vishnu, destruímos o universo e o reconstruímos num piscar de olhos. O tempo é infinito “Entre Os Segundos”, um Aqui e Agora estático e eterno.
Contato com o autor:
Mauro Franco - maurofranco@hotmail.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 12/02/2014
Para continuar a leitura, clique nos links abaixo:
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
Publicidade Google
 
Todos os direitos reservados © 2005-2018 por Constantino K. Riemma  -  São Paulo, Brasil