Responsável: Constantino K. Riemma
 
28 de agosto de 2008
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Os baralhos denominados "Egípcios" (1791-1970)
 
  [< Galeria Kier]  
Compilação de
Constantino K. Riemma
    
    Para tratar dos chamados tarots egípcios, dividimos o material disponível em dois grupos. Aqui, reunimos informações sumárias com a finalidade de esboçar um cenário geral. O segundo grupo, com textos de aprofundamento, resenhas e galerias de imagens, poderão ser facilmente acessados pelos links indicados no correr desta apresentação.
 
A hipótese de Court de Gebelin (1781)
    
    O Tarô já circulava há pelo menos 400 anos pela Europa, com sua variada iconografia, antes que um estudioso francês, Court de Gebelin (1719-1783), imaginasse uma origem egípcia para as cartas, sugestão esta que ganhou uma expressiva acolhida e se irradiou rapidamente pelo resto do continente.
         
I. O Mágico, II. A Papisa, VI. Os Enamorados e XII. O Pendurado.
Ilustrações utilizadas pelo próprio Court de Gebelin.
    Ao tratar da hipotética origem egípcia do Tarô, no vol. 8, de sua obra “O mundo primitivo, analisado e comparado com o mundo moderno” (1781), Court de Gebelin apresenta cartas exatamente dentro do padrão corrente no final do séc. 18, similar ao do “Tarot de Marselha”. De egípcio, na verdade, apenas a imaginação da origem remota, mas sem o menor vínculo iconográfico com os símbolos legados pela civilização dos faraós.
 
  • Para uma visão de conjunto da história do Tarô veja: História
    Hipóteses de origem das cartas e paralelos com outros jogos: Hipóteses
     
     
  • Em seu Manifesto para o futuro do Tarô, Nei Naiff focaliza os principais autores envolvidos com o Tarô, no período em que as cartas ganham novas histórias e um novo status: Esoterismo e cartomancia
     
     
  • História do movimento esotérico. Para conhecer melhor o clima cultural da Europa nos séculos 18 e 19, bem como as razões para a aceitação da idéia de uma origem egípcia do tarot, consulte a tese de Rui Sá Silva Barros sobre esse período:  Tomando o céu de assalto...
     
     
  • Original, em francês, "Du Jeu des Tarots", p.365-410, vol.8, Monde primitif... no qual Court de Gebelin sugere uma origem egípcia para o tarô e discute o significado e aplicação das cartas: http://www.tarock.info/gebelin.htm
     
     
  • Tarô, símbolos egípcios ou europeus? Excertos de um trabalho em que Nádia Greco discute a tese de o tarô ter origem egípcia: Egito-Europa
     
    Etteilla e o seu tarô “egípcio” (1783)
        
        Jean-Baptiste Alliette (1738–1791), mais conhecido por Etteilla, está entre os primeiros escritores que publicaram livros com regras para utilização do tarô na cartomancia. Iniciou bem jovem seus estudos sobre as cartas, a partir de 1757, reunindo e codificando os sistemas de ler a sorte, recolhidos da tradição popular de seu tempo.
        Referido pelos comentaristas como cabeleireiro ou peruqueiro, ele se auto-intitulava professor de álgebra. Publicou seu primeiro livro, em 1770, “Etteila ou a Maneira de se recrear com um jogo de cartas”. Nele descreve as regras que preparou para utilizar o jogo de “piquet”, com um baralho de 33 cartas. Em 1791, publica seu próprio maço de baralho, intitulado Petit Etteilla (O Pequeno Etteilla), baseado em seu método de interpretação.
            
    O Ás de Copas, o Valete de Espadas e a Dama de Ouros do “Pequeno Etteilla”
    O autor apresenta este jogo “como um passatempo adequado para suprir as idéias arbitrárias que cada cartomante atribui às cartas segundo os diferentes métodos”.
    [www.lepalaisdutarot.com]
        As 33 cartas do Pequeno Etteilla constituem uma simples redução das cartas de jogar, utilizando de cada naipe apenas o ás, as cartas numeradas de 7 a 10 e três figuras: Valete, Dama e Rei. Ao total dessas 32 cartas é adicionada mais uma, que representa o consulente.
        A novidade desse baralho está na inscrição dos significados, de acordo com o posicionamento das cartas nas diferentes tiragens, recurso para codificar e popularizar a utilização do baralho para as adivinhações .
        Alliette-Etteilla, que se proclamava “Mestre da Cartomancia”, tornou-se, sem dúvida, o primeiro nome masculino famoso ligado à leitura da sorte pelas cartas. Muito atento ao que se passava ao seu redor, menos de dois anos após Court de Gebelin publicar o volume 8 de sua obra, em 1781, o nosso cartomante aparecia com seu Grande Etteilla ou Livro de Thot endossando a origem egípcia para as cartas.
        
    Cartas do baralho "Grande Etteilla ou Tarots Egípcios" (1783)
    Personagens e gestual europeus, trazem às vezes algum adereço de inspiração egípcia.
    [www.trionfi.com]
        As cartas do tarô de Etteilla, conhecido como o Grande Etteilla, são baseadas nos desenhos dos tarôs comuns dessa época, que vai do número 1, “Etteilla questionnant” (Etteilla em consulta) até o 78, Folie(A Loucura). Esse conjunto, preparado para fins divinatórios, vinha acompanhado de um livro de explicações e orientações, intitulado Maniére de tirer le Grand Etteilla ou tarots Egyptiens (Maneira de tirar o Grande Etteilla ou tarôs Egípcios).  As cartas repetem o expediente adotado no "Pequeno Etteilla" e trazem inscritos alguns significados imediatistas que se tornaram usuais na cartomancia popular praticada desde então. 
        Em 1788, Etteilla fundou a primeira associação dedicada à leitura das cartas, a Sociétée des Interprétes du Livre de Thoth (Sociedadade dos Intérpretes do Livro de Thoth). Nessa fase egípcia de sua carreira, ele pretendia revelar “a chave dos 78 hieróglifos que estão no Livro de Thot, obra de 17 magos, descendentes de Mercúrio-Thoth, gerada 1828 anos após a  Criação ou 171 após o Dilúvio”.
        Etteilla se revelou também um pioneiro do marketing moderno no campo exotérico. Foi o primeiro cartomante profissional de renome continental, que provou os bons resultados comerciais de alterar o nome, a embalagem e alguns atributos do produto para estimular as vendas.
        Considerado por muitos como um simples charlatão, não se pode negar, porém, que tinha o dom da palavra e conhecimentos gerais de simbolismos e cabala, além de grandes aptidões comerciais que o tornaram muito rico.
        Pouco sabemos de seus dons reais. Sejam quais forem, sua bem sucedida popularização da idéia de um "tarô faraônico", reverteu a favor do renome de Gebelin, até hoje intimamente associado ao tema egípcio no tarô.
     
    [www.trionfi.com]
     
        Próxima a ele, e sua seguidora, encontramos Mlle. Lernomand, que adota o baralho reduzido e simplificado. Ela é o segundo grande renome mundial no campo da cartomancia. Reproduções, bem como as imitações, de seus baralhos continuam com grande aceitação até hoje. Etteila e sua obra exerceram, igualmente, influência sobre o trabalho de Papus com o Tarot.
        
    Tarôs anônimos do séc. 19
        
        Os apanhados históricos ressaltam, em sua maioria, autores que marcaram época, sejam os sérios, sejam os polêmicos e os enganadores. Mas podemos encontrar amostras de baralhos de confecção mais acessíveis ao consumo popular, produzidos por anônimos, muitas vezes cópias não autorizadas de cartas mais conhecidas.
          
    1. O consulente, 12. A Prudência e 19. O Homem benevolente (Rei de Ouros).
    Tarô anônimo de 1845, uma imitação bem produzida do Grande Etteilla
    [www.trionfi.com - Coleção de Alexander Sukhorukow]
        O baralho reproduzido acima é um bom exemplo de cópias inspiradas em referências egípcias sugeridas por Etteilla. Foi impresso na França, por volta de 1845, sem deixar registros do autor ou do impressor.
     
    Eliphas Levi (1854), um inspirador
     
        Eliphas Levi Zahed é a tradução hebraica de Alphonse Louis Constant, um parisiense nascido em 1810. Seminarista católico, artista plástico, aplicado ao esoterismo, constitui um personagem multifacetado, que estimulou muitos outros estudiosos de seu tempo.
     
    O Carro
    Desenho de Eliphas Levi
          De seu desenho do Tarô, foram apenas divulgados algumas cartas, que elaborou com motivos da arte egípcia. Ele estabeleceu relações de cada um dos 22 trunfos com as letras do alfabeto hebraico e tornou-se inspirador direto das incursões de Falconnier e Papus com o Tarô, não só através de suas exposições, mas também com a publicação de “Dogma e ritual da alta magia (Dogme et rituel de la haute magie - 1854).
        Mais do que provar alguma origem egípica do Tarô, Eliphas Levi estava interessado em estabelecer nexos de significados com diferentes tradições, sem recusar ou se opor à herança do esoterismo cristão. Essa disposição de integração, de inclusão, nem sempre era encontrada nesse período histórico que testemunhou memoráveis embates que nos permitem compreender melhor as disposições do pensamento contemporâneo.
     
  • Biografia de Eliphas Levi. Num texto da Sociedade de Ciências Antigas com ilustrações recolhidas pelo Clube do Tarô:  > Eliphas Levi
     
     
  • Em seu Manifesto para o futuro do Tarô, Nei Naiff focaliza Eliphas Levi e outros autores empenhados em dar um caráter esotérico às cartas. Firma uma posição sobre a origem histórica do baralho.   > Manifesto
     
     
    Tarot de Papus (1889)
        
        Gérard Encausse (1865-1916), médico que se tornou célebre na França, é definido comumente como ocultista. Mais conhecido por Papus, co-fundador da “Ordem Martinista”, foi escritor, conferencista e organizou, entre outros grandes eventos, a Conferência Maçônica e Espiritualista Internacional de 1908.
        Seu livro, O Tarô dos Boêmios (1889), bastante valorizado e traduzido, é até hoje publicado no Brasil. Nessa obra, aparecem os desenhos preparados sob sua orientação, por Jean-Gabriel Goulinat, que dão roupagens egípcias aos arcanos maiores do Tarô.
            
    4. O Imperador no Tarot Papus-Goulinat
    À esquerda, como apareceu no livro, em 1889; 2ª edição revista, em 1911;
    ao centro, com os símbolos associados à carta;
    à direita, no baralho impresso pela US Games, em 1989.
        Podem ser reconhecidas nessa proposta de baralho, as direções oferecidas anteriormente por Eliphas Levi, no que se refere aos arcanos maiores, e por Etteilla quanto aos arcanos menores.
        Em síntese, temos o antigo taro europeu, simplesmente adornado com imagens de inspiração egípcia mais ou menos fiéis ao padrão artístico da antiga civilização desaparecida.
     
    O Tarô de Falconnier (1896) e Saint-Germain (1901)
        
        Transcorrido um século desde as iniciativas de Gebelin e Etteilla, surge um novo tarô pseudo-egípcio. René Falconnier publica, em Paris, seu livro “As 22 lâminas herméticas do tarot divinatório” (1896), acompanhado de 22 xilogravuras de Maurice O. Wergener. Conforme o autor do livro, os desenhos teriam sido reconstituídos “de acordo com os textos sagrados e segundo a tradição dos magos do antigo Egito”.
          
    16. Torre, 20. Julgamento, 5 de Espadas e 10 de Ouros
    As cartas 16 e 20 são de Falconnier-Wergener (1896) e os dois arcanos menores
    aparecem cinco anos após, num outro livro, atribuídos a Saint-Germain (1901).
    [www.usgamesinc.com]
        Inluenciado por Stanislas de Guaita e com poucos conhecimentos de egiptologia, Falconnier tenta reconstruir os 22 arcanos maiores de um tarô completamente "egípcio". Um bom observador logo notará que dificilmente essas cartas poderiam ser consideradas de origem egipcia.
        Poucos anos após, aparecem os 56 arcanos menores associados ao trabalho de Falconnier-Wergener, de autoria de Edgar Valcourt-Vermont, sob o pseudônimo de Conde de Saint-Germain, em seu livro Astrologia Prática: método simples para calcular horóscopos” (1901). O resultado desse acréscimo, do ponto de vista da iconografia do Egito Antigo, é ainda mais ingênuo.
        
    Tarô Kier (1971)
        
        Os “Tarots Egipcios” da Editorial Kier, de Buenos Aires, são os mais conhecidos do público brasileiro. Foram impressos pela primeira  vez em 1970, acompanhados do livro “La Cabala de Prediccion” de J. Iglesias Janeiro.
        As 56 cartas correspondentes aos arcanos menores dos baralhos clássico seguem, neste modelo argentino, o mesmo padrão dos arcanos maiores. Um layout único é mantido para as 78 cartas.
          
    4. O Imperador, 16. A Fragilidade, 53. Ressentimento e 69. O Acaso
    [www.kier.com.ar]
        O mesmo conjunto foi também impresso na Suiça, em 1984, com os títulos em inglês, com cores mais leves, como poderá ser visto na Galeria Kier .
     
  • Nelise Carbonare Vieira, taróloga que utiliza o Tarô Egípico da Kier e participa de sua divulgação no Brasil, é a autora da resenha:   > Kier
     
        
    Outros tarôs com motivos egípcios
        
        Se procurarmos na Internet encontraremos uma boa dúzia de tarôs com desenhos que reproduzem, de modo mais ou menos livre, as figurações egípcias. Na maior parte dos casos tomam sua inspiração num dos exemplos que acabamos de apresentar.
            
    XVI. Torre e XX. Julgamento, de Silvana Alasia;
    VIII. A Justiça
    , no Tarô Tansição; II. O Portal do Santuário, no Tarô Ibis.
    [www.tarotpedia.com]
        Nos catálogos de vendas de tarôs, europeus e norte-americanos, são muito difundidos os trabalhos de Silvana Alasia, artista italiana, que reproduziu os desenhos de M. O. Wergener (do Tarot Falconnier) com diferentes formatos de impressão.
     
     
     
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